ENERGÍA NAMÍBIA: Rumo à bonança graças ao urânio

Windhoek, 11/09/2008 – O encarecimento mundial do gás e do petróleo elevou a demanda por energia nuclear. Como conseqüência, a Namíbia caminha para uma era de auge econômico graças às suas enormes jazidas de urânio. Com produção anual de 3.800 toneladas, o país é o sexto produtor deste mineral. Concentra 7% da produção mundial e as grandes potências o cortejam para garantir o fornecimento aos seus reatores em expansão. Os preços duplicaram no ano passado até chegarem a US$ 136 por libra (453 gramas), mas nas últimas semanas se estabilizaram em torno dos US$ 82.

Mais de 40 companhias têm licenças de exploração exclusivas expedidas pelo Ministério de Minas e Energia. Duas minas estão operacionais e outras 12 perto de começarem a operar. O ministério suspendeu a emissão de autorizações, mas voltará a fazê-lo quando terminar de fixar uma política nuclear juntamente com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que pretende consagrar como lei. “A idéia é incentivar a economia da Namíbia com o urânio”, disse o secretário ministerial Joseph Litha. “O crescimento da mineração nacional permite a este país ajudar a resolver a carestia mundial de energia”, acrescentou.

A companhia francesa Areva conseguiu burlar a suspensão da emissão de licenças, pois comprou a empresa namíbia UraMin por US$ 2,5 bilhões. Sua intenção é investir US$ 750 milhões na instalação de uma das maiores minas de urânio do mundo. A UraMin, que começará a produzir no ano que vem, pretende processar cem mil toneladas de mineral por dia para extrair entre seis e sete milhões de libras de urânio puro ao ano durante cerca de nove anos de atividade prevista até seu esgotamento. O acordo pegou o governo da Namíbia de surpresa. “Tomaremos medidas para que isto não volte a ocorrer”, disse o primeiro-ministro, Nahas Angula.

Os investimentos buscam oportunidades desde 2007 na Namíbia, quando a companhia qualificadora especializada Behre dolbear Group informou que este país do sudoeste africano ocupava o 12º lugar entre os exportadores de minerais para os Estados Unidos. O primeiro-ministro chinês, Hu Jintao, e seu colega russo, Mikhail Fradkov, conversaram com autoridades namíbias sobre a importação de urânio bruto, enquanto Índia e Japão manifestaram interesse em comprar o mineral já processado. O interesse de Nova Délhi se deve ao fato de a Namíbia, junto com Níger e Uzbequistão, serem os únicos três grandes produtores de urânio que não integram o Grupo de Fornecedores Nucleares de 45 países, que resiste a exportar insumos para nações que possuam a bomba atômica.

O mais antigo produtor da Namíbia, Rössing Uraninum – em operação desde 1976 com extração anual de 3.400 toneladas – começou a exportara quantidades não especificadas de urânio para a China em 2006. Trinta por cento das vendas da companhia se dirigem aos Estados Unidos, 28% ao Japão e 13% à União Européia. Rössing é subsidiária da britânica Rio Tinto, que possui 68% de seu capital, e sua mina é uma das maiores do mundo a céu aberto. Esteve a ponto de fechar devido ao baixo preço do urânio, mas o atual auge a revigorou há dois anos. A área de extração da mina foi ampliada e se prevê que somente ficará esgotada em 2021.

Uma segunda mineradora, a Langer Heinrich Uranium, subsidiária da australiana Paladin Energy, começou a operar em dezembro de 2006. Já produziu urânio puro, e prevê processar mil toneladas este ano. O governo namíbio emitiu uma licença para a mina a céu aberto na fazenda Valencia, cujo tamanho é semelhante ao da pertencente à Rössing, que fica próxima. A empresa Forsys Metals assinou um memorando de entendimento sobre a exploração conjunta com a sul-coreana Korea Electric Power Corporation. Para chegar ao veio, será preciso remover 122,4 milhões de toneladas de rocha, e terá 700 metros de largura e 360 de profundidade.

A Namíbia importa 50% de sua eletricidade desde a vizinha África do Sul, mas o fornecimento é inseguro, devido à crescente demanda nesse país e em toda a região da África austral. O chefe da empresa russa Rosatom, Sergei Kiriyenko, anunciou no ano passado a disposição de seu país em construir um reator nuclear flutuante na Namíbia, cuja produção seria distribuída no país e exportada para a África do Sul. A Rússia é pioneira na instalação de reatores nucleares em plataformas marítimas, muito questionadas por ambientalistas. Por outro lado, o crescimento da atividade mineira no costeiro deserto de Namib consome enormes quantidades de água, tanta que a empresa estatal NamWater não consegue fornecer.

A NamWater acordou com a Uramin a construção de uma unidade dessalinizadora costeira com capacidade de processamento de 15 milhões de metros cúbicos anuais. A obra avança aceleradamente. Ambientalistas expressam preocupação pelos grandes aquedutos que logo cruzarão o deserto de Namib, e que se somará aos prejuízos que já são percebidos no meio ambiente da região. A organização ambientalista Earthlife Namibia exigiu das autoridades um mecanismo de consultas mais amplo que reúna a sociedade civil e o governo antes da concessão de novas licenças de mineração. (IPS/Envolverde)

Brigitte Weidlich

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