Washington, 06/08/2007 – Os grupos em luta na Palestina devem se reconciliar e trabalhar unidos para conseguir uma paz sustentável, de acordo com o Grupo Internacional de Crise (ICG), organização não-governamental dedicada à prevenção e resolução de conflitos internacionais. Um estudo desse organismo indica que, se o moderado e laico partido Fatah e o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) chegarem a um entendimento para compartilhar o poder na Autoridade Nacional Palestina, a comunidade internacional deverá estar disposta a aceitá-lo.
O Fatah, partido criado pelo falecido líder histórico palestino Yasser Arafat e ao qual pertence o presidente Mahmoud Abbas, e o Hamas, que conseguiu a maioria nas eleições legislativas de 2006, pegaram em armas pela supremacia política em reiteradas ocasiões. “Na medida em que persiste a luta interna, o progresso para uma solução duradoura esta em um terreno escorregadio. A segurança e um processo de paz digno de confiança dependem de um grau de mínimo consenso”, entre as facções palestinas, diz o estudo.
O informe foi divulgado coincidindo com o chamado do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, de relançar o paralisado processo de paz entre Israel e Palestina, que até o momento só conseguiu uma tímida resposta por parte do Estado judeu e das nações árabes. Mas Washington parece decidido a explorar ao máximo a divisão entre os palestinos, apresentando o Fatah e o Hamas como opções claramente contrastantes sobre uma possível solução para o conflito. “Esta é a visão do Hamas, que o mundo pode apreciar” durante os últimos episódios de violência em Gaza, disse Bush no dia 16 de julho, quando propôs uma nova conferência de paz visando garantir a governabilidade e, ao mesmo tempo, reduzir a influência do Irã na região.
Se os palestinos seguirem o caminho do Hamas, acrescentou Bush, “estarão garantidos o caos, o sofrimento e a perpetuação das ofensas. Assim, se destruirá a possibilidade de estabelecer um Estado palestino” independente. “Há outra opção (…) representada pela visão do presidente Abbas e do primeiro-ministro, Salam Fayyad”, acrescentou. “A de um Estado pacífico chamado Palestina como pátria do povo palestino”, disse Bush. A melhor forma de caracterizar o discurso de Bush é considerá-lo como “uma leve pisada no acelerador de uma falida política no Oriente Médio”, afirmou Daniel Levy, ex-negociador de paz israelense e hoje associado ao centro de estudos Centry Foundation, com sede em Washington.
“O presidente persiste em aprofundar as divisões dos palestinos, insiste em impor pré-condições para uma solução baseada na existência de dois Estados e não mostra quais são seus parâmetros para um acordo final entre israelenses e palestinos”, disse Levy à IPS. “Inclusive a promessa de uma ajuda de US$ 190 milhões para um novo governo palestino é majoritariamente uma reciclagem de velhos compromissos”, acrescentou. Em junho, um foco de violência entre as facções palestinas se converteu em uma luta aberta pelo controle de Gaza, quando as forças de segurança do Hamas arrasaram posições do Fatah com o saldo de 140 mortos e mais de mil feridos.
“A indiferença sobre a sorte dos civis e das propriedades refletiram a brutalização da sociedade e a crescente desintegração das normas e dos valores desde que o atual enfrentamento entre israelenses e palestinos começou em 2000”, destaca a análise do ICG. Como resposta, o acossado presidente Abbas dissolveu o governo de unidade nacional formado após a vitória do Hamas nas eleições parlamentares de 2006, declarou o estado de emergência e designou como primeiro-ministro o pró-ocidental Fayyad, educado nos Estados Unidos. Estas condições, adotadas através de um decreto de necessidade e urgência, receberam apoio dos Estados Unidos e de Israel, mas não parecem atender à maioria dos palestinos.
O informe do ICG indica que “muitos estão de acordo com a idéia de que a instalação por Abbas de um governo sem ratificação parlamentar e os decretos presidenciais apoiando-se em faculdades legislativas violam as leis palestinas”. Washington se voltou decididamente a favor de Abbas e Fayyad, pois qualifica o Hamas, que assegurou seu firme controle sobre Gaza, de organização terrorista, apoiada pelo Irã. Isto marginalizou ainda mais o Hamas, isolou os palestinos que vivem em Gaza e aprofundou a luta entre facções. O governo Bush também pressionou Israel para que realizasse ações conciliatórias com o Fatah.
Israel reiniciou os vínculos financeiros e de segurança que havia suspenso após a vitória do Hamas nas eleições de janeiro de 2006. também começou a girar a receita aduaneira dos palestinos, que as autoridades israelenses administram, depois de retê-los por um ano. Inclusive, concedeu uma anistia para 178 “combatentes buscados”, a maioria deles membros das brigadas al-Aqsa, associadas à Fatah, e concordou em libertar da prisão 225 palestinos. Ao mesmo tempo, Israel manteve seu cerco a Gaza e nega-se a dialogar com a direção do Hamas. Mas dentro de Israel há um punhado de figuras públicas que pensam que, diante da crescente influência do Hamas, já é tempo de negociar com o grupo islâmico. Um deles é Efraim Halevy, que já chefiou o Mossad, o serviço de inteligência israelense.
“O Hamas demonstrou que, sob pressão, tem uma atitude flexível para chegar a acordos”, escreveu Halevy em uma coluna publicada na revista norte-americana New Republic, de orientação progressista. “Devem ser estabelecidos contatos para ver se é possível chegar a um armistício de longo prazo. Devemos nos olhar nos olhos duramente, em um exercício no qual o Hamas seja levado a um ponto em que aceite esse entendimento em interesse próprio”, afirmou. Porém, apenas Abbas estabeleceu um governo que excluía o Hamas Bush o proclamou “presidente de todos os palestinos” e prometeu ajudar a incipiente administração como parte de sua política “Cisjordânia primeiro”.
O Fatah controla essa região, enquanto Gaza é o reduto do Hamas. Na quinta-feira passada, em uma reunião com o gabinete de Abbas, a secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, assinou um acordo para outorgar à Autoridade Nacional Palestina US$ 80 milhões destinados a reformar seus serviços de segurança. A proposta de Bush de uma nova conferência de paz, presidida por Rice, seria uma rara ocasião, caso se concretize, para que líderes árabes e israelenses trabalhem em conjunto para a superação de suas diferenças políticas.
A maioria dos analistas acredita que a Liga Árabe e, sobretudo, a Arábia Saudita devem ser convocadas para dar maior legitimidade ao encontro. Mas, em uma entrevista à imprensa em Riad, na qual Rice esteve presente, o chanceler saudita, príncipe Saud al-Faisal, disse que seu país participaria se fossem abordados quatro temas: destino dos refugiados palestinos, definição da situação futura de Jerusalém (reivindicada como capital pelos dois lados), fronteiras de um Estado palestino e desmantelamento dos assentamentos israelenses na Cisjordânia.
“Estamos interessados em uma conferência de paz que aborde o conteúdo, não as formas’, disse Faisal. Em última instancia, um acordo de paz duradouro depende de um consenso entre as facões palestinas e a inclusão do grupo islâmico no sistema político. “Esta foi a visão original do Hamas, e apesar do clima atual de confronto continua sendo a correta”, diz o informe do ICG. (IPS/Envolverde)

