Najaf, 13/02/2007 – Nesta segunda-feira o Irã rechaçou indignado as acusações feitas pelos Estados Unidos sobre seu suposto apoio às milícias xiitas no Iraque, que nos últimos meses mataram dezenas de soldados das forças de ocupação em atentados com bombas altamente poderosas. O porta-voz da chancelaria iraniana, Mohamad Ali Hosseini, disse nesta segunda-feira que as acusações de Washington são “inaceitáveis” e “sem fundamento”, e acrescentou que o governo norte-americano já tem experiência em fraudar evidência para justificar suas ações, como quando afirmou que o regime de Saddam Hussein (1979-2003) estava fabricando armas de destruição em massa.
Mais tarde, o próprio presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, afirmou que as acusações eram infundadas e que com elas Washington apenas tentava ocultar suas próprias falhas. Militares norte-americanos em Bagdá haviam acusado no domingo os “altos níveis” de Teerã de estarem por trás da última onda de atentados no Iraque. Estes foram cometidos com artefatos explosivos tão potentes que podem penetrar tanques blindados, que teriam sido fabricados em solo iraniano.
Por outro lado, analistas iraquianos dizem que, efetivamente, Teerã estaria por trás da crescente violência, mas, de forma indireta, e citaram como exemplo o ocorrido no dia 29 de janeiro na cidade de Najaf, quando as forças de ocupação lançaram um ataque que matou 263 pessoas. O massacre de de Nahaf provocou indignação geral e promessas de vingança dentro e fora dessa cidade, sagrada para os xiitas. As mortes, inclusive, aprofundaram uma divisão entre os próprios membros xiitas, um dos principais ramos o Islã, junto com o sunismo. Pepa primeira vez em sua história, o Iraque tem um governo dominado por xiitas, dentro dos quais há setores que abertamente apóiam o Irã.
Os mortos em Najaf eram na maioria xiitas da tribo Hawatim, contrária ao Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque, bem como ao Partido Dawa, os principais grupos políticos pró-iranianos que controlam o governo local dessa cidade e a administração central em Bagdá. Abid Ali, testemunha dos combates em Najaf, contou à IPS que tudo aconteceu quando uma procissão com cerca de 200 peregrinos da tribo Hawatim chegou à cidade para as festividades de Ashura, rito de autoflagelação em honra ao imã Hussein, neto do profeta Maomé e a figura mais reverenciada da comunidade xiita.
Foi então que, após alguns distúrbios, soldados iraquianos que estavam em um posto de vigilância mataram a tiros Hajj Sa’ad Sa’ad Nayf al-Hatemi, chefe da tribo Hawatim, que estava dentro de seu automóvel junto com sua mulher. Imediatamente, os membros da tribo atacaram o posto de vigilância para vingar a morte de seu líder. “Foi depois disto que o exército iraquiano chamou os norte-americanos, e os aviões começaram a bombardear os civis. Foi um massacre. Agora, creio que a luta interna xiita entrou em uma fase muito perigosa”, disse Ali.
A testemunha disse que a maioria dos habitantes do sul está convencida de que tudo aconteceu porque os soldados iraquianos leais ao governo pró-iraniano de Bagdá informaram às forças dos Estados Unidos que “terroristas” de um “culto messiânico” haviam atacado Najaf. Os soldados iraquianos mentiram para fazer com que as forças de ocupação acabassem com a tribo dissidente. A Associação de Eruditos Muçulmanos, grupo sunita encabeçado por Harith Al Dhari, divulgou um comunicado condenando esse ataque. O texto, que pretende salvar a brecha xiita-sunita, qualificou o massacre de “ato de vingança e extermínio político”.
“Os norte-americanos foram enganados, e sua última ação em Najaf demonstra o quanto inteligentemente os iranianos os estão levando mais adentro das areias iraquianas”, disse à IPS o especialista político iraquiano Jaafar al-Jawadi, de Bagdá. “Realmente, admiro a forma como os iranianos manejam a situação de forma profissional, enquanto os norte-americanos caminham de olhos fechados”, acrescentou. Jawadi, também ex-político xiita, disse que já acreditou nas promessas dos Estados Unidos sobre a libertação dos iraquianos, mas, agora está convencido de que as forças de ocupação são usadas pelo governo pro-iraniano em Bagdá paa lançar ataques contra tribos xiitas opositoras no sul do país.
“Realmente, não entendo o que esses norte-americanos estão fazendo, porque agora apenas são como um elefante dentro de uma loja de louças. Tudo o que fazem está errado, e estão cometendo um suicídio”, disse, por sua vez, à IPS Talib Ahmad, advogado e ativista pelos direitos humanos em Najaf. “Sem dúvida, o Irã está se beneficiando disto. Os norte-americanos simplesmente estão lutando pelo Irã, que parece ser o vencedor no Iraque, depois de tudo”, ressaltou. (IPS/Envolverde)

