Saúde: Mudança climática aumenta a dengue na América do Sul

Buenos Aires, 19/03/2007 – As alterações climáticas, como as chuvas mais intensas e persistentes na América do Sul, obrigam os países a fortalecerem a prevenção de doenças como a dengue, que desta vez afetou o Paraguai com sua variedade mais perigosa, a febre hemorrágica. “O aquecimento global aumenta o risco futuro de epidemias”, disse à IPS o entomologista Anthony Erico Guimarães, pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz, o mais importante centro de estudos e desenvolvimento de remédios contra doenças tropicais do Brasil. O aumento da temperatura global “influi diretamente na expansão da dengue ao alterar a freqüência das chuvas”, explicou.

O médico Franklin Alcaraz del Castillo, diretor do Centro Latino-americano de Pesaquisa Científica da Bolívia, disse à IPS que as imensas lagoas criadas nos últimos três meses pelas chuvas na Amazônia boliviana “alimentam a reprodução do mosquito” transmissor da dengue. Está é uma enfermidade viral transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, que a contrai ao absorver o sangue de uma pessoa infectada e provoca o contágio quando pica outra sã. Os sintomas são febre, dores de cabeça e muscular. O tipo hemorrágico também inclui fortes dores de estomago, náuseas, sangramento da pele e mucosas.

Além disso, o aquecimento global acelera o desenvolvimento do vírus dentro do vetor, amplia a zona de influência do mosquito e sua capacidade de adaptar-se a temperaturas mais frias, disse à IPS o cientista argentino Osvaldo Canziani, integrante do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática das Nações Unidas. Por isso é importante manter a prevenção, mesmo quando o termômetro indicar apenas 15 graus, ressaltou. Existe consenso científico de que o clima do planeta está aquecendo devido em parte a atividades humanas que emitem gases causadores do efeito estufa, por exemplo, a queima de gás, carvão e petróleo.

Na Bolívia há cerca de 40 mil famílias evacuadas por causa das inundações nos departamentos de Santa Cruz e Beni, que também são os mais afetados pela dengue “Está situação, a pobreza, a falta de conhecimento para defender-se do mosquito fazem com que a doença se propague”, acrescentou Alcaraz. No momento, são registrados 2.800 casos de dengue nesse país, segundo informou na quinta-feira a Unidade Nacional de Epidemiologia da Bolívia, e o especialista alertou para a necessidade de fumigar intensamente as zonas mais vulneráveis e se preparar para outros males associados à inundação, com malária, febre amarela e tétano.

No Brasil, foram registrados 85 mil casos entre janeiro e fevereiro deste ano, quase 30% a mais do que em igual período de 2006. Metade deles ocorreu no Mato Grosso do Sul, que faz limite com Bolívia e Paraguai. A variante hemorrágica afetou 55 pessoas, das quais seis morreram. “No Brasil a população está mobilizada para eliminar os focos”, os recipientes com água parada onde os mosquitos se reproduzem, disse Guimarães. No Paraguai, epicentro do foco sul-americano, as autoridades registraram cerca de 20 mil casos e 12 mortes. Entretanto, médicos desse país suspeitam que o sub-registro é enorme.

Somente no departamento Central, versões da imprensa não desmentidas pelo governo falam em 300 mil contagiados. Devido aos sintomas serem semelhantes aos da gripe, muitos pacientes se automedicam e seus casos não são registrados, afirmam médicos do Paraguai. Cada paciente infectado que não está sob cuidados rígidos pode continua contagiando se for picado novamente pelo mosquito. Além disso, estão surgindo casos hemorrágicos, mais virulentos, embora não necessariamente letais.

Existem quatro tipos de vírus da dengue. Quando uma pessoa contrai a doença, desenvolve imunidade para a variedade com a qual foi inoculada, mas se torna mais vulnerável ao outros serotipos. Se for contagiada com alguns deles pode sofrer febre hemorrágica. “A epidemia de dengue de 1999-2000 foi grande na região, mas era dengue clássica, agora, além destas também há casos hemorrágicos”, disse à IPS o médico Alfredo Siejo, encarregado da unidade de dengue do Hospital Muniz, de Buenos Aires, especializado em enfermidades infecciosas.

Na Argentina, desde 1998 foram registrados casos de dengue clássica, com alguns picos, como em 1999 e 2004, quando houve mais afetados do que os registrados este não. Agora “vimos 90 pacientes no Hospital Muniz e nenhum foi contagiado na Argentina”, destacou. Antes de apresentarem os sintomas essas pessoas estiveram no Brasil, Paraguai ou na Bolívia, onde o número de infectados é muito maior. O Aedes aegypti vive em quase todas as províncias do norte e centro da Argentina, mas somente em três pacientes de um total de 172 a infecção partiu de um mosquito autóctone, segundo as autoridades. Esses três casos correspondem à província de Formosa, próxima do Paraguai.

“O trafego permanente de pessoas desde um país que tem uma epidemia importante pode desencadear um foco aqui ou em outras cidades onde chegam os imigrantes”, disse Seijo, embora minimizando o risco de contágios por picadas em Buenos Aires. Uma situação um pouco melhor se observa no Uruguai, onde, apesar de se ter encontrado o mosquito em seis dos 19 departamentos, houve apenas quatro infectados desde o começo do ano, todos contagiados fora do país, informou à IPS o diretor-geral de Saúde do Ministério de Saúde Pública, Jorge Basso. “Os números estão dentro do esperado”, acrescentou, não descartando que a mudança climática tenha um papel na propagação da doença.

Uruguai e Canadá são os únicos países da América livres da dengue autóctone. Os mosquitos transmissores são “extremamente sensíveis à mudança climática”, disse no começo do mês o ministro argentino da Saúde, Ginés Gonzálz García. “Os ventos, a temperatura e o regime pluvial são fatores decisivos em sua distribuição e abundância”, advertiu em uma viagem à fronteira com o Paraguai. Seijo destacou que os focos de dengue coincidem com o momento de maior intensidade do El Niño, fenômeno climático periódico associado a flutuações da pressão atmosférica e da temperatura da superfície do Oceano Pacífico, que este ano afetou principalmente a Bolívia.

Desde a década de 70, na medida em que aumentava a temperatura global devido à mudança climática, as tempestades, chuvas e outros fenômenos extremos associados ao El Niño se tornaram mais freqüentes, intensos e persistentes, afirmam especialistas. Existe risco de as alterações climáticas ampliarem a distribuição geográfica de doenças como dengue, malária, leishmaniose, mal de Chagas, e, ainda, que se prolongue a estação na qual seus agentes transmissores se reproduzem. (IPS/Envolverde)

(*) Com colaborações de Mario Osava (Brasil), Franz Chávez (La Paz) e Raúl Pierri (Montevidéu).

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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