Nações Unidas, 13/04/2007 – Aproveitar o potencial dos idosos para fortalecer as famílias, as comunidades e as nações é o lema que mobiliza a sessão anual da Comissão de População e Desenvolvimento da Organização das Nações Unidas, que termina nesta sexta-feira. A população de maiores de 60 anos passara de 705 milhões, este ano, para quase dois bilhões em 2050. Nesse ano, segundo a previsão dos demógrafos, a quantidade de idosos vai superar a de crianças pela primeira vez na história. “As pessoas em todo o mundo viverem por mais tempo deveria ser visto como uma oportunidade, tanto individual quanto social”, disse à Comissão, em nom da União Européia, a representante alemã, Victoria Zimmermann von Siefart.
O representante da Organização Mundial da Saúde (OMS), Somnath Chattgerji, comemorou o fato de o envelhecimento ter passado para o centro do cenário no debate mundial sobre o desenvolvimento. “Os líderes globais agora estão conscientes de alguns dos desafios reais apresentados pelo envelhecimento da população”, afirmou Chatterji. Entre eles figuram o elevado custo dos serviços sociais, os cuidados com a saúde e as pensões e a possível escassez de mão-de-obra. Enquanto os países ricos terão de enfrentar a carga diante de doenças crônicas e a feminização do envelhecimento, o mundo em desenvolvimento deverá lidar com a carga de enfermidades e a mortalidade materna e infantil.
“Os países em desenvolvimento enfrentarão um desafio único quando suas populações começarem a envelhecer: se tornarão mais velhas antes de ficarem mais ricas”, disse Chatterji. “Precisamos incentivar para que as pessoas mais velhas continuem consumindo e contribuindo, seja em locais de trabalho informais ou formais”, acrescentou. “No mundo em desenvolvimento há uma proporção muito maior de idosos empregados, tanto por contra própria quanto no setor formal, pois precisam ganhar a vida, e continuam sendo parte da força de trabalho”, explicou.
“Se for introduzida uma idade de aposentadoria forçada ou alguma outra estrutura que incentive abandonar o trabalho, isso criará problemas, como ocorreu no mundo industrializado”, continuou Chatterji. Atualmente, no mundo em desenvolvimento há estruturas informais que permitem às pessoas idosas fazer sua contribuição, como cuidar das crianças em casa ou ajudar os vizinhos. “Existe o risco de estas estruturas serem desmanteladas. O mundo em desenvolvimento não deveria imitar o mundo industrializado nesse aspecto”, ressaltou.
Em muitas instâncias no mundo industrializado a situação financeira dos aposentados é realmente melhor do que quando estavam na ativa, na força de trabalho: têm mais dinheiro e seus gastos são menores. “Os aposentados realmente poderiam contribuir com a sociedade por mais 30 ou 40 anos, mas, são subsidiados pelo governo, por isso se perguntam por que deveriam trabalhar”, disse Chatterji.
Consultado sobre os mecanismos para manter os idosos na força de trabalho, Chatterji respondeu: “As pessoas vêem a aposentadoria como a liberdade ou um estado de satisfação no qual sentem que já fizeram a sua parte. Mas, um grande incentivo que lhes pode ser dado para que continuem trabalhando, além do econômico, é a satisfação”, disse. “Temos de encontrar maneiras criativas de incentivar está satisfação e bem-estar”, acrescentou, ou os problemas sanitários de “obesidade e enfermidade” que acompanham a inatividade da aposentadoria continuarão aumentando.
“A aposentadoria paulatina é usada por algumas empresas nos Estados Unidos para habilitar as pessoas mais velhas a darem sua contribuição por mais tempo”, disse à IPS Graham Schmidt, vice-presidente da EFI Actuaries, com sede em Nova York. “Estes programas capacitam as pessoas que passam da idade de se aposentar para manterem seus postos de trabalha, mas, trabalhando menos horas’, disse Schmidt, destacando que a retirada paulatina torna possível às companhias continuarem aproveitando a perícia dos profissionais mais experientes.
Outra estratégia destacada por Schmidt, mas como incentivo negativo, foi o corte dos benefícios médicos depois da aposentadoria para incentivar a permanência no trabalho. A maior expectativa de vida não foi acompanhada por vidas profissionais mais longas. Schidt sugeriu como solução “aumentar a idade de aposentadoria dos novos contratados”. Na realidade, a idade média para se aposentar diminuíram, disse à comissão Djankou Ndjonkouy, da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Isto supõe uma ameaça à viabilidade financeira do orçamento do Estados e, assim, um risco de que pessoas idosas sofram a exclusão social, afirmou o especialista. “Muitos idosos que gostariam de trabalhar mais tempo foram discriminados e forçados a abandonar prematuramente o mercado de trabalho ou passar a fazer trabalhos de baixa qualidade”, ressaltou. O desafio dos países de alta renda é garantir a sustentabilidade dos sistemas de proteção social, e o dos países pobres é estender a cobertura da seguridade social aos grupos mais vulneráveis da população, segundo a OIT.
“A promoção do trabalho decente é a melhor maneira de assegurar a proteção social para todos e dar aos idosos a possibilidade de permanecerem ativos por mais tempo”, disse Ndjonkou. Nos países em desenvolvimento, a pobreza entre os idosos é uma preocupação crescente. Poucos podem enfrentar a aposentadoria. As estratégias para abordar a mudança demográfica passam por fortalecer o papel da seguridade social como fator de promoção do emprego, estimulando a mudança estrutural e o crescimento econômico, acrescentou.
“Vivemos no melhor e no pior dos momentos”, disse Hania Zlotnik, diretora da Divisão de População da Organização das Nações Unidas. Nunca antes tantas pessoas haviam desfrutado de vidas tão longas e saudáveis. Chamando a comunidade internacional a trabalhar unida por um mundo para todas as idades, Thoraya Obaid, diretora-executiva do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), disse que planejadores e políticos têm muito a ganhar em matéria de estruturas etárias e dinâmicas da população.
Os países têm de responder à mutante estrutura etária com políticas e programas que atendam as necessidades de todos os grupos na sociedade, sem desconhecer o direito humano de decidir o tamanho e os tempos das famílias, acrescentou Obaid. Nesse aspecto, segundo Zlotnik, “espera-se que a Comissão solicite um financiamento internacional maior para os programas de planejamento familiar em todo o mundo”. (IPS/Envolverde)

