Direitos Humanos: Milhões de iraquianos refugiados em seu próprio país

Baquba, Iraque, 06/11/2007 – Pelo menos cinco milhões de iraquianos fugiram de suas casas por causa da violência existente sob a ocupação liderada pelos Estados Unidos. Estima-se que metade deles não podem abandonar o país. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), mais de 4,4 milhões de iraquianos se transformaram em refugiados, número que muitos dos que trabalham entre eles consideram conservador. O Acnur anunciou na semana passada que dois mil iraquianos fogem atualmente de casa a cada dia. A maioria recebeu ameaça direta de esquadrões da morte ou de milícias.

As províncias onde há mais refugiados são as majoritariamente sunitas Bagdá, Diyala, Al-Anbar e Salahadeen, no centro do Iraque. Alguns que permaneceram com suas famílias contaram à IPS que não fugiram por não terem outra opção. “Não podemos abandonar nossa cidade apesar da insegurança porque não temos dinheiro para viajar nem para viver fora do Iraque”, disse à IPS Ali Muhsin, funcionário do Diretório Geral de Educação e pai de cinco filhos em Baquba, a 40 quilômetros de Bagdá.

“Por mais de um ano recebemos nosso salário apenas a cada 50 ou 60 dias, porque os insurgentes haviam ocupado a cidade inteira. Inclusive controlavam os bancos, o que impedia nossas repartições de receberem o dinheiro”, explicou Muhsin, dizendo que a maioria dos trabalhadores do sistema educacional de Diyala (onde fica Baquba) não estão legalmente empregados e, portanto, não gozam de segurança em seus salários. Por outro lado, a forte violência os impede de ir trabalhar.

“Apenas podem sobreviver no Iraque, assim, como poderiam enfrentar o gasto de viajar e viver no exterior?”, perguntou à IPS Najmeldeen Alwan, dono de um armazém radicado perto de Baquba. “Simplesmente, esperamos nosso destino”, acrescentou sua mulher, Suhir. Os iraquianos da região dizem que a maioria dos que fugiram tinham meios para fazê-lo ou capacidade para consegui-los. “Setenta por cento dos que escaparam são ricos, e os demais tinham vários recursos. Alguns venderam suas propriedades, outros gastaram suas economias para salvar a vida de seus familiares”, contou Abaid Nasir, comerciante desempregado em Baquba. Mas, não é apenas o dinheiro que decide se uma família foge ou não.

“Minha família vive em uma pequena aldeia que se acertou para defender-se de criminosos e gangues. Nossa gente a protege contra os insurgentes. Só o que os rebeldes podem fazer é bombardeá-la com morteiros”, disse à IPS Tá’ama Aed, que vive em um pequeno povoado nos arredores de Baquba. Mas a necessidade de segurança levou a população, paradoxalmente, a “não abandonar a aldeia”, afirmou. Outras famílias fizeram acordos com milícias e grupos da resistência para garantir sua proteção. “Muitas pessoas se alinharam com os insurgentes por sua segurança. Nesses casos, um dos rebeldes garante à família que nada lhe acontecerá, e comumente cumprem sua palavra”, disse Mohammed Jabur.

No Iraque não há acampamentos formais de refugiados, patrocinados pelo governo. Os acampamentos improvisados são comuns no país inteiro, mas a segurança neles é pobre. Uma razão para manter muitos iraquianos afastados é a falta de segurança nas estradas. As pessoas ouvidas pela IPS disseram que evitam viajar mais de dois ou três quilômetros além da aldeia onde mora. “Eu quero abandonar o Iraque, mas não posso porque os rebeldes controlam as estradas e todas que levam da cidade para as fronteiras”, disse Ahmed Salih, de Baquba.

No dia 1º outubro, a Síria decidiu fechar suas fronteiras aos iraquianos, exceto para solicitações de comerciantes e acadêmicos. A medida separou milhares de pessoas de suas famílias. Aproximadamente 10% da população na Síria é formada atualmente por iraquianos, e o governo disse que não tem como absorver mais refugiados. Os Estados Unidos são o país menos afetado pela crise dos refugiados. Desde que invadiu o Iraque, em 20 de março de 2003, Washington emitiu menos de dois mil vistos para iraquianos.

“Desde outubro de 2006 os Estados Unidos passaram, inclusive, a negar a existência de grandes quantidades de vulneráveis refugiados iraquianos”, disse em uma declaração escrita a organização Refugees International. “Mas seus compromissos financeiros reais não são proporcionais nem à necessidade nem ao papel dos Estados Unidos na criação da crise de refugiados. O presidente e seu gabinete de guerra ainda devem reconhecer a tragédia humana que cobrou a violência entre civis iraquianos e os países vizinhos”, acrescentou a organização. (IPS/Envolverde)

Ahmed Ali

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