Washington, 28/03/2005 – Os meios de comunicação dos Estados Unidos não estiveram concentrados na agenda do presidente George W. Bush na semana passada, mas na viagem de seu secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, pela América Latina. Um dos objetivos dessa visita ao Brasil, à Argentina e Guatemala, entre segunda e quarta-feira, foi fazer soar o alarme sobre o crescente perigo que, a seu ver, representam alguns governos latino-americanos. No topo da lista está a Venezuela, de Hugo Chávez, seguido do ex-presidente nicaragüense Daniel Ortega (1984-1990), que já apresentou sua candidatura para as eleições de 2006 em seu país.
Washington teme que Ortega, da Frente Sandinista de Libertação Nacional, volte ao poder e controle os mais de mil mísseis terra-ar russos que a Nicarágua comprou nos últimos meses. Pouco antes de Rumsfeld iniciar sua viagem, o governo norte-americano anunciou a suspensão da ajuda militar anual a esse país, no valor de US$ 2,3 milhões, enquanto a Nicarágua não destruir cerca de mil mísseis que datam dos anos 80, quando esse país foi governado pelos sandinistas. Washington argumenta que as armas podem cair em mãos de terroristas.
Há alguns dias, a revista direitista National Review publicou um artigo de Otto Reich, ex-secretário-adjunto de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental, sobre "os dois terríveis da América Latina", numa referência a Chávez e seu colega cubano, Fidel castro. A capa trazia uma foto de ambos conversando e, embaixo, a frase: "O eixo do mal… versão do hemisfério ocidental". Se "combinarmos o mau gênio, a experiência em luta política e o desespero econômico de Castro com o ilimitado dinheiro e a temeridade de Chávez, a paz na região está perigo", escreveu Reich, que mantém grande influência em Washington e, inclusive, sobre seu sucessor, o mais diplomata Roger Noriega.
"O emergente eixo de subversão formado por Cuba e Venezuela deve ser enfrentado antes que sufoque a democracia na Colômbia, Nicarágua e Bolívia, ou outro país vulnerável", afirmou, na mesma linha de outros editoriais recentes do The Wall Street Journal. O discurso de Rumsfeld em sua recente viagem à América Latina parece parte de uma campanha iniciada em janeiro, quando a secretária de Estado, Condoleezza Rice, disse que Chávez é "uma força negativa" na região. Há poucos dias, o jornal The Miami Herald informava que o próprio Bush acompanhava de perto as ações de Chávez e considerava todas as opções para endurecer sua postura em relação a Caracas, incluindo acusar o presidente venezuelano de corrupto ou pedir aos seus vizinhos, especialmente ao Brasil, que se distanciem dele.
"Necessitamos uma estratégia para conter Chávez", disse Rogelio Pardo Maurer, o especialista do Departamento de Defesa norte-americano para assuntos latino-americanos. Maurer, um político de linha dura próximo às posturas de Reich e Noriega, disse ao The Financial Times que "Chávez se mete com países de tecido social fraco e, em alguns casos, promove a subversão". O fato de Rumsfeld ter escolhido Brasília para lançar seu ataque mais forte a Chávez, condenando sua decisão de comprar cem mil rifles AK-47 russos, deixou claro que a estratégia já está em andamento.
"Não posso imaginar porque a Venezuela precisa de cem mil AK-47. Não posso imaginar o que vai acontecer com os cem mil AK-47", afirmou Rumsfeld pouco antes de se reunir com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que atuou como mediador entre Washington e Caracas no passado. Se a compra se concretizar, "não será bom para o hemisfério", acrescentou. Alguns em Washington dizem que os rifes serão entregues por Chávez às guerrilhas esquerdistas da Colômbia ou aos seguidores do líder indígena boliviano Evo Morales. Mas, o presidente venezuelano assegura que as armas são para substituir os antigos rifles FAL de seu exército.
Washington se preocupa com o desenvolvimento militar da Venezuela, financiado com o aumento do preço internacional do petróleo. Nos últimos meses, Caracas comprou aviões de combate do Brasil, navios da Espanha e 50 helicópteros de ataque e 30 jatos MIG da Rússia. "Estas e outras aquisições militares venezuelanas ameaçam a paz de toda a região", afirmou Reich. O governo Bush também está preocupado pela política petrolífera de Chávez. Os Estados Unidos importam 1,5 milhões de barris de 159 litros de petróleo por dia da Venezuela, ou seja, 60% das exportações totais deste país.
Chávez, que ameaçou interromper o fornecimento caso Washington tentasse tirá-lo do poder, agora procura outros consumidores. Nos últimos meses, assinou contratos com França, Índia e China. O presidente venezuelano visitou Pequim em janeiro e recebeu em Caracas o presidente chinês, Hu Jintao, em fevereiro. No início deste mês recebeu seu colega do Irã, Mohammed Khatami, com quem estabeleceu acordos de assistência técnica. Hugo Chávez afirmou que Teerã tem direito a "desenvolver energia atômica e continuar seus estudos nessa área", e condenou "os desejos imperialistas do governo dos Estados Unidos". Ao mesmo tempo, a Venezuela reduziu o preço do fornecimento de petróleo para Cuba em troca do serviço de milhares de médicos e professores cubanos em áreas rurais e assentamentos urbanos venezuelanos.
Mas, o que mais preocupa Bush é a tendência à esquerda em toda a América Latina. "Existe uma aliança esquerdista e populista na maior parte da América do Sul. Esta é uma realidade que os políticos dos Estados Unidos devem enfrentar, e nosso maior desafio é neutralizar o eixo Cuba-Venezuela", escreveu Reich. A chave, segundo ele, está em fazer uma distinção entre os "esquerdistas democráticos", como Lula e o presidente do Chile, Ricardo Lagos, e os populistas mais radicais, como Chávez e Castro. "O verdadeiro perigo para a paz e a estabilidade da região não emana dos presidentes democráticos eleitos recentemente, mas de dois demagogos que estão por aí há mais tempo: Fidel castro e Hugo Chávez", afirmou.
Alguns sustentam que uma campanha contra Chávez será contraproducente. "Parece que estas pessoas têm a necessidade compulsiva de ver a realidade latino-americana através de lentes maniqueístas. Têm de identificar forças do mal contra as quais lutar, e simplificam em dualismos o bem e mal das complexidades da região", disse Geoffrey Thale, do não-governamental Escritório de Washington para a América Latina. "Tratamos Castro como uma encarnação do demônio, e nos convertemos em motivo de riso em toda a região sem nada fazer efetivamente para impulsionar a democracia e o respeito aos direitos humanos em Cuba", acrescentou. "Se encararmos Chávez da mesma maneira, teremos os mesmos resultados", alertou. (IPS/Envolverde)

