DESENVOLVIMENTO: Os banqueiros deixarão algum após o festim?

Nova York, 27/11/2008 – As enormes somas de dinheiro que os Estados Unidos e os países europeus estão destinando ao resgate dos bancos em risco de quebra poderão ter conseqüências desastrosas para os esforços no sentido de reduzir a pobreza e os efeitos da mudança climática, afirmaram especialistas. Um informe do não-governamental Instituto para Estudos de Políticas, com sede em Washington, destaca que serão usados para auxiliar as instituições financeiras mais de US$ 4 trilhões, uma quantia quarenta vezes superior ao que se investe para combater a pobreza e a mudança climática.

Os autores do estudo, divulgado esta semana, indicam que os governos dos países ricos muito provavelmente usarão a desculpa dos custos de salvamento dos bancos para não cumprirem seus compromissos em matéria de ajuda ao desenvolvimento e financiamento de ações contra o aquecimento global. O trabalho foi divulgado às vésperas de duas reuniões patrocinadas pela Organização das Nações Unidas com a intenção de avançar em sua agenda sobre meio ambiente e desenvolvimento.

Neste fim de semana, em Doha (Qatar), terá início a conferência de três dias sobre financiamento para o desenvolvimento, enquanto a cúpula sobre mudança climática começará na próxima semana na cidade polonesa de Poznan, com a presença de mais de oito mil delegados. Espera-se que durante as deliberações, que durarão mais de uma semana, se chegue a novos compromissos para combater a mudança climática, incluindo a ajuda financeira aos países em desenvolvimento para que implementem medidas com essa finalidade. Funcionários da ONU têm a esperança de que a reunião constitua “um marco no caminho para o êxito” do processo de negociações lançado em conferências anteriores.

A reunião tem a missão de estabelecer a agenda para as conversações finais sobre o tratado que sucederá o Protocolo de Kyoto, estabelecido em 1997 com metas de redução de emissões de gases causadores do efeito estufa e que acontecerá na Dinamarca, no próximo ano. Mas, analistas dizem que, devido à preocupação dos governos dos Estados Unidos e dos países europeus com a crise econômica, é altamente improvável que sejam obtidos grandes avanços em matéria de financiamento para minimizar a mudança climática. Independente do que fizerem as nações ricas nesta área, destaca o estudo, a crise financeira está golpeando todos os países por igual.

“A pobreza em aumento e o desemprego no mundo em desenvolvimento levarão a uma competição ainda mais brutal do que a atual pelo emprego”, disse John Cavanagh, principal autor do estudo. “A mudança climática coloca em risco o futuro do planeta”, acrescentou. A seu ver, as nações mais ricas “têm a fixação de responder apenas à crise financeira e, especificamente, de sustentar suas próprias instituições financeiras”. Segundo os autores do informe, os US$ 152,5 bilhões investidos pelo governo dos Estados Unidos no resgate de uma única empresa, a AIG, supera de longe os US$ 90,7 bilhões que esse país e os europeus destinaram à ajuda ao desenvolvimento no ano passado.

Em 2007, Washington destinou à ajuda de todas as nações em desenvolvimento US$ 23 bilhões, mas gastou US$ 29 bilhões para salvar o banco de investimento Bear Stearns. A quantia usada pelos governos europeus e norte-americano para resgatar as instituições financeiras é mais de 300 vezes superior aos US$ 13 bilhões em novos compromissos assumidos para ajudar os países pobres a enfrentar a mudança climática nos próximos anos. Os pesquisadores destacaram que o governo suíço destinou US$ 60 bilhões para ajudar o cambaleante banco de investimento UBS, quantia cinco vezes superior à comprometida pelo conjunto dos governos europeus em 2007 para financiar ações contra a mudança climática nos países pobres.

O estudo indica que Washington não financia nenhum projeto relacionado com a mudança climática no mundo em desenvolvimento e jamais assinou o Protocolo de Kyoto, embora seja responsável por um quarto das emissões de gases de efeito estufa do planeta, que, de acordo com os cientistas, são a causa principal do aquecimento global. “Esta assimetria nas prioridades atormentará os Estados Unidos e o resto dos países do Norte no longo prazo. Eles não têm apenas a obrigação de solucionar o desastre que provocaram, mas também é algo que atende aos seus interesses”, disse Sarah Anderson, co-autora da pesquisa. (IPS/Envolverde)

Haider Rizvi

Haider Rizvi has written for IPS since 1993, filing news reports and analyses from South Asia, Washington, D.C. and New York. Based at United Nations headquarters, he specialises in international human rights issues and sustainable development as well as disarmament, women's rights, and indigenous peoples' rights. He is a two-time winner of the Project Censored Award.

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