JOANESBURGO, 06/06/2008 – Uma série de ataques na África do Sul dirigida, na sua maioria, contra migrantes africanos ceifou dezenas de vidas em recentes semanas, fazendo deslocar dezenas de milhar de pessoas Segundo informações recentes, perto de cinco milhões de migrantes estão no país, cuja população totaliza cerca de 50 milhões de habitantes. A concorrência para encontrar trabalho e o crescente custo de vida encontram-se entre os factores que contribuíram para o ressentimento contra os estrangeiros, dizem os analistas.
A maioria dos migrantes é originária do Zimbabué, país vizinho da África do Sul, onde uma persistente crise política e económica conduziu a uma inflação descontrolada, à falta de produtos básicos e ao desemprego e pobreza generalizados.
Antes da onda de violência xenófoba na África do Sul, a IPS falou com diversos zimbabueanos que tinham rumado à Missão Central Metodista na baixa de Joanesburgo, onde muitos migrantes procuram refúgio.
“Dormimos no exterior, nas ruas. Por vezes passamos dias sem comer nada; passamos semanas sem trabalhar,” conta Owen Muchanyo, de 23 anos, professor de matemática e ciências do ensino secundário, originário de Chitungwiza, uma cidade a sul da capital do Zimbabué, Harare. Estava na África do Sul há três meses.
Uma boa parte das pessoas que estão agora em Joanesburgo possui as competências necessárias para ajudar o seu país a sair do pântano em que se encontra atolado.
“Há profissionais aqui que poderão ajudar o seu país a progredir, mas viemos sofrer para aqui devido a um indivíduo no Zimbabué, e esse indivíduo é Robert Mugabe,” afirma Raymond Chingoma, analista político de 32 anos proveniente de Harare que chegou a Joanesburgo em Setembro de 2007, numa referência ao presidente do Zimbabué, há muito no poder.
Nesta altura, o Zimbabué está a passar por outra onda de violência politicamente motivada, antes da realização da segunda volta presidencial que oporá Mugabe contra o antigo dirigente sindicalista Morgan Tsvangirai; a eleição está agendada para 27 de Junho.
As eleições gerais que se realizaram no dia 29 de Março viram as duas facções do Movimento para a Mudança Democrática (MDC, na sigla inglesa) – a maior das quais é liderada por Tsvangirai — juntarem-se para retirar à União Nacional Africana do Zimbabué-Frente Patriótica (ZANU-PF) de Robert Mugabe a maioria parlamentar que detia há 28 anos.
Mugabe, que os observadores acusaram de ter perpetrado uma fraude eleitoral nas eleições presidenciais de 2002 que alguns acreditam terem sido ganhas por Tsvangirai, é acusado de usar o seu governo e partido para levar a cabo ataques brutais contra aqueles que a ele se opõem, uma táctica a que, segundo os críticos, há muito estão habituados.
“Apoiei o partido da oposição mas, com as eleições a aproximarem-se, tive de deixar o país porque tive receio da violência perpretada pelo ZANU-PF contra os apoiantes da oposição,” continuou Muchanyo. “A minha família foi espancada porque a maior parte é apoiante do MDC. A ala juvenil do ZANU-PF pilhou a minha casa, levou toda gente para a base deles e aí espancou toda a gente.”
Chitungwiza, a cidade de onde Muchanyo é natural, tornou-se um bastião do MDC e foi uma das zonas que mais sofreu durante a Operação Murambatsvina em 2005; “murambatsvina” tem sido traduzido tanto como “restaurar a ordem” como “limpar o lixo”.
Uma acção policial visando ostensivamente refrear os bairros ilegais, esta operação, de acordo com um relatório das Nações Unidas de Julho de 2005, deixou sem casa pelo menos 700.00 pessoas.
Por seu lado, o grupo zimbabueano de direitos humanos, Sokwanele, apelidou as rusgas de “Kristallnacht zimbabueana”, uma referência à destruição de propriedades judaicas em 1939 por multidões nazis na Alemanha, ao passo que o Instituto da Habitação Acessível, sediado em Boston, se referia à Operação Murambatsvina como “lento genocídio por bulldozer”.
A experiência de Muchanyo não é um incidente isolado. Em 2007, a cara inchada de Tsvangirai foi publicada em jornais de todo o mundo depois de ele e diversos apoiantes terem sido detidos e torturados pela polícia de choque.
