Bogotá, 03/03/2005 – O brutal assassinato de oito camponeses no noroeste da Colômbia, entre eles três crianças, foi atribuído ao exército por moradores e organizações de direitos humanos. As autoridades negam. "Agradeçam por não termos matado outro tanto porque a notícia correu muito rápido", disseram militares a 25 moradores que no dia 24 de fevereiro se dirigiam ao local da matança para buscar os cadáveres e impedir que a cena do crime fosse alterada. No dia 21 passado foram assassinados uma família e um camponês da Comunidade de Paz de San José de Apartado, uma iniciativa nascida em março de 1997 co mo apoio da Igreja Católica e que se baseia na resistência a colaborar com algum grupo armado da guerra colombiana.
Américo Incalterra, diretor-adjunto do Escritório na Colômbia do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, na quarta-feira visitou a comunidade para ouvir seus membros e as autoridades civis e militares. Segundo testemunhas, os crimes foram cometidos pelo exército nas veredas (aldeias rurais) mulatos e La Resbalosa, Serrania de Abibe, no eixo bananeiro do noroeste do país, zona de fogo cruzado na guerra colombiana de quatro décadas. San José é um estado a 12 quilômetros do município de Apartadó, no Urabá antioquino.
O ministro da Defesa, Jorge Alberto Uribe, disse na segunda-feira que "a força pública colombiana está tranqüila, não foi ela que cometeu esses atos, esses crimes, e está prestando toda colaboração com a Promotoria e a Procuradoria no esforço para esclarecer os fatos". Ao mesmo tempo, as autoridades militares afirmaram que nesse dia soldados da Brigada XVIII realizaram operações. Um dos assassinados, Luis Eduardo Guerra, de 35 anos, era o líder histórico da comunidade, que o havia designado porta-voz junto ao governo e a Corte Interamericana de Direitos Humanos, que em 2000 determinou medidas provisórias de proteção para os pacifistas.
Uniformizados que se identificaram como membros do exército detiveram, interrogaram e torturaram Guerra e em seguida o mataram, aparentemente a pauladas, como sua esposa, de 17 anos, e seu filho Deiner Andrés, de 11, afirmou um sobrevivente. De acordo com a denúncia, os militares em seguida foram à casa de Alfonso Bolívar Turbequia, nas proximidades. O relatório da Comissão de Verificação da Comunidade de Paz de San José de Apartadó, datado de domingo e distribuído na noite da segunda-feira, 28, afirma que "o exército entrou disparando" e feriu a mulher de Tuberquia, de 24 anos. Dois camponeses que caminhavam nas imediações da casa também foram alvo dos disparos. E na fuga um deles morreu.
Tuberquia, de 30 anos, que fugira com outro camponês, voltou "ao ouvir os gritos de sua companheira implorando para que o exército não matasse seus filhos", um de 18 meses e outro de 5 anos. Ele "disse à sua companheira que preferia morrer com sua família, que não podia deixá-los abandonados e voltou para casa", segundo o relato. Os cadáveres tiveram cabeças e extremidades desmembradas e foram colocados em dois buracos. A Promotoria os encontrou ao meio-dia da sexta-feira. Guerra, seu filho e sua companheira foram deixados no campo, por isso foi mais difícil encontrá-los. O grupo de 25 moradores que custodiava a evidência foi reforçado na sexta-feira com a Comissão de Verificação integrada por outros cem camponeses, designados pelo conselho interno da comunidade para produzir um relatório.
No sábado, dia 26, um soldado se aproximou de onde jaziam os corpos, recolheu um machado ensangüentado, o lavou e levou consigo, segundo uma recopilação dos fatos feita na terça-feira pela Corporação Jurídica Liberdad (CJL), associação de advogados que defende uma queixa coletiva junto á Corte Interamericana de Direitos Humanos. "O Batalhão 33 da contra-guerrilha Cacique Lutaima, da Brigada XVIII, é o responsável por este crime", disse na segunda-feira a defensora de direitos humanos Gloria Cuartas, que foi prefeita de Apartado quando aumentava a guerra, na segunda metade dos anos 90.
Na sexta-feira, Cuartas acompanhou a Comissão de Verificação, escoltada também por membros da CJL, as Brigadas Internacionais de Paz, Fellowship of Reconciliation, uma organização ecumênica internacional, e Concern América, grupo norte-americano que promove o desenvolvimento em países pobres. A Comissão se deslocou desde San José até as veredas onde ocorreram os crimes, em uma caminhada de sete horas. Funcionários da Promotoria Geral da Nação e da Procuradoria Geral (Ministério Público) foram até o local na sexta-feira, de helicóptero. A tropa "esteve nos rodeando o tempo todo, nos acusando de sermos guerrilheiros", diz o informe.
"Para nos está claro, e os testemunhos assim o confirmam, que se tratou de uma operação do exército que cercou a zona antes do massacre", desde o dia 17 de fevereiro, afirma o documento. As tropas "ainda estão em todas as veredas. A contundência das provas, a evidente presença militar na região antes, durante e depois do massacre, indicam claramente a responsabilidade do exército colombiano neste novo atentado contra a população civil", diz o relatório. "Os militares ameaçaram várias famílias das veredas advertindo que se não partissem aconteceria o mesmo com eles", acrescenta.
Desde sua criação, a Comunidade de Paz é atacada pelos direitistas paramilitares que se agrupam sob a sigla AUC (Autodefesas Unidas da Colômbia) e pelo exército que atua em coordenação com eles, afirmam denuncias dos camponeses. A guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que está a 30 anos na zona, assassinou em outubro de 1997 três camponeses que se negaram a vender alimentos aos guerrilheiros, pois haviam pactado não apoiar nenhum combatente. Em algumas ocasiões, as Farc entram com armas no espaço humanitário para realizar ações violentas, afirma o sacerdote jesuíta Javier Giraldo, próximo à comunidade.
O fio da Serrania de Abibe, de 900 metros de altura, marca o limite entre as terras da Comunidade de Paz e Santa Fé Del Ralito, onde hoje se concentram os chefes paramilitares que negociam com o governo sua desmobilização. Em dezembro de 1997, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos determinou medidas cautelares para a comunidade, pois de aproximadamente 300 fundadores 47 haviam sido assassinados. Desde a proclamação da Comunidade morreram 152 pessoas, em sua maioria líderes. Nenhum crime foi esclarecido. O relatório da Comissão de Verificação indica que "a justiça colombiana recolheu centenas de testemunhos indicando os responsáveis. Apesar disso, a impunidade se mantém e se manterá porque é totalmente necessária para proteger os assassinos".
No dia 14 de março, o Estado colombiano deverá comparecer perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos em audiência marcada antes desses fatos, para explicar que medidas está tomando para preservar a vida dos membros da Comunidade de Paz. Em abril de 2004, o Tribunal Constitucional da Colômbia pediu proteção efetiva para os 1.400 membros da Comunidade, alvo de matanças e assassinatos seletivos, desaparecimentos forçados e detenções arbitrárias, violações e torturas, ameaças e hostilidades, incêndio de casas e comércios, bombardeios e interdições onde são roubados seus produtos. "Estas disposições obrigam o Estado colombiano a tomar medidas especiais de segurança em favor da comunidade e de seus integrantes", advertiu na segunda-feira o escritório colombiano do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos. (IPS/Envolverde)

