Caracas, 27/06/2007 – A Venezuela ganhou maioridade no futebol internacional ao sediar a Copa América, o torneio de seleções mais antigo do mundo, organizado a um custo milionário e em um contexto de protestos estudantis e de jornalistas em defesa da liberdade de expressão. A 42ª edição da Copa América começou a ser disputada ontem e vai até 15 de julho em nove cidades pelas seleções de Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Estados Unidos, México, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.
A Venezuela, país do beisebol até a raiz, que enviou 200 jogadores às Grandes Ligas, que são jogadas nos Estados Unidos e no Canadá, procurar entrar no “planeta futebol” pela porta da frente e à força de petrodólares. “Entre os torcedores o beisebol continua reinando, mas dividindo a preferência com o futebol, o basquete e também o voleibol e o ciclismo”, disse à IPS Cándido Pérez, editor de esportes do jornal El Nacional, de Caracas, “e o futebol também rompeu a tradicional separação geográfica e até social da febre esportiva”, acrescentou
Nos Andes do sudeste, redutos do futebol e do ciclismo, já entrou a paixão pelo beisebol, enquanto a costa caribenha, a zona mais povoada e tradicional seguidora do beisebol e do boxe, se entregou ao futebol como torcida e praticante em massa, antes própria de colônias de imigrantes ou alunos de alguns colégios. Um ponto de inflexão, concordam os analistas, foram os resultados positivos da seleção que adotou a cor “vinho tinto” (carrubio), desde que o ex-jogador Richard Paez assumiu sua direção, em janeiro de 2001, conseguindo êxitos, acariciando por momentos a classificação para o Mundial da Alemanha e criando interesse nos patrocinadores.
Paralelamente, aumentaram de maneira sustentável o preço do petróleo, motor da economia e alimento do Estado, que dispôs de quanto recurso fosse necessário uma vez que a Confederação Sul-americana de Futebol aceitou a realização do torneio na Venezuela. Cerca de US$ 1 bilhão foram gastos nesta Copa América, disse a correspondentes estrangeiros o ministro dos Esportes, Eduardo Alvarez, dos quais cerca da metade foi para a construção e remodelação de nove estádios, e uma quantidade semelhante na adequação de outras infra-estruturas, gastos com organização e deslocamento logístico. A outra disputa de dimensão continental organizada pela Venezuela, os Jogos Olímpicos de 1983, consumiram US$ 420 milhões, sendo que US$ 100 milhões foram adicionados nos últimos meses ao orçamento original.
Alvarez afirmou que não foi uma despesa feita às cegas. Para o pontapé inicial se tentou os astros Pelé ou o argentino Diego Maradona, mas seus nomes foram descartados por cobrarem quantias enormes, que não quis dizer quais são. Um estádio, o Monumental da cidade de Maturín, com capacidade para 52 mil espectadores e construído ao custo de US$ 70 milhões, foi inaugurado há apenas três dias e será usado em duas ocasiões: dia 1º de julho para os jogos do Brasil contra o Chile e do Equador diante do México, e em uma partida das quartas-de-final, uma semana depois.
O comentarista Eleazar Díaz Rangel, diretor do jornal de maior circulação, o Últimas Notícias, criticou a construção desse estádio em uma cidade onde as partidas da liga de futebol atraem no máximo 2.500 espectadores. Cada seleção vai dispor de três ônibus de luxo para seus deslocamentos, uma frota adquirida no Brasil ao custo de US$ 18 milhões. A Copa América, que pela televisão deverá ser acompanhada por até 800 milhões de espectadores em todo o mundo, mobilizará dentro da Venezuela negócios estimados em cerca de US$ 700 milhões entre hotelaria, transporte, demais gastos de turistas e bilheteria.
Esta última foi a maior fonte de irritação para o público venezuelano, pois embora a capacidade dos estádios some 660 mil lugares, na prática conseguir um ingresso foi um calvário, e as redações dos meios de comunicação se converteram em muro de lamentações para os frustrados compradores. A Federação Venezuelana de Futebol não conseguiu dissipar as suspeitas de que dezenas de milhares de ingressos, em jogos que atraem a atenção continental, foram retidas ou compradas pelo Estado para serem entregues a partidários do presidente Hugo Chávez a fim de garantir-lhe um banho de popularidade nos estádios.
Há uma semana, no amistoso entre Venezuela e País Basco para testar a grama do estádio Pueblo Nuevo, na cidade de San Cristóbal (e que recebe os presidentes Chávez e Evo Morales para a partida inicial Bolívia-Venezuela) um punhado de jovens subiu no alambrado gritando “Liberdade! Liberdade!”. É que a Copa América começou após quatro semanas de agitação de rua em uma dezena de cidades devido a contínuas manifestações estudantis, a maioria pacifica, em protesto pela retirada pelo governo do sinal da popular emissora de TV Radio Caracas Televisión (RCTV), de linha editorial de oposição e acusada de apoiar o golpe de Estado de abril de 2002 contra Chávez.
Os universitários surpreenderam com demonstrações maciças, originais táticas de não-violência e cobrança constante das autoridades para que se respeite os direitos civis, constituindo um fenômeno político novo que, segundo a maioria dos analistas, conseguiu roubar a iniciativa do governo. “Não vamos criar obstáculos à Copa América. Abrimos os braços para a competição e damos as boas-vindas aos que vierem para a festa’, disse à IPS Stalin González, presidente da Federação de Estudantes da Universidade Central, de Caracas, a principal do país. “Mas vamos aproveitar esta presença para fazer nossa mensagem chegar a eles”, acrescentou.
Jornalistas e artistas venezuelanos também organizam novos protestos contra o que consideram atentados ou ameaças contra a liberdade de expressão, materializados com a retirada do ar da RCTV há um mês. Uma caminhada de cinco quilômetros de jornalistas, professores e estudantes foi organizada para hoje, saindo das proximidades do estádio Olímpico Universitário em Caracas e seguindo até as instalações da RCTV, apesar das advertências do Ministro do Interior.
O ministro Pedro Carreño havia pedido aos prefeitos que negassem permissão para as demonstrações “para respeitar a milha da Fifa”, alegando que por acordo com a Confederação Sul-americana de Futebol não deveriam ser permitidas manifestações a menos de uma milha dos estádios. Chávez, e vários de seus ministros advertiram reiteradamente que responderão com energia se algum setor quiser sabotar ou criar obstáculos ao torneio.
Caracas, onde aconteceram as principais manifestações estudantis, sofreu na segunda-feira uma surpreendente baixa na programação, pois das únicas duas partidas marcadas para seu estádio foi eliminada a semifinal prevista para 10 de julho, que foi transferida para Maracaibo, com a capital vendo apenas a disputa pelo terceiro lugar, no dia 14 próximo. Marco Túlio Paez, responsável pela Copa em Caracas, disse que a medida “é arbitrária e pouco consistente”, enquanto comentaristas identificados com a oposição afirmaram que o governo quer afastar a atenção da imprensa estrangeira que acompanha o torneio de eventuais demonstrações de descontentamento estudantil ou popular na capital.
No campo esportivo, o favoritismo acompanha o Brasil, apesar da ausência de várias de suas grandes estrelas, para revalidar o título que conquistou no Peru em 2004, e os especialistas vêem na Argentina seu principal rival. Mas também se fala da trajetória do Uruguai, a capacidade de surpreender do Paraguai ou da Colômbia e a decisão da Venezuela de, pelo menos, deixar de ser a esquecida do futebol sul-americano. (IPS/Envolverde)

