Nações Unidas, 29/01/2007 – A Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas condenou os que questionam a veracidade do Holocausto sofrido por seis milhões de judeus em mãos do nazismo alemão, em uma evidente alusão ao Irã. A resolução aprovada na sexta-feira, patrocinada por 103 dos 192 países-membros da ONU, deplora “sem nenhuma reserva qualquer negação do Holocausto”, e reafirma sua aspiração a “um mundo livre de genocídios”. O regime islâmico iraniano, que não é mencionado na resolução, embarca em uma campanha de negação do massacre sofrido pelos judeus da Europa durante o regime de Adolf Hitler nos anos 30 e 40.
No mês passado, Teerã foi sede de uma conferência internacional dedicada ao revisionismo histórico do Holocausto, que teve presentes figuras ocidentais, entre elas vários acadêmicos e, inclusive, David Duke, ex-líder da organização racista norte-american Ku Klux Klan. Muitos dos participantes compartilham da visão do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, segundo a qual é exagerada a escala das atrocidades cometidas contra os judeus europeus aceita pela maioria dos especialistas do mundo.
A reunião na capital do Irã foi alvo de numerosas críticas de chefes de Estado e de governo de todo o mundo, bem como do então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, que deixou o cargo em 1º de janeiro. Contente pela resolução aprovada pela Assembléia Geral, o sucessor de Annan, Ban Ki-Moon, afirmou que reflete “a visão que prevalece na comunidade internacional”. A presidente da Assembléia Geral, Shiekha Haya Rashed Al Khalifa, natural do Bahrein e de religião muçulmana, acrescentou: “Esta é uma forte recordação a todos de que a comunidade internacional está unida em sua oposição a todos os crimes contra a humanidade”.
Ao apresentar o projeto de resolução, o representante norte-americano, Alejandro Wolff, descreveu o Holocausto como “uma das mais trágicas catástrofes morais de toda a história”, e afirmou que aqueles que a negam revelam ignorância e fracasso moral”. O representante do Irã na Assembléia Geral, Hossein Gharibi, negou-se a aderir à resolução argumentando que não tinha razões para considerar “genuínas” suas motivações. “o Irã, como muitos outros países, condena o genocídio para qualquer raça, grupo ou religião como um crime contra a humanidade”, afirmou. “Não há justiça nem justificativa na tentativa de alguns, em particular do regime israelense, de explorar crimes do passado como pretexto para cometer novos genocídios”, acrescentou Gharibi.
Com exceção do Irã, todos os países muçulmanos aderiram à resolução, embora a maioria não figurasse entre seus patrocinadores. A Venezuela, um dos principais aliados do Irã na arena internacional, apoiou a resolução, mas, criticou seus patrocinadores por não manterem um enfoque equilibrado. “Milhões de seres humanos foram vítimas do Holocausto, mas a resolução também deveria cobrir as mortes dos assassinados em Hiroxima e Nagasaki, bem como o povo palestino, que é vítima de excessos cometidos sob o pretexto da defesa própria e da segurança”, disse o representante venezuelano, Marco Palaviana.
O embaixador de Israel, Dan Gillerman, afirmou que na resolução fica subjacente a idéia de que falar e educar sobre “o brutal e sistemático assassinato do povo judeus pelos nazistas” permite chamar a atenção para os horrores do genocídio e obriga todas as nações a se comprometerem em impedir tais atrocidades. Mas, “lamentavelmente, as lições são rejeitadas em algumas partes do mundo”, afirmou, referindo-se ao Irã. “Um membro desta Assembléia Geral continua negando esta verdade eterna”, acusou Gillerman, sem citar o país islâmico.
Representando a União Européia, o embaixador alemão, Thomas Matussek, lembrou que seu país cometeu esse “crime sem precedentes em nome da nação” e que milhões de judeus e membros de outras comunidades, como os ciganos, foram assassinados durante a Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo em que exortou a comunidade internacional a lutar contra o racismo e o anti-semitismo, Matussek disse que as tentativas de distorcer fatos históricos são “um fracasso na tarefa comum de libertar o mundo destas atrocidades”.
O embaixador da Rússia, Vataly Churkin, cujo país sofreu milhões de mortes nas mãos dos nazistas, afirmou que ninguém pode permanecer indiferente diante do assunto. “O Holocausto não é apenas uma tragédia para os europeus, mas para toda a humanidade”, afirmou. Ao recordar que no último sábado foi celebrado o Dia Internacional de Comemoração do Holocausto, Churkin lembrou que foi em um 27 de janeiro que o Exército Vermelho da União Soviética libertou o campo de concentração de Auschwitz, um dos piores criados pelo nazismo. (IPS/Envolverde)

