Miami, 16/07/2007 – Apesar das crescentes advertências de que as tempestades no Golfo do México poderiam provocar inundações catastróficas na costa sudeste dos Estados Unidos, o Corpo de Engenheiros do Exército desse país não implementou um plano de contenção que havia sido proposto para Nova Orleans.
“Houve 53 rompimentos (de diques) na Grande Nova Orleans devido ao furacão Katrina”, disse a diretora-executiva da organização de vigilância cidadã Leves.org, Sandy Rosenthal. “Na base de nosso descontentamento está o trabalho do Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos. Houve muitas desculpas por parte deles, mas não ocorreu nenhuma mudança nas operações do dia a dia aqui”, acrescentou. Somente no Estado da Lousiana morreram quase 1.600 pessoas devido ao Katrina, que inundou uma grande parte do Estado no final de agosto de 2005. Quase 900 mil pessoas ficaram sem luz em suas casas e sem seus negócios devido ao furacão.
A costa do Golfo do Mississippi também sofreu importantes perdas, com 238 pessoas mortas e 67desaparecidas. No total, a tormenta causou danos de US$ 95 bilhões. É, de longe, o furacão mais caro da história norte-americana, já que causou o dobro de dólares em prejuízos em relação aos provocados pelo furacão Andrew em 1992. A quantidade de vítimas do Katrina é incalculável. “Necessitamos de diques construídos”, disse H. J. Bosworth, Jr., engenheiro civil e diretor de investigações da Levees.org.
“O Corpo de Engenheiros reparou os danos, mas nada fizeram para reforçar os pontos fracos nos diques que não se romperam, mas que poderão ruir na próxima tempestade forte”, acrescentou. O subdiretor do Centro de Furacões da Universidade de Lousiana, Ivor van Heerden, crítico do trabalho do Corpo de Engenheiros a respeito dos diques de Nova Orleans, compartilha da opinião de Bosworth Jr. “Cada vez que podem reduzir o custo de um projeto de diques, o fazem. Há testes geotécnicos que podem ser feitas, analisando a fortaleza do solo antes de construir os diques”, afirmou, ressaltando que isto nunca foi feito.
Van Heerden deu seu testemunho escrito ao Comitê de Meio Ambiente e Obras Públicas do Senado norte-americano, um dos numerosos comitês que lideraram as cinco investigações sobre as falhas em diques e muros de contenção. “A maioria das inundações de Nova Orleans se deveram à insensatez humana. A sociedade deve uma desculpa aos que perderam suas vidas e às aproximadamente cem mil famílias que perderam tudo o que tinham. E também é preciso construir casas e compensar os empregos perdidos”, afirmou Van Heerden ao Congresso dos EUA.
“A primeira coisa que aprendemos com o Katrina foi sobre nossas respostas em situações de emergência. É preciso ter um plano em caso de rompimento de um dique”, afirmou o porta-voz do Corpo de Engenheiros, Vic Harris. “Aprendemos com o Katrina que não tínhamos um adequado equipamento de comunicações para manter contato com as agências locais e estatais. E também aprendemos que necessitamos de treinamento antes de uma grande tempestade, tais como testar nossos equipamentos”, afirmou, acrescentando que os trabalhos nos diques estão em curso.
Um engenheiro de Nova Orleans que concorda que o sistema de diques agora é mais duradouro, “mas ainda precisa de melhorias”, é Carlton Dufrechou, diretor da não-governamental Fundação para a Bacia do Lago Pontchartrain, que tem 50 mil membros. “Em geral, minha opinião é que o sistema de diques é melhor do que em 29 de agosto de 2005 (quando o Katrina arrasou a cidade e boa parte do Estado). Na realidade, o sistema está em muito melhor forma do que antes do furacão. Creio que os novos muros de contenção (obra do Corpo de Engenheiros) que foram construídos no lago Pontchartrain são a parte mais significativa de todo o processo de reconstrução”, afirmou.
Dufrechou, que trabalhou para o Corpo de Engenheiros entre 1986 e 1992, foi consultado sobre a afirmação de Van Heerden, que aparece no informe da semana passada, dizendo que essa divisão militar tentou simplificar os projetos de diques. “As pautas federais (para projetos do Corpo de Engenheiros), pelo menos quando eu estava na ativa, tentam obter os maiores benefícios para a proteção contra inundações com o menor custo”, afirmou. Funcinários estatais destacaram que as duas razões principais para a alta proporção de vítimas logo depois do rompimento dos diques – más comunicações e transporte inadequado para evacuação – agora foram abordados.
“Os cidadãos que usam mensagens de texto (por telefone celular) logo terão a capacidade de estar em contato com todas estas pessoas para alertá-las sobre a iminência de uma tempestade. Para os que não possuem esse serviço, especialmente moradores dos nossos distritos mais pobres, agora temos mais voluntários para evacuá-los”, disse John Forrest Ales, porta-voz da governadora de Louisiana, Kathleen Blanco. “Criamos mais rotas de evacuação”, afirmou Mark Smith, porta-voz do Escritório de Segurança Interna e Preparação para a Emergência de Lousiana.
Lawrence Mccleary, encarregado de Informação Pública da política estadual de Lousiana, disse à IPS que o fato de os equipamentos de comunicação serem incompatíveis entre diferentes operações de resgate foi “um grande problema”. Por isso, “o que fizemos foi ir utilizar um sistema de 700 megahertz para que todos nós pudéssemos nos comunicar com os demais. Desde o Katrina houve grandes saltos na compatibilidade das comunicações em Lousiana”, assegurou. Os cientistas também notam que há melhor compreensão da Corrente de Loope, um fluxo quente que vai no sentido horário que se estende para o norte do Golfo do México e une-se à Corrente de Yucatán e à Corrente da Flórida.
Em alguns pontos apresenta profundidade de 150 metros e alimenta “os furacões, que deixam as tormentas mais fortes”, explicou Nan Walker, oceanógrafo e instrutor da Universidade do Estado de Lousiana. Tanto o furacão Katrina quanto o Rita aumentaram muito em força quando passaram sobre as águas quentes da Corrente de Loop. “Penso que é por causa do Katrina que os cientistas e o público estão mais conscientes sobre a Corrente de Loop e a intensificação dos furacões devido a ela. Agora, há 10 modelos diferentes de furacões que são usados por centros de estudo desse fenômeno para rastreá-los”, acrescentou.
A mudança climática também é um fator no surgimento de tempestades extremamente poderosas, de categoria cinco, como o Katrina. “O impacto do aquecimento global sobre os furacões é um tema complexo. Não temos uma resposta confiável para o efeito do aquecimento global sobre o número de furacões, já que existem efeitos que operam nas duas direções”, afirmou James Hansen, do Instituto Goddard de Estudos Científicos da Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (Nasa) dos Estados Unidos, ao ser entrevistado por correio eletrônico. Entretanto, acrescentou que, “com o aquecimento global, há potencial para se ter furacões mais fortes e, portanto, mais prejudiciais. Esse resultado é quase certo”, ressaltou. (IPS/Envolverde)
* Este artigo é parte de uma série sobre desenvolvimento sustentável produzida em conjunto pela IPS (Inter Press Service) e IFEJ (siglas em inglês de Federação Internacional de Jornalistas Ambientais).


