Boston, EUA,, 04/11/2008 – Os consumidores dos Estados Unidos não estão dispostos a gastar, e é preciso tomar medidas para que isso mude, afirmaram na semana passada o governo do presidente George W. Bush e o Congresso. Indicadores econômicos divulgados na quinta-feira (30) revelam que o produto interno bruto cresceu apenas 0,3% entre julho e setembro, o pior resultado em sete anos, basicamente porque o público e as empresas reduziram seus gastos. Trata-se de algo que se deveria esperar, disse Nouriel Roubini, professor de economia da Universidade de Nova York ao falar perante uma comissão parlamentar.
“Os consumidores estão sob uma grande pressão”, acrescentou, já que temem perder seus empregos e estão pagando altas cotas pelos créditos hipotecários que assumiram. “A falta de medidas de alivio da dívida para as famílias é a razão pela qual a crise financeira se torna mais grave e a recessão econômica se aprofunda”, afirmou Roubini. O professor sustenta que os Estados Unidos estão em recessão desde janeiro deste ano e que a contração econômica se manterá por mais 18 ou 24 meses. “Pode ser a recessão mais severa experimentada pelo país em muitas décadas”, alertou. As estatísticas oficiais também indicam um aumento do desemprego.
Em uma tentativa de reanimar a economia, a Reserva Federal (banco central) reduziu na quarta-feira em um ponto percentual a taxa cobrada pelos empréstimos que concede aos bancos. Embora muitas empresas estejam em situação difícil, a petroleira Exxon Móbil anunciou que seus lucros durante o verão aumentaram 58%. Ed Lazear, chefe do Conselho de Assessores Econômicos do presidente Bush afirmou que o governo mantém sua decisão de destinar US$ 700 bilhões para resgatar instituições financeiras a fim de reativar a economia. Entretanto, acrescentou que “levará tempo”, embora tenha se declarado confiante de que estão sendo dados passos na direção certa.
Estima-se que o governo usará US$ 50 bilhões dessa quantia para reduzir o número de execuções hipotecarias, agindo como fiador de alguns empréstimos se as instituições financeiras aceitarem reduzir a taxa de juros que cobram por esses créditos. Sheila Bair, presidente da Coporação Federal de Seguro de Depósitos, apresentou essa proposta a Bush. “Há milhões de pessoas correndo o risco de perderem suas casas. Trabalham e pagam seus impostos. Existe uma relação direta entre elas e a crise global. Não podem honrar suas hipotecas”, afirmou.
“Todos concordam agora que se deve fazer algo mais a respeito dos proprietários de imóveis. Um novo programa precisa oferecer incentivos aos prestamistas para que modifiquem as condições dos créditos”, acrescentou Bair. A secretária de imprensa da Casa Branca, Dana Perino, negou-se a comentar essa proposta. Disse que o plano de resgate de instituições financeiras no valor de US$ 700 bilhões também objetiva auxiliar os consumidores e as pequenas empresas. “Não estamos em posição de anunciar nada iminente. Estamos analisando as diferentes opções”, afirmou.
Nas últimas semanas, tanto o Senado quanto a Câmara de Representantes realizaram numerosas audiências centradas na necessidade de aumentar o gasto destinado à geração de empregos e programas sociais. Um plano aprovado pelos representantes foi rejeitado no Senado, por falta de apoio dos legisladores do oficialista Partido Republicano. A presidente da Câmara de Representantes, Nancy Pelosi, do opositor Partido Democrata, pediu ao oficialismo que reconsidere esse plano. “Cria e preserva o emprego através da reconstrução da infra-estrutura do país para o crescimento econômico a longo prazo, amplia o seguro desemprego, expande a ajuda alimentar e ajuda os Estados com problemas orçamentários a atender as necessidades nas áreas de saúde e educação para milhões de cidadãos”, afirmou Pelosi.
Mas, não é certo que os republicanos modifiquem sua posição. O deputado oficialista Kevin Brady se mostrou cético sobre a idéia dos democratas de gastar milhares de milhões de dólares. “Me pergunto se é bom para a economia”, disse. O senador oficialista Sam Brownback também é férreo opositor de um aumento do gasto. Por sua vez, o economista Richard Vedder, professor visitante do neoconservador Instituto Norte-americano da Empresa, afirmou que as reduções de impostos são mais efetivas para reativar a economia. Argumentou que construir pontes e estradas não estimula a atividade no curto prazo, já que exigem quatro anos ou mais. Por outro lado, não considera que a economia esteja em recessão.
Roubini recomendou que o Congresso norte-americano autorize um gasto de US$ 400 bilhões em estradas, fontes de energia alternativas, cupões de alimentação e outros programas. “Deve-se agir de imediato. Dentro de três meses o colapso do gasto dos consumidores será tão grave que ficará difícil aplicar medidas de auxilio”, afirmou. (IPS/Envolverde)

