O lixo da revolução informáti, 01/04/2005 – Katío protestam em Bogotá desde dezembro. Autoridades esperam destravar o conflito esta semana.
Bogotá – Marta Domicó, indígena embera-katío de 20 anos, tece colares com contas coloridas que vende perto da porta de uma antiga casa de tijolos no centro de Bogotá, que é a sede da Organização Nacional Indígena da Colômbia (ONIC) e onde ela vive junto com cerca de 450 outros membros de sua comunidade desde o dia 22 de dezembro. Domicó e seu companheiro Francisco Rubiano, se dirigiram à capital com seus dois filhos, de 3 e 7 anos, para exigir junto com os demais membros de sua comunidade que o governo cumpra acordos assinados em 2000 para minimizar o impacto ambiental e social da represa Urrá, no departamento de Córdoba, que ancestralmente essa etnia habita.
"Tenho muitos colares, pulseiras e pingentes, mas as pessoas quase não compram", disse Domicó ao Terramérica, enquanto deixava de lado, no chão, a cesta com "chaquiras" (contas de argila), fio e agulha, para pegar no colo o filho menor. As duas crianças sofreram vários ataques de gripe, febre e diarréia desde que chegaram à capital. "O frio de Bogotá nos afeta muito, porque estamos acostumados aos 30 graus de temperatura que geralmente temos em Córdoba", disse. Marta sente falta da cozinha de sua casa, com paredes de barro e teto de palha, e de sua horta com cultivo de banana, milho e arroz, mas garante que permanecerá em Bogotá até que o governo responda às demandas dos embera-katío.
Belisário Domicó, líder da comunidade, contou ao Terramérica que o grupo, no qual há 184 menores de 16 anos, mora na sede da ONIC após ter sido desalojado do prédio do Ministério do Meio Ambiente, onde havia se instalado ao chegar a capital. O governo se comprometeu em 2000 a realizar ações para reduzir o impacto causado pela represa Urrá, construída nos anos 90 pela empresa estatal do mesmo nome, mas não cumpriu esse acordo, ressaltou. Outro líder indígena disse ao Terramérica, pedindo para não ser identificado, que as medidas tomadas pelo governo "estão longe de terem contribuído para a prevenção, redução, compensação e reparação dos danos ocasionados ao nosso povo".
No dia 14 de março, 72 dias depois de o governo ter suspendido o diálogo com os embera-katío para expressar sua rejeição à ocupação da sede do Ministério do Meio Ambiente, representantes do Ministério do Interior e dos organismos de controle (Defensoria do Povo e Procuradoria) voltaram a se reunir com os indígenas em busca de uma solução para o conflito. As partes acertaram negociar em segredo, mas o Terramérica soube que há avanços para uma possível solução, que incluiria modificar a licença ambiental concedida à Urrá para operar e realizar um novo diagnóstico do impacto ambiental causado pela represa. Segundo as fontes, ficou acertado realizar uma consulta com as comunidades para facilitar a fase de transição, e também que o governo financie o desenvolvimento de um plano para melhorar a qualidade de vida dos indígenas.
"Vamos fazer uma consulta para saber como a comunidade quer que sejam utilizados os recursos que possam nos dar como indenização pelos danos causados", confirmou Belisário Domicó. Os indígenas afirmam que com enchimento da represa e o desvio do rio perderam a pesca, que era sua principal fonte de subsistência, e também grande parte de seus cultivos. O grupo também reclama maior proteção contra grupos armados irregulares que disputam seu território, e contra as hostilidades por parte de poderosos proprietários de terras interessados em que os indígenas abandonem as férteis áreas em que vivem, para se apoderarem delas. O Tribunal Interamericano de Direitos Humanos pediu em abril de 2000 que o governo colombiano acertasse com os embera-katío medidas de proteção em seu território, após ser conhecido que pelo menos 300 integrantes dessa comunidade foram assassinados por grupos armados desde 1995.
Missões humanitárias da Organização das Nações Unidas na Colômbia registraram que tanto paramilitares direitistas quanto guerrilheiros esquerdistas torturaram e assassinaram dirigentes indígenas, acusados por cada lado de colaboração com o outro. Os grupos armados arrasaram casas, destruíram canos e forçaram o deslocamento de aproximadamente 800 indígenas. O Ministério do Interior informou sobre sua expectativa de no dia 5 de abril estarem finalizadas as negociações, sendo iniciado o retorno da comunidade ao seu local de origem.
* A autora é colaboradora do Terramérica.