“Algumas das coisas que oiço neste gabinete, noite após noite, nessa cadeira onde está sentado, fazem-me pensar que vamos ter grandes problemas,” disse o Bispo Paul Verryn, que dirige a Missão Central Metodista e celebra serviços religiosos e outros programas comunitários para os zimbabueanos.
“Perguntei-lhes porque motivo deixaram o país e começam com a ladainha: 'Espancaram-me, torturaram-me, bateram-me nas solas dos pés, Tenho cicatrizes nas costas, não consigo dormir à noite devido a pesadelos'.”
As opiniões das pessoas dentro da missão mostram uma diferença acentuada das do Presidente sul africano, Thabo Mbeki que, numa visita a Harare em Abril, insistiu que “não havia qualquer crise” no Zimbabué.
Na noite de 30 de Janeiro, cerca das 11 da noite, a missão foi invadida por dezenas de agentes da Polícia Sul Africana (SAPS) que alegadamente estavam à procura de armas, munições e estupefacientes — os comerciantes locais tinham-se queixado que os corredores bizantinos da estrutura com múltiplos andares se tinha tornado um esconderijo de criminosos.
Segundo algumas pessoas que alí se encontravam naquela noite, a polícia espancou selvaticamente diversas pessoas, destruíu bens e pilhou os efeitos pessoais dos residentes; cerca de 300 pessoas foram levadas imediatamente para a prisão.
Elizabeth Cheza, de 29 anos, que era escriturária de dados e voluntária do MDC antes de sair do Zimbabué em 2005, foi acordada por um agente que lhe apontou uma arma à cara e gritou-lhe que se levantasse. Contando a história no pequeno quarto da missão que partilha com uma amiga e com a filha desta de 11 meses, Cheza descreveu com simplicidade a sua experiência nessa noite.
“Estava bastante calor, portanto apenas me enrolei numa toalha para dormir,” contou. “Quando me levantei, ele (o polícia) esbofeteou-me como se eu estivesse a fazê-lo perder tempo. Levei a mão à cara, a toalha que segurava caíu, e fiquei totalmente nua em frente do homem.”
Verryn, veterano do movimento anti-apartheid sul africano, disse que também ele foi maltratado durante a rusga e viu pessoas a sangrar depois de terem sido espancadas pela polícia. Encara este incidente como um golpe contra a espécie de sociedade pós-apartheid que a África do Sul está a tentar construir.
“Por vezes, a polícia tem estado aqui e tem lidado com situações difíceis e resolvido conflitos de forma magnífica: age logo e de forma orientada,” afirmou Verryn. “Mas há um outro lado da polícia, quando ela é fascista, inflexível, cínica, não quer ouvir, é ditatorial. É tudo aquilo que não queremos.”
Por seu lado, a polícia diz que agiu com base em boas informações e que aqueles que acreditam terem sido maltratados podem recorrer à acção juridíca.
“Recebemos informações que este era um ponto central onde as pessoas cometiam crimes e fugiam para o interior do edifício,” afirmou Govindsamy Mariemuthoo, chefe de comunicações da Polícia Sul Africana na Província de Gauteng, de que faz parte a cidade de Joanesburgo. “Qualquer pessoa que tivesse sentido que os seus direitos foram violados (durante a rusga) podia apresentar queixa na estação central, onde a questão seria investigada.”
O Centro de Recursos Jurídicos, organização de prestação de serviços jurídicos de interesse público sediada em Joanesburgo, aceitou o caso dos detidos, e eventualmente conseguiu que fossem libertados após semanas de altercações com um magistrado recalcitrante.
Numa decisão ordenando a libertação dos detidos que claramente se referiu à era do apartheid, o Tribunal sul africano caracterizou a acção policial e a subsequente detenção destas pessoas como fazendo lembrar “algumas das grotescas obscenidades bem conhecidas dos membros da nossa profissão jurídica há 20 anos ” e criticou a polícia e o magistrado pelo “tratamento brutal e indiferente e, na realidade, cruel, de seres humanos.”
A mensagem do Tribunal é algo que os refugiados zimbabuenaos na Missão Metodista Central desejam que fosse ouvida por mais pessoas no seu país adoptivo.
“Vêem-nos não como vizinhos, mas como animais,” diz Chingoma. “Não nos tratam bem. Quando dizemos que estamos à procura de trabalho, tratam-nos como se não fossemos africanos, e merecessemos sofrer. Mas não merecemos esse tratamento.”

