Nairóbi, 16/03/2007 – O primeiro-ministro interino da Somália, Ali Mohammed Ghedi, solicitou à comunidade internacional US$ 42 milhões para garantir a segurança em Mogadíscio e realizar uma conferência pela reconciliação entre os grupos armados de seu país. Ghedi fez o pedido “aos membros da comunidade internacional, sócios e amigos da Somália” no último dia 14 na capital do Quênia, onde se reuniu com representantes dos doadores. “Queremos que nos ajudem em nossos esforços para conseguir uma reconciliação completa, governabilidade e uma paz duradoura na Somália”, disse o governante à imprensa após a reunião.
O governo prevê que o Congresso de Reconciliação Nacional reúna cerca de três mil somalianos de todos os setores sociais, incluídos líderes de clãs e facções, políticos, empresários, representantes de comunidades religiosas e da sociedade civil que vivem na diáspora. A previsão é de que a reunião começará no dia 16 de abril em Mogadíscio e se estenderá por dois meses, durante os quais os delegados abordarão todos os aspectos do conflito que começou com a derrubada do ditador Mohamed Siad Barre (1969-1991).
“A reconciliação nacional é importante para sanar as feridas causadas pelo conflito social e consolidar o caminho para a reconstrução e o desenvolvimento da Somália”, disse Ghedi. “Estamos certos de que da conferência surgirá uma paz duradoura. A desejamos porque sabemos que transformará a Somália”, disse à IPS o ministro de Reconciliação, Mohammed Abdi Hayir. O colapso do governo Barre deu lugar à lutas entre facções que deixaram milhares de pessoas mortas e muitos mais refugiados, enquanto a Somália passava mais de uma década sem um governo central.
Várias tentativas sem sucesso de restaurar a ordem no país foram seguidas pela criação de um governo de transição em 2004. Porém, a persistente insegurança obrigou o novo governo a instalar-se na localidade de Baidoa, e não na capital, e também impediu que funcionários interinos estendessem sua autoridade para além do povoado. Em novembro de 2005, Gedi sofreu um atentado em Mogadíscio. No ano passado, o presidente interino, Abdullahi Yusuf, sobreviveu a um ataque suicida em Baidoa.
Em meados de 2006, a União de Cortes Islâmicas (UCI) conseguiu o que o governo não conseguira: controlar a capital e grandes porções do território somaliano meridional. A UCI, cuja finalidade é criar um Estado islâmico, foi derrotada pelas forças de segurança do governo interino apoiadas por soldados etíopes, em uma campanha que começou no final do ano passado. Agora, uma força de manutenção da paz da União Africana está sendo enviada à Somália. Mas Mogadíscio está no centro da escalada de violência.
Yusuf mudou-se para a capital na terça-feira, dia seguinte ao que o parlamento votou para que todo o governo se localizasse em Mogadíscio. Sua residência foi alvo de um ataque com morteiro poucas horas depois de sua chegada. O governo informou que este incidente deixou dois mortos, porém, moradores da área asseguram que, na realidade, morreram 15 pessoas. Yusuf saiu ileso. Forças do governo interino e etíopes foram atacadas por insurgentes em Mogadíscio. Muitos somalianos sentem simpatia pela Etiópia. Entre os dois países há uma história de relações tensas. Também se diz que um avião que transportava soldados de paz ugandenses foi alvo de disparos na semana passada, o que provocou o incêndio do aparelho quando se preparava para pousar na capital.
Essa violência começou a fazer vítimas inclusive entre os que não ficaram presos no fogo cruzado. “A maioria dos residentes em Mogadíscio parece preocupada, desesperada e indefesa. A maior parte dos serviços, como transporte, foi afetada e as pessoas só podem aventurar-se a sair”, informou um morador desde a capital. “A população começou a fugir. Encontrei gente no Estado de Sheikh Suffi, que também foi atacado por morteiros, fugindo levando roupa de cama na cabeça para o povoado de Barawe, a cerca de 40 quilômetros de Mogadíscio. Todos estão tensos e preocupados com o bombardeio indiscriminado, que não cessa”, afirmou a fonte.
O alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados calcula que 40 mil pessoas fugiram da capital em fevereiro, com resultado dos distúrbios. As autoridades somalianas culpam os remanescentes da UCI pela insurgência na capital e renovam as acusações de que os tribunais têm filiação terrorista. Tanto a Etiópia quanto os Estados Unidos demonstraram preocupações sobre possíveis vínculos entre a União e a rede terrorista Al Qaeda, do saudita Osama bin Laden. Porém, a UCI rechaçou as acusações.
“Durante os ataques (da UCI) eles contaram com o apoio de organizações terroristas que ainda tentam alimentar a insurgência. Mas, não terão êxito”, disse Gedi, lembrando que quatro mil soldados da força nacional estavam na capital dar estabilidade. Prevê-se que oito mil efetivos da União Africana assumam o controle de instalações-chave em Mogadíscio, embora ainda não tenham sido enfiados todos, segundo os informes. (IPS/Envolverde)

