ESTADOS UNIDOS: A era do cowboy atômico se aproxima do fim

Toronto, 01/08/2008 – Oito anos de esforços para financiar novas armas e incorporar novos alvos potenciais para um ataque nuclear dos Estados Unidos, como Coréia do Norte e Irã, parecem estar chegando ao fim junto com o mandato do presidente George W. Bush.

 - Depto. Defensa de EEUU

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O diretor de pesquisas da não-governamental Associação para o Controle de Armamentos, Wade Boese, disse à IPS que via um novo tom na matéria na atual campanha eleitoral norte-americana, para as eleições gerais de 10 de novembro. Isto ocorre um ano depois de um chamado para eliminar as armas atômicas, realizado pelos ex-secretários de Estado Henry Kissinger e George Schultz; o ex-secretário de Defesa William Perry e o ex-senador Sam Nunn.

“Atualmente, temos milhares de ogivas nucleares. Espero dar os passos necessários para chegar a uma força significativamente menor”, disse o senador John McCain, candidato do oficialista Partido Republicano. De todo modo, Boese, cuja organização tem sede em Washington, considera que o desarmamento nuclear não constitui um tema central na campanha. “Não há muito a respeito nas plataformas dos candidatos. Foram ditas todas as coisas corretas, no sentido de que devemos reduzir nossas forças nucleares e mostrar liderança”, acrescentou.

Segundo Boese, o senador Barak Obama, candidato do opositor Partido Democrata, é quem parece mais decidido a adotar uma atitude mais agressiva em matéria de desarmamento nuclear. “Creio que seria um grave erro usar armas atômicas em qualquer circunstancia que envolva civis”, disse Obama há um ano, mas acrescentando: “Deixem-me apagar isso. É um tema que não está em discussão”. Boese se preocupa com a possibilidade de outros temas de maior peso, como a guerra do Iraque, “distraírem” o próximo governo da tarefa de assumir seriamente os complexos detalhes do desarmamento nuclear.

Outro especialista em controle de armamentos, David Culp, prevê uma substancial mudança na política dos EUA seja qual for o ganhador nas eleições presidenciais. “Há frustração nos dois partidos pelas políticas de Bush. Acreditam que foram muito longe e prejudicaram a posição do país no mundo, ao mesmo tempo em que afetaram nossos esforços para evitar a proliferação nuclear”, disse à IPS. Tanto McCain quanto Obama disseram apoiar o Tratado de Não-Proliferaçao Nuclear, que será revisado em 2010 em uma conferência internacional em Nova York, recordou Culp. Também concordam em, aumentar o orçamento da Agência Internacional de Energia Atômica, responsável pela implementação desse tratado.

Mas, existem diferenças nas posições dos partidos. “Sei que os democratas pensam em drásticas reduções no arsenal estratégico”, disse Culp. McCain e Obama se distanciaram da decisão do governo Bush de permitir que expire em dezembro de 2009 o Tratado de Redução de Armas Estratégicas, um processo de verificação voltado ao controle dos arsenais de Washington e Moscou. Segundo Culp, os russos queriam negociar uma redução dos respectivos arsenais, incluídas as mais de mil ogivas nucleares que ambos se apontam mutuamente.

Enquanto os democratas buscam reduzir pela metade o número de mísseis nucleares, McCain e os republicanos não mencionam metas a respeito, salvo declarar sua intenção de manter o tratado de controle em vigência, acrescentou. se chegar à presidência, McCain deixará com os militares a determinação do tamanho da redução do arsenal nuclear norte-americano, uma perspectiva que não entusiasma Culp. “Praticamente todos os tratados de controle de armas que tivemos foram fruto da liderança política da Casa Branca”, afirmou. Obama também prometeu que o tratado que proíbe os testes nucleares será uma prioridade se for eleito.

Entre os que votaram contra sua ratificação no Senado em 1999, e com sucesso, estava McCain, que depois declarou cautelosamente estar disposto as reexaminar a questão, disse Culp. Por outro lado, McCain, que integrou durante muito tempo a Comissão de Defesa do Senado, apoiou o controvertido sistema de defesa com mísseis, incluindo sua instalação na Polônia e a construção de uma estação de radar na República Checa. “Creio que há alguma possibilidade de se deixar de lado se os democratas vencerem”, acrescentou. Culp considera animador que o Congresso considere uma revisão da política nuclear norte-americana, depois de rechaçar propostas do governo Bush para financiar o desenvolvimento de novas armas nucleares, entre elas bombas capazes de destruir instalações subterrâneas iranianas de enriquecimento de urânio.

Martin Butcher, pesquisador do Instituto Acronym para a Diplomacia do Desarmamento, com sede na Grã-Bretanha, disse à IPS: “A doutrina norte-americana permite o uso de armas nucleares para impedir que um país como o Irã, que tem a possibilidade de produzi-las, converta esse potencial em uma realidade”. Dentro da Organização do Tratado do Atlântico Norte, os países europeus discordam dos Estados Unidos. Querem limitar sua capacidade de lançar um primeiro ataque contra nações que contem com armas nucleares, como China e Rússia.

Washington, por seu lado, ampliou a lista de potenciais alvos para incluir Estados que têm armas de destruição em massa, especialmente químicas e biológicas, ou convencionais de grande poder, disse Butcher. A possibilidade de lançar esse primeiro ataque era vista como um “último recurso” durante a presidência de Bill Clinton (1993-2001), mas se converteu em parte central da estratégia militar do país durante o governo Bush. Porém, o analista militar Lowell Schwartz, do centro de estudos norte-americanos Rand, disse que essa posição não deve ser considerada literalmente, já que “não se trata de usar as armas nucleares primeiro”, ma de desestimular as ameaças sem ir realmente à guerra. (IPS/Envolverde)

Paul Weinberg

Paul Weinberg is a Toronto-based freelancer writer who has written for IPS since 1996. He is also a regular contributor to local weekly magazine NOW and specializes in Canadian politics, in particular foreign, security and defence policy. Paul is currently writing a book on the RCMP’s spying on academics in Canada during the 1960s.

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