Havana, 14/02/2005 – A América Latina conta somente com seus recursos para alcançar no prazo de 10 anos as Metas de Desenvolvimento do Milênio, mas não poderá atingi-las com puro crescimento econômico: o abismo entre ricos e pobres continua sendo o maio obstáculo. O economista-chefe do escritório regional do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Enrique Ganuza, afirmou que os países latino-americanos e caribenhos contam apenas com seus próprios recursos para responder ao desafio das Metas, pois "ninguém lhes dará ajuda não reembolsável".
A América Latina e o Caribe continuam sendo a região de maior desigualdade de renda entre ricos e pobres, um panorama que não mudou substancialmente nos últimos 20 anos, afirmou o especialista. As Metas de Desenvolvimento do Milênio foram estabelecidas em 2000 por 189 países da Organização das Nações Unidas com estratégia definitiva contra a pobreza, a desigualdade e a contaminação do meio ambiente, com prazo até 2015.
Em setembro, a Assembléia Geral da ONU realizará uma sessão especial para avaliar o andamento dessas estratégias que incluem reduzir à metade a proporção de pessoas que vivem em pobreza extrema e fome, e a população sem água potável. Entre os objetivos também figuram garantir a educação universal de meninas e meninos, promover a igualdade de gênero, reduzir a mortalidade infantil, melhorar a saúde materna, combater o HIV/aids, a malária e outras doenças e, ainda, assegurar a sustentabilidade ambiental. "Vamos ter de cumprir as metas do milênio com o que temos", disse Ganuza. Se as nações latino-americanas e caribenhas querem reduzir a pobreza e a desigualdade, devem fazer disse o centro de suas políticas públicas, o que "é um fenômeno novo" na região.
Embora "ainda com muitas deficiências", há na região 12 países com estratégias nacionais de redução da pobreza, algo que não existia em 1997, afirmou o economista durante o VII Encontro sobre Globalização e Problemas do Desenvolvimento, realizado em havana durante a semana passada. Entretanto, existem na região "altíssimos níveis de desigualdade" que dificultam a redução da pobreza a partir do crescimento econômico, advertiu. "Se atacarmos os problemas de desigualdade, as taxas de crescimento necessárias para conseguir muitas das Metas do Milênio serão muito mais normais", destacou Ganuza. Se o Brasil quer reduzir pela metade o número de pobres baseado apenas no crescimento da economia, esta deve aumentar 250%. Mas, se "até 2015 forem redistribuídos 30%" da renda, será necessário que cresça 50% para atingir a meta de pobreza, fenômeno que se repete nos demais países da área, afirmou.
"A América Latina continua sendo a região do planeta com piores indicadores de distribuição da riqueza, o que se vê agravado porque em alguns países se observa, inclusive, uma acentuação da concentração da renda", afirma o último "Panorama social da América Latina", publicado em novembro de 2004 pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Segundo a Corporação Andina de Fomento, a pobreza medida pelas pessoas que vivem com menos de dois dólares por dia inclui 37% da população do Brasil, 62% dos bolivianos, 54% dos habitantes do peru, 50% dos colombianos, 45% da população da Argentina, 48% dos habitantes da Venezuela e 39% dos mexicanos. Entretanto, "em termos de política sabemos muito pouco sobre o que há que se fazer para redistribuir a riqueza sem causar hecatombes sociais", disse Ganuza em uma das últimas sessões da reunião de havana.
A ONU estima que um bilhão de pessoas vivam em extrema pobreza em todo o mundo, subsistindo com menos de um dólar por dia. O secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, considera que "não é utópico, mas totalmente alcançável", o objetivo de reduzir à metade a proporção de indigentes. Em um discurso de mais de quatro horas, o presidente de cuba, Fidel Castro, se queixou da alta concentração da riqueza no mundo, onde há "80% (da população) que não têm quase nada e 20% que têm quase tudo", afirmou. Um relatório da ONU divulgado em janeiro em Nova York afirma que a extrema pobreza poderia ser reduzida pela metade se pusermos mãos à obra imediatamente e as nações ricas contribuírem com 0,5% de seu produto interno bruto para o desenvolvimento dos países pobres.
Até hoje, as nações industrializadas, comprometidas a entregar o equivalente a 0,7% de seu PIB ao desenvolvimento dos países mais atrasados, concederam apenas 0,25%, disse Ganuza. Entretanto, na América Latina e no Caribe isto não é decisivo (pois a região é destino quase marginal da ajuda ao desenvolvimento) e existe consciência de que as Metas do Milênio não estão vinculadas à ajuda, mas à forma como são repartidos os recursos nacionais para atingir esses propósitos, ressaltou o especialista do PNUD. Do encontro me havana participaram mais de 1.400 delegados de 42 países que debateram em comissões e sessões plenária.s (IPS/Envolverde)

