AFEGANISTÃO: Preço da farinha alimenta protestos

Cabul, 28/04/2008 – O forte aumento no preço dos alimentos, especialmente da farinha, desatou distúrbios e saques em varias cidades do Afeganistão. Na semana passada, manifestantes bloquearam a principal estrada que une a l cidade de Jalalabad, no leste, com a capital Cabul e exigiram do governo que imponha o controle de preços. Nos mercados da setentrional Kunduz e nos arredores de Cabul, os comerciantes denunciaram que os clientes roubaram sacos de farinha. Em todo o país, os afegãos estão expressando sua frustração pelo acentuado aumento no preço da comida.

Alguns analistas temem que a insegurança alimentar leve milhões de pessoas a passarem fome e gere uma instabilidade política ainda maior. “Alguma coisa tem que mudar. Minha vida é espantosa”, afirmou Zahir, um coletor de lixo. Ele tentava comprar farinha para sua família de 11 membros, algo que se tornou crescentemente difícil nos últimos meses. “Já não podemos comer por causa dos aumentos”, acrescentou. “Meu filho menor chora todos os dias pedindo pão. Olhe as pessoas à nossa volta”, disse mostrando com um movimento de braço um grupo de trabalhadores, “já não podem comer todos os dias”.

O preço da farinha praticamente duplicou nos primeiros meses deste ano. O arroz aumentou 38% e outros ingredientes básicos da dieta dos pobres sofreram aumentos semelhantes. Muitos culpam os políticos. “Os legisladores recebem centenas de milhões de dólares de doadores internacionais, mas, jamais se preocuparam em solucionar este problema”, afirmou Zahir. Enquanto falava, aos gritos, uma indignada multidão se reuniu ao seu redor para denunciar o governo a reclamar que o preço dos alimentos está destruindo suas vidas. “Não posso comprar remédios porque gasto tudo o que tenho em pão”, disse um deles.

Os especialistas afirmam que o governo deve fazer mais para enfrentar o problema, mas, concordam que suas causas não podem ser totalmente atribuídas às autoridades locais, já que muitas delas têm origem na evolução dos preços no mercado internacional. Haroun Mir, do Centro Afegão para a Pesquisa e Estudos de Políticas, disse que o país não conta com fontes diversificadas de alimentos. Apesar dos esforços realizados para ressuscitar o setor agrícola, o Afeganistão depende de importações de países vizinhos como Irã e Paquistão, o que o deixa indefeso diante das flutuações da oferta. “O Irã compra os excedentes regionais para abastecer suas reservas estratégicas de alimentos, o que empurra os preços para cima”, disse Mir.

Quando o Paquistão decidiu impor restrições às suas exportações, para proteger seu mercado interno, a escalada de preços foi maior e gerou um grande ressentimento entre os afegãos a respeito de seu vizinho. Nos protestos desta semana em Jalalabad, as palavras de ordem contra o governo se misturaram com as que diziam “Abaixo o Paquistão”. Os analistas apontam que a guerra e a produção de droga reduzem a produção local de alimentos e alimentam a inflação. Nas terras mais férteis são cultivadas papoulas, porque o ópio é muito mais rentável do que o trigo. A existência de campos minados impede que sejam cultivados.

Mas, os especialistas também mencionaram fatores globais como a fonte principal dos problemas atuais. Um informe divulgado pela Avaliação Internacional do Conhecimento, da Ciência e da Tecnologia no Desenvolvimento Agrícola (IAASTD) destaca que a insegurança alimentar não responde a uma redução na oferta, mas em sua distribuição desigual. “A agricultura moderna aumentou significativamente a produção. Porém, os benefícios foram distribuídos de maneira pouco eqüitativa e a um preço intolerável, pago pelos pequenos agricultores e pelo meio ambiente”, diz o estudo.

A análise critica os países ricos, dizendo “que se opõem ferreamente a qualquer mudança nos mecanismos comerciais e nas políticas de subsídios agrícolas. Sem reformas, muitas nações pobres enfrentarão tempos difíceis”. Entre eles figura o Afeganistão, onde mais da metade de sua população vive abaixo da linha de pobreza. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) estima que o Afeganistão precisa importar mais de 500 mil toneladas de trigos para enfrentar as necessidades criadas pela crise atual.

Entretanto, o diretor para o Afeganistão do Programa Mundial de Alimentos, Rick Corsino, duvida que haja um pronto alívio da situação. “Quase ninguém acredita que os fatores que dispararam o preço do trigo a níveis recordes desaparecerão. Ninguém pensa que se voltará aos valores vigentes há 12 ou 18 meses”, afirmou. IPS/Envolverde

Anand Gopal

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *