Mulher: Apenas estar no poder não basta

Buenos Aires, 08/03/2007 – A figura feminina à frente do Ministério da Economia não garante um viés de gênero nas políticas nessa área-chave dos países, tradicionalmente dirigida por homens. Essa é a conclusão que se tem, pelo menos, observando a gestão de mulheres na Argentina e em El Salvador. “A designação de uma ministra da economia na Argentina foi um fato a ser comemorado, e tomara que sustentável, mas não implica necessariamente um olhar de gênero”, disse à IPS a pesquisadora Natalia Gherardi.

“Que elas assumam cargos de responsabilidade na primeira linha de governo é importante, mas isso não garante que sua gestão aponte para a igualdade no desenvolvimento, pois para isso é necessário que sua designação seja resultado de uma política nesse sentido”, disse a co-autora de “Participação das Mulheres em Cargos Públicos”, trabalho editado pela Equipe latino-americana de Justiça e Gênero.

Com Gherardi concorda Ima Guirola, do Instituto de Estudos da Mulher de El Salvador, que disse à IPS que, embora a presença feminina à frente da pasta da Economia de seu país seja “um avanço importante”, isso, “por si só não redunda em políticas que contribuam para maior igualdade de gênero”. Para está especialista, em um determinado momento a equidade de gênero pode reclamar maior representatividade numérica. Entretanto, isso não se esgota no equilíbrio numérico, sendo mais importante conseguir uma incidência em políticas que tenham essa perspectiva, ressaltou.

No final de novembro de 2005, o presidente de centro-esquerda da Argentina, Néstor Kirchner, fez uma mudança no ministério que introduziu importantes novidades. Pela primeira vez foram designadas mulheres para dirigir os ministérios da Economia e da Defesa, duas áreas historicamente nas mãos de homens. A economia argentina ficou nas mãos Felisa Miceli, que até então era presidente do estatal Banco de la Nación, e as forças militares sob o comando de Nilda Garré. Nesta última pasta já havia antecedentes na Colômbia, no Chile e Uruguai.

O avanço feminino é considerado o fruto de anos de trabalho silencioso que as preparou para a máxima responsabilidade, mesmo tendo de impor à força sua capacidade, explicam as especialistas. Está maior incidência de mulheres em postos de liderança também foi observado nos últimos anos na Suprema Corte de Justiça da Argentina, onde pela primeira vez duas mulheres integram este alto tribunal junto com cinco homens. Além disso, já aparece uma mulher no horizonte próximo eleitoral deste ano na luta para substituir Kirchner. Ninguém menos do que sua mulher, a senadora Cristina Fernández. Todas as pesquisas de intenção de votos dão como ganhadores qualquer dos dois que representarem o governante Partido Justicialista (peronista).

Apesar destes êxitos das argentinas, Gherardi entende que nas nomeações e nos projetos de candidaturas para as eleições deste ano “não há a decisão de adotar uma ação positiva do ponto de vista de gênero”. Se isso existisse, deveria haver mais nomeações e múltiplas medidas com essa orientação. A sindicalista Zunilda Valenciano confirma. Como presidente do capítulo argentino do Fórum de Mulheres do Mercosul (formado também por Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela), disse à IPS que a gestão de Miceli está centrada nos resultados da macroeconomia e não há políticas especificas para a promoção da mulher.

“As mulheres têm mais dificuldades do que os homens de acesso ao crédito, sobretudo se somos sozinhas, e não falo de um crédito hipotecário que é mais difícil, mas de pequenos empréstimos pessoais ou para um empreendimento”, denunciou a dirigente sindical. Na Argentina, a chegada de mulheres à atividade política esteve condicionada desde o começo dos anos 90 à lei de cotas, que exige a presença de pelo menos 30% de mulheres nas listas de candidatos a deputados e senadores com chances de serem eleitos, e na maioria dos parlamentos provinciais.

Mas em outras áreas, onde não há normas de ação positiva, a meta está mais longe para elas. Nenhuma mulher encabeça o Poder Executivo nas 24 províncias do país e apenas quatro são vice-governadoras. No gabinete presidencial, até a chegada de Miceli e Garré, só havia juma mulher, Alicia Kirchner, irmã do presidente e que está à frente do Ministério de Desenvolvimento Social, uma área associada a atividades tradicionalmente femininas.

Em El Salvador, o presidente Elias Saca também surpreendeu em 2004 ao designar Yolanda de Gavidia para a pasta da Economia. Em sua atitude não esteve alheio o fato de outras mulheres terem chegado ao primeiro escalão do serviço público, como é o caso da vice-presidente do país e a prefeita da capital, São Salvador. Mas a designação de Gavidia e a promessa presidencial de incentivar o desenvolvimento da mulher através de créditos, creches e outros centros de promoção não bastaram para que se pudesse notar uma mudança na política econômica, ou um destaque para uma igualdade de gênero.

“Há uma distorção na concepção de participação política de mulher. Acredita-se que isso garantirá a perspectiva de gênero”, disse Guirola. “Isto deve ser desmistificado porque leva a crer que por colocar mulheres em cargos públicos serão criadas políticas de gênero transversais em todo o governo”, acrescentou. Guirola considerou que, embora seja “exemplar” a chegada de uma mulher ao cargo, suas decisões não estão isoladas do governo que integra. E nesse sentido a gestão de Saca, favorável aos tratados de livre comércio, não é propícia para o desenvolvimento feminino.

Por essa razão, as mulheres que defendem a participação política na América Latina, consideram que a chegada a cargos de máxima responsabilidade é um direito e um primeiro passo, mas que isso não bastará para melhorar as condições de vida de milhões delas sem não houver uma transformação que contemple a perspectiva de gênero. (IPS/Envolverde)

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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