Washington, 22/11/2007 – Israel e Palestina já receberam o convite para a cúpula organizada pelos Estados Unidos na cidade de Annapolis, mas isso não esclarece as dúvidas sobre a agenda e as possibilidades de se alcançar uma paz duradoura. O convite oficial feito por Washington, já confirmado por assessores do presidente palestino, Mahmou Abbas, e do primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, foi enviado uma semana antes da data prevista para a conferência, próximo dia 27. Espera-se em Annapolis, no Estado de Maryland, uma centena de representantes de governos e fóruns internacionais, com a Organização das Nações Unidas e a União Européia.
“A reunião e a forma em que se enquadra sofre dos mesmo problemas do anterior processo de paz”, disse o ex-negociador israelense Daniel Levy, hoje analista da norte-americana New America Foundation, em referência à rodada anterior de conversações promovida por Washington, há sete anos. além disso, Levy qualificou aquela instância, realizada na residência do presidente norte-americano em Camp David, de “mal concebida e mal preparada’. A cúpula de 2000, da qual participaram o então presidente norte-americano Bill Clintoin (1993-2001), o primeiro-ministro israelense, Ehud Barak (1997-2991( e o falecido líder palestino Yasser Arafat (1929-2004), terminou em frustração.
Originalmente, Washington anunciou que a cúpula de Annapolis avançaria para um acordo de paz detalhado que incluiria assuntos-chave com a condição definitiva do Estado palestino, e que contaria com ampla participação de países árabes. Mas, a incapacidade dos negociadores de Israel e Palestina para acordar uma declaração básica e a incógnita sobre os participantes na conferência semeiam dúvidas sobre a viabilidade desses objetivos. Considera-se primordial a participação dos vizinhos árabes para que as negociações sejam efetivas, pois um reconhecimento implícito de Israel daria apoio político aos debilitados representantes dos dois grupos para promover um eventual acordo entre seus cidadãos. Observadores prevêem que nenhum dos países vizinhos – entre eles Arábia Saudita e Síria, que não têm relações diplomáticas com Israel – responderá ao convite até depois da reunião da Liga Árabe, que começa hoje no Egito.
A Síria informou que só participará da cúpula se for incluída a situação das Colinas de Golan, estratégica meseta ocupada por Israel na Guerra dos Seis Dias (1967) e que desde então Damasco reclama sua devolução, uma possibilidade improvável. O escasso tempo que resta para a reunião dificultam Israel e Palestina em redigir uma declaração conjunta de princípios, um objetivo central em meio às diminuídas expectativas. “O sucesso supõe certo tipo de processo”, disse David Wurmser, ex-assessor para questões do Oriente Médio do vice-presidente norte-americano, Dick Cheney. “Vou por a barra baja. O êxito significa que a situação não piore”, disse.
Para Wurmser, o processo de paz entre Israel e Palestina não é prioritário, diante das ameaças como as que, segundo ele, representam a Coréia do Norte, Venezuela e, especialmente, Irã. Mas, considerouque o governo de George W. Bush lhe dá uma atenção desproporcional. A secretária de Estado, Condoleezza Rice, “quase deixa um buraco na atmosfera” com todas suas viagens ao Oriente Médio para preparar a cúpula. Os Estados Unidos pressionam por uma solução do problema palestino com a intenção de demonstrar boa fé diante das nações árabes e, assim, obter seu apoio contra os objetivos regionais do Irã, disse Wurmser.
Isso é consistente com as conclusões do Grupo de Estudo sobre o Iraque, que adotou um “enfoque ao revés”, para evitar o sentimento antinorte-americano e as tensões derivadas da presença de Washington nesse país, bem como dar prioridade às nações árabes em sua política externa, segundo Levy. O Grupo de Estudo sobre o Iraque é um painel de ex-legisladores, altos funcionários e especialistas criado pelo Congresso, com representação eqüitativa do governante Partido Republicano e do opositor Partido Democrata.
Com as expectativas de sucesso reduzidas de forma flagrante, a reunião de Annapolis pode ficar reduzida a um conglomerado de campanhas de relações públicas a cargo das partes envolvidas, incluindo os Estados Unidos. “Creio queisso tem a ver com o fato de Rice dar tanta ênfase em anunciar a conferência”, disse Phyllis Bennis, do Instituto de Estudos Políticos. “Rice será lembrada como quem, quando Israel bombardeava o Líbano no ano passado, parou diante do mundo e disse: ‘Não queremos um cessar-fogo’. Por isso, quer uma sessão de fotografias para ser reconhecida como promotora da paz”, afirmou.
A situação legal definitiva do Estado palestino não foi discutido e fica pouco por fazer, exceto redigir rascunhos e assiná-los, segundo especialistas. Como se não bastasse, uma disputa na mídia entre autoridades palestinas e Olmer, na semana passada, revelou como estão distanciadas as duas partes. Olmert anunciou que a formação de um Estado palestino estava condicionado ao reconhecimento do direito de retorno dos cerca de cinco milhões de palestinos refugiados. Os líderes palestinos se apressaram em rechaçar o novo pré-requisito.
Chama a atenção a ausência na cúpula de Annapolis do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas). Considerada organização terrorista pelos Estados Unidos, o Hamas enceu as eleições de janeiro de 2006, mas voltou a pegar em armas contra o partido secular Fatah, de Abbas, após uma escalada na tensão que acabou com o fracasso na formação de um governo de unidade.
As diferenças causaram uma crise em junho quando o Hamas recorreu à força e tomou o controle da faixa de Gaza, dividindo de fato a Autoridade Palestina em dois, pois o Fatah manteve o controle da Cisjordânia. A divisão da Palestina é representativa dos riscos do fracasso da conferência deste mês. Outra tentativa sem sucesso de negociações falidas e a falta de capacidade para avançar de forma satisfatória podem agravar a frustração dos palestinos e empurrar os moderados a posturas extremas.
“Se o povo palestino não observar nenhum progresso, pode haver outra intifada” alertou o líder dohamas, Khaled Mashaal, em reunião com uma delegação do Centre for the National Interest Foundation, em referência à palavra árabe usada para descrever a insurreição popular contra a ocupação israelense. A cópula de Annapolis também corre o risco de desgastar a paciência dos norte-americanos no tocante ao processo de paz entre Israel e Palestina. “A imensa maioria dos norte-americanos dá aos seus representantes grande liberdade de ação para lidar com a complexa situação no Oriente Médio”, disse o ex-senador democrata Gary Hart.”Uma cúpula não-transcendental em Annapolis, seguida de uma série de reuniões sem importância, fará com que os Estados Unidos digam “esqueçam”. (IPS/Envolverde)

