RACISMO-EUROPA: retoma preconceito contra ciganos

Budapeste,Hungria, 05/01/2009 – Soa o alarme na Europa central: a crise econômica se faz sentir e o extremismo aumenta, expresso no apoio popular às políticas governamentais contra a comunidade cigana. O colapso dos direitos sociais na região após o fim dos regimes comunistas prejudicou especialmente os romanis, uma minoria que se acredita ter chegado a esta região procedente da Índia no século XIV. Há muitos preconceitos contra os ciganos na Europa central, mas até agora nenhuma força política tentou indispor a população contra essa comunidade. Os extremistas viram na crise uma oportunidade para alimentar o ódio racial.

“O problema cigano não cria divisões políticas. É algo de todos os idas para esquerdistas e direitistas. Os extremista procuram se aproveitar para ganhar algum poder fora da política”, explicou à IPS o antropólogo húngaro Gergo Pulay. Isso é o que ocorre com a Guarda Húngara, organização quase paramilitar, criada em agosto de 2007, cujos membros, cerca de dois mil, que recebem treinamento físico, prometem preservar as tradições húngaras e proteger os cidadãos. Extremistas checos seguiram o mesmo caminho e criaram em outubro a associação Guarda Nacional, também com aproximadamente dois mil integrantes. Estão dadas as condições para uma espiral de violência.

Os extremistas acusam a polícia de seu país de não proteger os cidadãos dos “crimes cometidos por ciganos”, enquanto membros da comunidade romani disseram estar dispostos a criar suas próprias milícias para se proteger. A Guarda Húngara organizou varias marchas provocativas em assentamentos romanis que coincidiram com ataques contra a comunidade. Os romanis constituem 6% dos 10 milhões de húngaros. Em novembro, desconhecidos mataram dois adultos e feriram dois menores quando lançaram granadas contra uma casa romani em Pecs, 250 quilômetros ao sul de Budapeste. A policia húngara foi criticada por descartar o ódio racial entre os motivos antes de iniciar a investigação. Depois, teve de se retratar.

Esse tipo de incidente começa a ser familiar para os checos, após vários enfrentamentos entre extremistas e romanis na localidade de Janov, na cidade checa de Litvinov. Membros do Partido dos Trabalhadores, de extrema direita, invadiram uma vila da comunidade romani no dia 17 de novembro. Houve enfrentamento entre eles, as forças da ordem e a população local com coquetéis Molotov e veículos policiais incendiados. As pessoas ficaram horrorizadas pelo grande apoio que os extremistas receberam de pessoas mais velhas, o que mostra que não estão isolados. Impulsionados pelo apoio da população local, a extrema direita checa anunciou mais ações.

Há cerca de 300 guetos da comunidade romani na República Checa. Muitos surgiram após uma série de evacuações de moradias. Cerca de 80 mil ciganos desses subúrbios não possuem emprego, dependem do seguro social e carecem de escolas. Costumam se mudar para residências de melhor qualidade, porém, mais distantes, o que dificulta sua integração à sociedade. Os residentes dos bairros onde se reassentam costumam temê-los e se mostram apreensivos, sentimento avivados por muitos políticos que expressam abertamente suas opiniões contra os ciganos. “Estou totalmente perplexo com os últimos acontecimentos em Litvinov, em especial pela falta de reação dos policiais checos”, disse em novembro Cyril Koky, do conselho governamental de assuntos romanies.

Os políticos da região, em especial os da Republica Checa, não reagiram com firmeza diante dos incidentes de ódio racial contra os ciganos, criticados por dependerem do seguro social e porque alguns os consideram uma comunidade superprotegida pelo extinto regime comunista. “Se gozam de benefícios sociais e não trabalham, é provável que continuem roubando”, disse à IPS Istvan Kovacs, um dos poucos manifestantes dispostos a falar aos jornalistas em um dos protestos organizados por extremistas em Budapeste. Kovacs negou que as expressões antissemitas e contra os ciganos por parte de jovens fossem fundamentalmente racistas. “Apenas precisamos ajudá-los a serem húngaros melhores”, afirmou com um sorriso gentil.

A Guarda Húngara negou sua participação nos últimos incidentes violentos contra a comunidade romani. A organização se vangloriou de contar com alguns judeus e ciganos entre seus integrantes. Além disso, entregou alguns presentes de Natal a crianças ciganas para contraatacar as acusações de racismo.

A extrema direita começa a se desprender de seus símbolos nazistas, trocando por imagens e padrões ideológicos mais nacionalistas, enquanto aumenta a cooperação internacional com movimentos estrangeiros afins. Em uma região onde a esquerda ficou estigmatizada por não saber lidar com a herança socialista, o sentimento antiglobalização adotou a forma do nacionalismo. Seus partidários acusam os políticos locais de venderem as propriedades estatais às companhias multinacionais.

As autoridades dos países da região prometeram controlar as atividades de organizações extremistas, em particular os paramilitares, mas estas se tornaram especialistas em burlar a lei. Os pontos fracos na legislação fazem, inclusive, com que evitem facilmente uma proibição. Além disso, as organizações extremistas da Hungria intimidam seus opositores e publica nomes completos, telefones e endereços de advogados, juizes e jornalistas que se interpõem em seu caminho. Na Eslováquia, um partido de extrema direita propôs que essas organizações integram a coalizão governante em 2006 e, desde então, os crimes raciais aumentaram de forma exponencial, o que algumas pessoas consideram uma legitimização estatal da xenofobia. (IPS/Envolverde)

Zoltán Dujisin

Zoltán Dujisin is presently based in Prague and covers the post-communist transformation of the Czech Republic, Hungary, Slovakia, Poland and Ukraine for IPS. Zoltán introduced himself to IPS in 2004 when he was based in Kiev, Ukraine, covering the country’s “Orange Revolution”. Since then he has gradually expanded the region’s coverage, working two years in Budapest, Hungary, and travelling extensively in the region. A political science graduate from the Technical University in Lisbon, Portugal, his studies brought him to the Czech Republic, Belgium and the Ukraine. He recently concluded a master’s degree in nationalism studies at the Central European University in Budapest, Hungary.

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