Zimbábue: Ostentação e miséria

Johannesburgo,África do Sul, 16/02/2007 – Alguém que esteja para completar a avançada idade de 83 anos poderia dizer que tem todo direito de organizar uma grande festa. Mas este argumento não cai bem no caso do presidente do Zimbábue, Robert Mugabe. “O US$ 1,2 milhão que Mugabe gastará na organização de sua festa dariam para alimentar 3,2 milhões de pessoas famélicas na região de Matabeleland durante três meses”, disse à IPS o ativista Tapera Kapuya, chefe do escritório sul-africano da Conferência Constitucional Nacional, grupo que pressiona por uma nova Constituição no país. “Matabeleland ficou sem alimentos”, alertou.

O Programa Mundial de Alimentos, da Organização das Nações Unidas, disse em seu site que pretende fornecer alimento a 1,9 milhão dos 11,7 milhões de habitantes do Zimbábue, sempre e quanto todos seus projetos tenham financiamento. O dinheiro para a festa de Mugabe foi arrecadado pelo Movimento 21 de Fevereiro, criado com este propósito em 1986 e que tem por nome a data de aniversário do presidente. O grupo é dirigido por jovens da governante União Nacional Africana de Zimbábue-Frente Patriótica (Zanu-PF, sigla em inglês).

Este ano, o grupo decidiu arrecadar os fundos para organizar uma grande festa no próximo dia 24, e fez um chamado geral através de uma entrevista publicada no jornal Herald, dirigido pelo Estado. “Pelo que ouvimos, já conseguiram o dinheiro. Ao fazerem uma declaração na imprensa, simplesmente estão testando as águas para saber o que dirá o público”, afirmou kapuya. Espera-se que as comemorações aconteçam em Gweru, localidade relativamente próxima de Matabeleland, à margem da assistência alimentar, segundo afirmam alguns, por sua aberta hostilidade ao Zanu-PF.

“No Zimbábue, a assistência alimentar é distribuída através dos canais do Zanu-PF. Nos vemos em tudo isso uma forma planejada de castigar Matabeleland por não ter votado nessa força política desde as eleições de 2000”, disse o ativista. O povo de Matabeleland também está descontente com o regime de Mugabe por suas atrocidades cometidas na região durante uma campanha na década de 80, que causou a morte de milhares de pessoas, segundo a Anistia Internacional. “Diante disto, pode-se imaginar comemorar com uma luxuosa festa de aniversario perto de milhões de pessoas que vão para a cama com fome todas as noites?”, perguntou Frank Tshuma, refugiado do Zimbábue em Johannesburgo.

Os problemas em Matabeleland são agravados pela situação econômica geral do país, onde a inflação chegou a 1.593% em janeiro, superando a marca de 1.281% registrada em janeiro do ano passado, segundo dados do Escritório Central de Estatísticas. “As pessoas caminham todos os dias desde Chitungwiza até Harare, numa distância de 20 quilômetros. Não há combustível, alimentos, nem remédios. Muitos abandonam a escola porque não podem pagar as mensalidades”, disse à IPS Jerry Mashamba, representante em Johannesburgo de uma das facções do opositor Movimento para a Mudança Democrática, do Zimbábue. Por sua vez, Kapuya tem em mãos estatísticas mais perturbadoras.

“No Zimbábue as famílias média é formada por seis pessoas e, segundo o último informe do Escritório Central de Estatísticas, necessita do equivalente a US$ 150 por mês para sobreviver”, destacou. Entretanto, o salário médio no país é inferior a US$ 20 mensais. “No Zimbábue, os preços dos bens duplicam todos os dias. Os preços mostrados pelos estabelecimentos comerciais só valem para aquele momento. No dia seguinte, mudaram”, acrescentou Kapuya. Mashamba disse que somente duas classes de zimbabuenses podem enfrentar o alto custo de vida: “os leais a Mugabe e os que têm parentes no exterior que lhes enviam dinheiro”.

Tentativas da IPS para conseguir algum comentário por parte do Departamento de Informação do Zimbábue ou da embaixada desse país na África do Sul sobre os planos para o aniversario de Mugabe não tiveram resposta. Entretanto, Mugabe acusa a oposição e os zimbabuenses exilados de lançarem calúnias contra ele e seu governo. o presidente afirma que o Ocidente, liderado por Grã-Bretanha e Estados Unidos, o combatem por ter expropriado as terras de aproximadamente 4.500 agricultores brancos para entrega-las aos negros.

Esta redistribuição de terras foi feita após uma série de ocupações de propriedades no começo de 2000, e poucos meses antes de eleições nas quais o Zanu-PF esteve a ponto de ser derrotado pela oposição. Alguns acusam o partido de Mugabe de ter organizado as ocupações para ganhar apoio popular às vésperas das eleições de 2000, que foram marcadas pela violência e por denúncias de irregularidades. A reforma agrária de Mugabe e as condições climáticas adversas são consideradas os principais fatores da insegurança alimentar que o país atravessa. (IPS/Envolverde)

Moyiga Nduru

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