Darfur: ONU e União Africana em difícil missão de paz

Nações Unidas, 15/06/2007 – A Organização das Nações Unidas enfrenta a árdua tarefa de organizar uma força de paz com 17 mil a 20 mil homens para enviar à problemática região sudanesa de Darfur. A iniciativa segue a um longamente esperado acordo para a criação de uma missão conjunta entre a ONU e a União Africana destinada a essa zona ocidental do Sudão, onde existe uma grave crise humanitária enraizada em conflitos étnicos.

“Como o presidente sudanês, Omar Hassan Al-Bashir, insistiu para que a força de paz seja “integrada por tropas exclusiva ou majoritariamente africanas, a ONU estará sob forte pressão diplomática para encontrar esses efetivos no curto prazo”, disse à IPS um diplomata de um país em desenvolvimento. As tropas das Nações Unidas entrariam no Sudão “sobre meu cadáver”, teria dito Al-Bashir no ano passado. Após três meses de indefinição, o mandatário modificou sua posição , mas com a condição de que os integrantes da força sejam predominantemente africanos.

Até agora, quatro países ofereceram tropas: dois africanos (Egito e Nigéria) junto com China e Paquistão, que prometeram enviar majoritariamente batalhões de engenheiros. Um contingente da União Africana, com sete mil homens, encontra-se em Darfur desde 2004 e eventualmente se integraria à nova força de paz conjunta da ONU. Nem os Estados Unidos nem os países da União Européia ofereceram tropas até o momento. Bill Fletcher, ex-presidente do Fórum Transafricano, organização que analisa a situação política da África, disse que não deveria haver soldados norte-americanos ou europeus no Sudão. “Isto seria irritante e contraproducente”, disse Fletcher à IPS.

Os Estados Unidos “carecem de autoridade moral para enviar tropas a qualquer lugar do mundo, particularmente à luz da guerra e ocupação ilegais do Iraque”, afirmou o especialista. Uma combinação de tropas africanas com não-africanas surge como uma alternativa razoável se os africanos tiverem o controle, acrescentou. Várias nações da África que desejam enviar soldados carecem dos recursos financeiros e logísticos necessários para isso. Neste aspecto, obter o apoio de nações africanas poderia aumentar as possibilidades de êxito.

“Se os sudaneses não estão dispostos a aceitar tropas que não sejam africanas, então seus aliados chineses deveriam pressiona-los para que adotem uma posição mais razoável”, disse Fletcher, escritor e ativista radicado em Nova Yorque. O melhor que os Estados Unidos podem fazer para colaborar na pacificação de Darfur nesta situação é oferecer ajuda financeira à ONU e à União Africana para saldarem os custos da operação, acrescentou. A porta-voz das Nações Unidas, Michele Montas, disse está semana que o secretário-geral da organização, Ban Ki-moon, está ansioso para implementar rapidamente a força com junta.

“A situação em Darfur chegou a um ponto em que devem ser tomadas decisões importantes. As condições humanitárias e de segurança são calamitosas. Há contínuos ataques contra civis e as tropas da UA, combates entre tribos e bombardeios”, disse Ban. O secretário-geral chamou por um imediato fim das hostilidades e para uma solução completa do conflito, que inclua a reconciliação política e o desenvolvimento econômico. Ao ser interrogado se a admissão da força conjunta por parte do Sudão é incondicional, Montas disse que o governo já havia solicitado tropas africanas.

“A ONU sempre planejou enviar uma grande número de tropas africanas na região, mas isto depende da disponibilidade existente”, acrescentou. Montas disse, ainda, que algumas questões têm a ver com a terra, o abastecimento de água e o envio das tropas ainda estão pendentes de acordo com o Sudão. A ONU e a UA têm duas opções. Um plano prevê o envio de 19.555 soldados e uma segunda alternativa implica enviar 17.605. No contingente haveria cerca de 3.772 policiais.

A iniciativa é vista como a terceira fase de um processo de três etapas para substituir a já existente, embora com recursos escassos, missão da UA em Darfur. A ONU, que pela primeira vez supervisionara uma operação conjunta deste tipo, prevê problemas de coordenação e, inclusive, de comando e controle. Um funcionário das Nações Unidas descreveu a missão como “um território desconhecido”, e disse que as dificuldades aumentam de forma diretamente proporcional à diversidade de origem dos componentes da força de paz”.

Por sua vez, Montas disse que o Sudão pediu tropas africanas sem mencionar um país em particular. Embora uma das prerrogativas do secretário-geral da ONU seja decidir a composição de qualquer missão de paz, a porta-voz acrescentou que “seria difícil enviar contingentes que não sejam aceitos pelo país anfitrião”. A ONU pretende exercer uma supervisão geral da força de paz, embora as decisões cotidianas fiquem para o comandante das tropas da UA.

Dados da ONU indicam que mais de 200 mil pessoas foram assassinadas e pelo menos três milhos foram forçadas a abandonar suas casas desde que começaram os combates entre o governo e os grupos rebeldes, em 2003. O embaixador norte-americano nas Nações Unidas, Zalmay Khalilzad, já expressou reservas sobre as exigências do Sudão. Na terça-feira foi atribuída a ele uma declaração segundo a qual “se há uma aceitação sem condições trata-se de um passo positivo ao qual daremos as boas-vindas, mas, se tal como ouvimos, existem condições como uma exigência de empregar apenas tropas africanas, isto seria inaceitável”. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *