Ambiente: Ressurge idéia de um tribunal internacional do meio ambiente

Nações Unidas, 26/09/2007 – Enquanto a Organização das Nações Unidas assume um papel cada vez mais predominante no debate sobre a mudança climática, surge um renovado interesse em uma proposta de longa data para criar um tribunal internacional que julgue crimes ambientais. Porém, alguns diplomatas e ambientalistas duvidam que um tribunal desse tipo conte com o apoio político da maioria dos 192 Estados-membros da ONU. “Levaram anos para criar um tribunal internacional contra crimes de guerra, e a formação de um para crimes ambientais pode demorar gerações”, disse um diplomata do Sul em desenvolvimento.

Satish Kumar, editor da revista ambientalista Ressurgence, com sede em Londres, é um forte defensor da criação desse tribunal. “Não temos direito algum de contaminar. E se eu jogo meu lixo em sua casa, é um crime. Pode me levar ao tribunal”, disse. “Mas, se jogamos nosso lixo na natureza, esta não pode nos levar ao tribunal. A natureza deveria ter o direito de nos julgar e, portanto, a ONU deveria criar um tribunal para a natureza”, disse à IPS. Kumar destacou que os crimes ambientais – desde jogar lixo tóxico até destruição de recursos naturais em operaçoes militares – devem ser considerados “crimes contra a natureza”.

Franoise Burhenne-Guilmin, Assessor legal do Centro de Direito Ambiental da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN), com sede na Suíça, afirma que a proposta pode enfrentar algumas dificuldades legais e logísticas. “A IUCN nunca adotou uma posição formal sobre este assunto, mas membros de sua Comissão sobre Direito Ambiental (CEL) discutiram o assunto no passado”, disse à IPS. Para ele, a idéia de um tribunal internacional específico para crimes ambientais não foi apoiada pelo CEL, pois não a considerou factível. “Para criar um tribunal destas características as pessoas precisam primeiro estabelecer o que constitui um crime ambiental”, disse burhenne-Guilmin. E, mesmo que o tribunal seja criado, será preciso estabelecer normas para que possa funcionar, o que será muito difícil de ser acertado”, acrescentou.

Nos últimos anos, alguns casos de “danos ambientais’ foram levados a tribunais locais pela falta de uma instância internacional. Um caso que representou um marco foi o vazamento de mais de 11 milhões de galões quando o petroleiro Valdez bateu contra um arrecife. Uma corte de Anchorage, no Alasca, ordenou a Exxon Mobil a pagar uma compensação sem precedentes de US$ 5 bilhões para 34 mil pescadores, cujo sustento ficou afetado pela contaminação na costa. Mas logo essa compensação foi reduzida à metade por um tribunal de apelações norte-americano. Mais recentemente, uma companhia privada transportadora de matérias-primas foi alvo de um processo no valor de US$ 200 milhões por ter lançado lixo tóxico na Costa do Marfim. O pagamento foi considerado o maior para um crime ambiental na África.

O presidente do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática, Rajendra Pachauri, disse à imprensa na semana passada que drásticas mudanças no estilo de vida dos consumidores poderiam fazer uma grande diferença, “embora isso não signifique que a humanidade tenha que voltar à era da pedra”. É tempo de começar a avaliar “o tamanho da pegada que os humanos estão deixando nos ecossistemas através das emissões de dióxido de carbono e outros impactos”.

Por sua vez, o secretário-executivo da Convenção Marco das Nações Unidas sobre mudança climática, Yvo de Boer, disse que a reunião de mais de 80 líderes na segunda-feira na sede da ONU para analisar o aquecimento do planeta foi “um sinal de que há um crescente consenso sobre a necessidade de a comunidade internacional agir” a respeito do problema. Uma reunião da mesma importância, também patrocinada pelas Nações Unidas, está prevista para dezembro em Bali, na Indonésia, acrescentou. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, que na segunda-feira abriu o 62º período de sessão da Assembléia Geral, disse que a mudança climática será uma das prioridades durante sua administração de cinco anos.

Porém, Kumar, editor da Resurgence, diz ter dúvidas sobre o papel da ONU na proteção do meio ambiente. “O enfoque das Nações Unidas é muito limitado e um tanto superficial, porque ainda pensa que o meio ambiente existe para o beneficio da humanidade e por isso deve ser protegido”, disse à IPS. Esse é um enfoque muito utilitário. Os seres humanos são vistos como encarregados, como superiores e até mais importantes do que outras espécies, explicou. “Este é um conceito muito velho e antiquado. A ONU precisa ver o meio ambiente, a ecologia e a humanidade como uma rede interligada e interdependente de vida”, disse Kumar.

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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