Bangcoc, 11/02/2005 – O presidente norte-americano, George W. Bush, enfrenta o primeiro deste de sua promessa de acabar com todas as tiranias do mundo, feita há cerca de duas semanas. O desafio não foi lançado no Oriente Médio, nas no reino hindu do Nepal. No dia 20 de janeiro, ao dar início ao seu segundo mandato, Bush declarou que "a melhor esperança para a paz no mundo é a expansão da liberdade. É política dos Estados Unidos buscar e apoiar o crescimento dos movimentos e das instituições democráticas em toda nação e cultura, com o fim último de acabar com a tirania em nosso mundo", advertiu. No dia 1167, apenas 11 dias depois, o rei Gyanendra do Nepal assumiu o controle do poder absoluto pela segunda vez em dois anos, ao dissolver o governo do centrista Partido do Congresso, declarar o estado de emergência e impor uma forte censura á imprensa.
O monarca do único reino hindu do mundo questionou a capacidade do governo encabeçado por Sher Bahadur Deuba para restaurar a paz no país, assolado por uma guerra civil entre forças governamentais e uma guerrilha maoísta inspirada no grupo peruano Sendero Luminoso. "A coroa é tradicionalmente responsável por proteger a soberania nacional, a democracia e ao direito do povo viver em paz", advertiu Gyanendra ao informa sobre o golpe em cadeia de televisão. Mais de 10.500 pessoas morreram na guerra civil desde seu início em 1996. Pouco depois do discurso do rei, foi declarado o estado de emergência. As linhas de telefone fixos e celulares foram cortadas e ficou proibido o uso de aparelhos via satélite, o que isolou o país do resto do mundo. Informes procedentes de Katmandu dão conta de que cerca de mil dirigentes políticos, sindicais e estudantis estão presos. O Real Exército Nepalês advertiu que um comitê do Ministério do Interior determinará o tempo que permanecerão presos, por até três meses.
O legislado norte-americano Patrick Leahy, do Comitê de Relações Exteriores do Senado, considerou no último dia 2 que "a democracia nunca é fácil e que não se deve subestimar a ameaça maoísta. Mas – acrescentou – a resposta não deve ser sufocar a democracia. A resposta, com disse o presidente Bush em seu discurso, é trabalhar, com ajuda da comunidade internacional, para fortalecer a democracia. O Congresso dos Estados Unidos deveria aplaudir esta oportunidade", disse Leahy. Mas, não há sinais de que a política norte-americana em relação ao Nepal vá mudar, incluindo a ajuda militar, apesar de o Departamento de Estado ter declarado que o golpe é "um retrocesso".
Washington considera terroristas os rebeldes maoístas, bem como o rei Gyanendra. O governo norte-americano tem sido um apoio importantíssimo contra a insurgência, em especial através do fornecimento de armas e treinamento militar. No ano passado, às vésperas do aniversário dos atentados de 11 de setembro de 2001, uma bomba explodiu sem deixar vítimas no American Center, uma organização de intercâmbio cultural financiada pelo governo norte-americano. Esse ato, que não foi reivindicado por nenhuma organização, aumentou o envolvimento dos Estados Unidos na luta contra os rebeldes, segundo o Grupo Internacional de Crise, um instituto acadêmico com sede em Bruxelas. "Embora tenha reiterado seu compromisso com uma solução pacífica para a insurgência, os Estados Unidos doaram outro milhão de dólares em ajuda na área de segurança e anunciou sua intenção de conseguir mais dinheiro", afirmou o Grupo.
O Congresso norte-americano decidiu pela entrega adicional de US$ 2,2 milhões em ajuda militar e US$ 40 milhões em ajuda econômica. O orçamento de 2006 prevê uma contribuição de US$ 24 milhões. "Com base nos antecedentes de apoio à luta contra a insurgência e à discrição com que Washington reagiu ao golpe, especula-se em Katmandu que o rei pode ter comunicado à embaixada suas intenções antecipadamente", disse o presidente do Grupo, o ex-chanceler australiano Gareth Evans. Gyanendra menciona com freqüência como modelo o Paquistão, governado pelo general Pervez Musharraf. Aqui está em tela a hipocrisia: os Estados Unidos apóiam plenamente o regime autoritário paquistanês.
"Não há solução militar para o conflito", entre o governo nepalês e a insurgência, disse o senador Leahy. "O Nepal é como o Afeganistão, onde um punhado de extremistas com rifles e explosivos podem causar comoção e em seguida desaparecer nas montanhas. Ao aterrorizar a população rural e explorar o abandono governamental, os maoístas ampliaram seu alcance para grandes áreas do território nacional", afirmou o legislador norte-americano. Assim, os maoístas podem ser os únicos a ganhar com o golpe de Estado. Agora, podem argumentar que não lutam contra um governo democrático, mas contra uma monarquia anacrônica e repressiva. "Têm pouco incentivo para negociar", afirmou Evans. A pergunta que persiste é se os Estados Unidos irão querer se envolver no Nepal, já que coloca como prioridade a "guerra contra o terrorismo" no Afeganistão e no Iraque. (IPS/Envolverde)

