METAS DO MILÊNIO: Crise alimentar ameaça devorar avanços

Glasgow, 23/06/2008 – Os avanços já obtidos rumo ao cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio da Organização das Nações Unidas podem ser anulados pela crise alimentar internacional, segundo participantes da oitava assembléia mundial da organização não-governamental Civicus. A conferência, realizada entre quarta-feira (18) e sábado (20) em Glasgow, Escócia, pelo terceiro ano consecutivo, reuniu cerca de ml delegados de organizações da sociedade civil de 111 países. Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, definidos em 2000 pela Assembléia Geral da ONU, incluem reduzir pela metade a proporção de pessoas que sofrem pobreza e fome, em relação aos níveis de 1990.

Outras metas são garantir educação primária universal, promover a igualdade de gênero, reduzir a mortalidade infantil e materna, combater doenças com Aids e malária, entre outras, garantir a sustentabilidade ambiental e fomentar uma associação mundial para o desenvolvimento, tudo isto até 2015.

“Pode acontecer e os países retrocederem muitos anos. É uma história de um passo à frente e dois atrás”, disse à IPS Irfan Mufti, diretor de campanha do Chamado Mundial de Ação Contra a Pobreza (GCAP). “Não estou certo de que podemos falar sobre um progresso significativo nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, já que as vítimas da crise alimentar se registram nos países em desenvolvimento”, acrescentou. Os preços mundiais dos alimentos fugiram ao controle nos últimos meses, desatando protestos em países de todo o mundo.

Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa em Políticas Alimentares, com sede em Washington, os pobres do mundo são e serão os mais afetados pela carestia, pois gastam mais da metade de sua renda familiar em alimentos. “Para os 160 milhões de pessoas em todo o mundo que sobrevivem com menos de 50 centavos de dólar por dia, a inflação no preço dos alimentos significará um desastre”, afirmou esta entidade no mês passado. Espera-se que os governos dessas nações se adaptem à situação. “Sejam quais forem as pequenas reservas para gastar em serviços sociais. “Como estes países garantirão o êxito dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio?”, perguntou Mufti.

A Civicus apela à responsabilidade mundial para garantir que os países consigam atingir os Objetivos no prazo fixado. Pede urgência às nações doadoras no cumprimento de seu compromisso de 1970 de contribuir com 0,7% de seu produto interno bruto em assistência ao desenvolvimento para os países pobres. Os governos das nações em desenvolvimento “não podem fazer isso sozinhos”, acrescentou. “Precisam da vontade política dos países industrializados também. As nações ricas devem elevar a ajuda que querem avançar rumo aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio”, ressaltou. A especialista em financiamento para a igualdade de gênero, Bisi Adeleye-Fayemi, diretora-executiva do Fundo Africano para o Desenvolvimento das Mulheres (AWDF), disse à IPS que as nações ricas renegaram sua promessa de destinar parte do PIB ao combate contra a pobreza nos países pobres.

“Isto é uma falta de responsabilidade das nações doadoras. Se não houver responsabilidade não conseguiremos as metas estabelecidas. Deveriam cumprir sua palavra”, disse Adeleye-Fayemi. O AWDF é o primeiro fundo de toda a África para financiar programas de desenvolvimento e promoção das mulheres, prioritários na agenda do movimento feminista do continente. O chamado da Civicus à responsabilidade mundial chega após o Chamado à Ação dos Objetivos do Milênio, uma iniciativa lançada no ano passado pelo primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Gordon Brown, para incentivar a comunidade internacional a acelerar o progresso rumo a essas metas. “Fizemos avanços significativos em muitos países e em todos os continentes. Mas, no meio do caminho para 2015 estamos fora da estrada”, disse Sarah Kline, líder da equipe do Chamado à Ação, do Departamento de Desenvolvimento Internacional da Grã-Bretanha.

Muitos países concretizaram avanços em matéria educacional, estabelecidos no segundo Objetivo do Milênio. A quantidade de novos matriculados no sistema aumentou 70% na África subsaariana e 88% no mundo em desenvolvimento em geral, de 2004 a 2005, segundo estatísticas da Organização das Nações Unidas. Mas, 75 milhões de crianças em idade de ir à escola primária não o fazem. A maioria deles vive na África subsaariana. E, embora as matrículas tenham aumentado, preocupa a qualidade da educação.

Infelizmente, o avanço das mulheres é muito lento na África. A representação feminina no parlamento é de 16,6% na África subsaariana e 21,8% nas regiões em desenvolvimento, segundo estatísticas da ONU de 2007. Quanto ao sexto objetivo, que propõe combater o HIV/aids, inclusive em países onde a prevalência geral do vírus é baixa ou foi reduzida, a quantidade de mulheres infectadas ainda está em aumento. “Necessitamos olhar o que alimenta a doença.

A violência contra as mulheres deve ser abordada de maneira muito especifica, com legislação. Isto está faltando, de longe, na maior parte da África”, disse Nyaradzai Gumbonzvanda, secretária-geral da internacional Associação de Jovens Mulheres Cristã. Alguns estudos mostram que a violência contra as mulheres, particularmente quando elas cobram manter relações sexuais com protegidas com seus maridos, as colocam em risco de contrair HIV/aids. As mulheres estão no centro dos esforços para cumprir este e outros Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. (IPS/Envolverde)

Joyce Mulama

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