Direitos Humanos: Repressão atinge o movimento estudantil no Irã

Teerã, 13/07/2007 – Seis membros da maior organização estudantil do Irã, o Escritório para Fomentar a Unidade, se expuseram a uma detenção por tempo indeterminado ao organizarem um protesto contra o regime do presidente Mahmoud Ahmadinejad. Com era de se esperar, na segunda-feira foram presos os seis estudantes que estavam fora da Universidade de Tecnologia Amirkabir, em Teerã, enquanto se manifestavam em recordação ao ataque contra o movimento estudantil cometido em 9 de julho de 1999. Mais tarde, as sedes da Organização de Ex-alunos do Escritório para Fomentar a Unidade foram alvo de novas blitze e outros 10 ativistas acabaram presos. Pessoal de segurança disparou para o ar, quebrou portas e levou documentos e computadores, informou Advar News, o portal de notícias da entidade.

“Um, dia antes do aniversário do 9 de julho, o escritório de relações públicas da Universidade Tecnológica Amirkabir anunciou que no dia seguinte a eletricidade seria cortada para manutenção e que a universidade estaria fechada, mas, era óbvio que não havia problema elétrico. Simplesmente queriam altera os planos dos estudantes para comemorar o 9 de julho”, disse à IPS uma ativista estudantil que pediu para não ter sua identidade revelada.

“A manifestação dos principais membros do Escritório para Fomentar a Unidade, que portavam cartazes alusivos à data e protestavam contra a detenção de oito estudantes, começou às seis horas da manhã na porta da universidade. Foram presos e dispersados por volta das 7h30, para que não pudessem chamar a atenção do público”, acrescentou a jovem. Há oito anos, no dia 9 de julho de 1999, o campus da Universidade de Teerã foi invadido por policiais, funcionários da segurança e pessoas vestidas com roupas civis.

Os quartos e os pertences dos estudantes foram destruídos ou queimados, e os jovens, dos quais muitos dormiam sem saber o que ocorria do lado de foram, foram brutalmente golpeados. Alguns foram atirados pelas janelas e desde o telhado. Dezenas ficaram feridos gravemente e um morreu com vários disparos. “Na noite anterior, os estudantes haviam se manifestado pacificamente frente o campus contra a proibição imposta a um periódico reformista que publicara um documento secreto do Ministério da Inteligência sobre planos de suprimir a liberdade de imprensa, mas o protesto estudantil não teve nada fora do comum. Os de linha dura e os guardas esperavam uma desculpa para o confronto”, disse à IPS um ex-aluno da universidade que presenciou os fatos.

“Os distúrbios de rua que se seguiram foram reprimidos. Dois estudantes foram torturados para confessar na televisão que haviam recebido dinheiro do exterior para derrubar a República Islâmica. O presidente reformista (Mohammad Khatami) teve zero controle sobre os órgãos de segurança, dominados pelos setores duros, e a polícia não deu nenhuma proteção aos estudantes”, disse o ex-aluno. “Entretanto, os agentes que realizaram as ações, e os que as ordenaram, receberam proteção judicial e foram absolvidos de todas as acusações. Por outro lado, vários estudantes foram presos, julgados por instigarem distúrbios e colocados na prisão. Alguns, como Akbar Batebi, cuja imagem segurando uma camiseta ensangüentada apareceu na capa da revista britânica The Economist, ainda está na cadeia. Perdeu toda esperança, não tem a quem recorrer’, acrescentou.

Após vários anos de silenciosa indignação e desilusão com as supostas reformas de Khatami, a atividade política aumentou nas universidades iranianas. A maioria das organizações estudantis boicotou ou ficou indiferente diante das eleições, mas agora mostram novamente sinais de interesse, na medida em que se aproximam as eleições parlamentares de 14 de março de 2008.

“A pressão sobre os estudantes como um dos principais grupos de referência da sociedade se intensificou no último ano. Depois do incidente de 1999 os estudantes perderam seu interesse, por não verem nenhuma perspectiva de mudança. Também ficaram descontentes com os reformistas e o presidente Khatami por não protegê-los”, disse à IPS uma ativista que pediu para não se identificar. “Os estudantes estão voltando a participar na medida em que o governo intensifica seus esforços para controlá-los por meio de ameaça de expulsão, obstáculos para continuarem estudando e prisão. O sistema considera o movimento estudantil, junto com o feminista e o sindical, uma séria ameaça para sua existência e, portanto, recorrerá a todos os meios para eliminá-lo”, acrescentou.

Há dois meses, a publicação de uma caricatura que supostamente insultava o líder islâmico supremo do Irã, aiatolá Khamenei, em quatro boletins informativos do campus da universidade, provocou a prisão de vários ativistas. Os boletins eram administrados por membros da Associação de Estudantes Islâmicos, mas esta imediatamente alegou que as publicações eram falsas. Os oito estudantes preso no dia 3 de maio e 6 de junho ainda estão detidos sem defesa legal na prisão de Evnin, em Teerã, e dois deles se encontram na solitária, informou Amiurkabir, um boletim estudantil universitário.

No dia 22 de junho, a organização Human Rights Watch expressou seu temor pela situação dos jovens submetidos a prolongado isolamento. Vários deles não tinham contato com suas famílias desde que foram presos e corriam risco de abusos psicológicos e torturas, disse em um comunicado essa a HRW, com sede nos Estados Unidos, que pediu a Teerã que liberte os oito presos que disseram estar presos pro acusações de blasfêmia.

O Irã nega que seu governo viole os direitos humanos e intimide oponentes que defendem um caminho democrático, e diz que o Ocidente deveria se dedicar a resolver seus próprios problemas humanitários. Os estudantes protestaram reiteradamente contra a prisão de ativistas da Universidade Tecnológica de Amirkabir e de dezenas de outros de várias universidades em Mashad, a maior cidade religiosa do Irã. No último dia 5 fizeram uma greve de fome simbólica de um dia e reclamaram a libertação dos presos, informou a Agência de Notícias dos Estudantes Iranianos.

Nos últimos meses, o governo e os setores fundamentalistas que apóiam Ahmadinejad aumentaram seus ataques contra os direitos das mulheres, dos sindicatos e da imprensa. Na semana passada, a Ilna, uma importante agência de notícias de cunho reformista, teve de suspender suas atividades depois que seu editor-chefe foi forçado a renunciar. A agência havia dado ampla cobertura aos protestos estudantis. “Há duas razões para reprimir os jovens. Uma é que os fanáticos rejeitam e se indignam com a indiferença deles diante de seus valores. O aiatolá Mesbah Yazdi, mentor da linha dura do presidente, há pouco se queixou do que chama corrupção moral dos estudantes universitários. Sua outra motivação é o medo de perder as próximas eleições parlamentares”, disse à IPS um analista de Teerã que pediu para não ser identificado.

“Por falta de unidade, os setores mais conservadores perderam muitas cadeiras para os reformistas nas eleições locais realizadas há alguns meses em todo o país. Ganhar as eleições parlamentares é ainda mais vital. Se os duros querem vencer, têm de fazer todo o que puderem para silenciar seus rivais”, acrescentou o analista. “Os estudantes são como emissários dos grupos políticos. Podem levar novas idéias às suas aldeias e mobilizar as pessoas próximas a eles. Os reformistas, incentivados pelos resultados eleitorais da unidade, estão se aglutinando em torno de Khatami, cuja popularidade está novamente em alta. Para garantir a vitória, aos duros só resta reprimir os estudantes e pressionar os partidos e a imprensa”, ressaltou. (IPS/Envolverde)

Kimia Sanati

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