POLÍTICA: Estados vulneráveis mais perto do abismo

Washington, 26/06/2008 – Os países fracos do ponto de vista de um colapso no final de 2006 avançaram ainda mais para o precipício no ano passado, mesmo antes da disparada dos preços de alimentos e combustíveis fomentar a instabilidade social nesses e em outros territórios, segundo estudo da revista Foreign Policy. Em sua edição de julho/agosto, a publicação norte-americana inclui o Índice de Estados Falidos 2008, que elabora junto com o não-governamental Fundo para a Paz. Nesse estudo se destaca que a Somália substitui o Sudão como país mais instável no mundo em 2007, depois que tropas etíopes, com apoio dos Estados Unidos, tiraram do poder as forças islâmicas que haviam conseguido alcançar algum grau de estabilidade em mais de 15 anos. O Sudão, que havia liderado a lista nos dois anos anteriores, passou para segundo lugar. O Zimbábue, onde a violência do governo de Robert Mugab forçou o candidato de oposição, Morgan Tsvangirai, a se retirar do segundo turno das eleições presidenciais previstas para o próximo dia 27, passou do quarto lugar que ocupou em 2006 para o terceiro.

O Índice colocou o Chade em quarto lugar no ano passado, um posto acima do Iraque, invadido pelos Estados Unidos e que na edição anterior estava no segundo lugar devido aos indícios de que a violência sectária estava se transformando em uma guerra civil. Os autores do estudo dão certo crédito à política de “escalada” de Washington no Iraque, com o envio de mais de 30 mil soldados e a adoção de uma estratégia contra-insurgente mais agressiva, devido aos relativos progressos atingidos. Mas, alertaram, como os chefes militares norte-americanos, sobre a fragilidade desses avanços.

“São insignificantes no melhor dos casos e profundamente susceptíveis a uma reversão se o Iraque sofrer o tipo de impacto que expôs a vulnerabilidade de tantos outros Estados nos últimos meses, como escassez de comida, assassinato de um líder ou um ataque que dispare o ódio racial”, destaca a análise que acompanha o Índice. O estudo. Que leva em conta uma dúzia de indicadores sociais, econômicos e políticos, também encontrou importantes progressos em matéria de estabilidade na Costa do Marfim, que ocupa o posto 8. O Haiti está em 14º e a Libéria em 34º.

Mas, ao mesmo tempo, vários países-chave se tornaram bem mais inseguros. O Índice menciona em particular Bangladesh, no posto 12 e onde o estado de emergência vigora há quase dois anos, e Paquistão no nono, porque o ano passado terminou com o assassinato das duas vezes ex-primeira-ministra e líder da oposição Benazir Bhutto. Também faz menção especial a Israel, em 57º lugar. A instabilidade na Cisjordânia e a declinante confiança no governo e nos militares, após a guerra do Líbano de 2006, levaram o Estado judeu a aparecer pela primeira vez entre as 60 nações mais vulneráveis do mundo.

O Índice, como outros semelhantes usados por organismos internacionais e consultorias de avaliação de risco, tem o objetivo de oferecer um alerta sobre Estados que estão sob a ameaça de um colapso. Entre os indicadores considerados para sua elaboração figuram, entre outros, movimento de refugiado externos e internos, evidência de pressões demográficas ou sérias tensões tanto étnicas quanto sectárias, brecha entre ricos e pobres, existência de crescimento econômico ou recessão, estado dos serviços públicos, nível de corrupção, situação dos direitos humanos, vigência da lei e intervenção de atores estrangeiros.

Cada variável é qualificada em uma escala de um (melhor desempenho) a 10 (pio). A Somália, o mais instável do mundo segundo o estudo, teve 114,2 pontos frente os 120 que indicam o pior resultado possível. Já a Noruega, a nação mais sólida entre as 177 analisadas, recebeu 16,8 pontos. O mais chamativo sobre as qualificações de conjunto dos 60 Estados mais vulneráveis é que resultaram em 2007 mais altas do que no ano anterior, talvez em grande parte como reflexo do impacto dos altos preços dos alimentos e dos combustíveis, que castigam desproporcionalmente os países que menos podem enfrentá-los.

Como os preços dessas matérias-primas continuaram sua escalada nos últimos seis meses, depois de encerrada a pesquisa para elaboração do Índice, é possível que muitos países estejam mais próximos do colapso do que no final de 2007. Protestos pela carestias da vida, que em alguns casos se converteram em sérios distúrbios, eclodiram em mais de uma dúzia de nações este ano, forçando os governos a recorrerem a medidas populistas que aumentam o gasto público e só podem ser atendidas com os dizimados recursos dos cofres estatais.

“Trata-se de um desafio que dezenas de Estados fracos devem enfrentar este ano, na meda em que os preços em alta ameaçam apagar anos de esforços para aliviar a pobreza e conseguir o desenvolvimento”, diz a análise que acompanha o Índice. Também afirma que acontecimentos imprevistos, com a violência étnica no Quênia (posto 26) após as eleições do ano passado, ou o ciclone que afetou a Birmânia (12º) tornam mais difícil para os Estados débeis enfrentar a situação.

Entre os 20 países mais vulneráveis estão África subsaariana, além de Somália, Sudão, Chade e Costa do Marfim, a República Democrática do Congo (6º), República Centro-africana (10º), Guiné (11º), Etiópia e Uganda (ambos em 16º) e Nigéria (18º). Embora o Iraque tenha melhorado sua posição no Índice, só o fez em menos de um ponto, o que destaca a fragilidade dos progressos obtidos no ano passado. Ao mesmo tempo, o Afeganistão, onde há um número maior de tropas dos Estados Unidos e ocidentais, sofreu uma deterioração em sua qualificação de 3,1 pontos e passou do oitavo lugar em 20096 para o sétimo no ano passado.

A pontuação do Paquistão aumentou significativamente, 3,7 em 2007, e outro tanto ocorreu com o Líbano, que passou de 92,4 pontos para 95,7 e ficou em 18 lugar, junto com Nigéria. O Iêmen, outro aliado de Washington no Oriente Médio, também viu sua situação deteriorar: agregou 2,2 pontos à sua qualificação e figura em 21º lugar na escala de vulnerabilidade. Fora da África subsaariana e do mundo muçulmano, os Estados mais ameaçados incluem Sri Lanka (20°) e Coréia do Norte (15°).

Descontando Haiti, a Colômbia (37°) é considerada a nação mais vulnerável da América, embora tenha melhorado levemente tanto sua pontuação quanto a colocação no Índice em relação a 2007. já a Bolívia agregou 2,2 pontos na sua qualificação e passou do posto 59 para 0 55 na escala dos Estados mais débeis. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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