Lisboa, 31/03/2005 – A febre hemorrágica causada pelo vírus de Marburgo matou, até esta semana, 126 pessoas em Angola, mas este número pode aumentar dramaticamente nos próximos dias. A esta conclusão chegaram especialistas portugueses empenhados na luta contra a epidemia que assola a província de Uíge, na região norte deste país do sudoeste da África, de 12 milhões de habitantes e 1,4 milhão de quilômetros quadrados. Segundo um balanço conjunto do Ministério da Saúde de Angola e a Organização Mundial da Saúde, de um total de 124 casos registrados desde outubro até segunda-feira passada, todos na província de Uíge, apenas cinco pacientes conseguiram sobreviver. Mas, nesta quarta-feira novas mortes foram registradas, elevando o total para 126.
No dia 17 passado, Lisboa iniciou o envio de material médico-sanitário para o combate do foco da doença em sua ex-colônia, através do Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento (Ipad), do Ministério das Relações Exteriores, em coordenação com autoridades angolanas. Esse material inclui medicamentos contra febre, desinfetantes para água, luvas, máscaras, roupa de cama descartável e 300 sacos para colocar os cadáveres. Não há vacina nem medicamento para combater a febre hemorrágica causada pelo vírus Marburgo, assim chamado por causa da cidade alemã onde foi descoberto em 1967. Os primeiros casos detectados foram provocados por contato com macacos infectados. A doença também pode ser transmitida entre humanos através de fluidos corporais, como suor, saliva ou sêmem.
"Considerando a dimensão desta epidemia de febre hemorrágica, está previsto o envio de mais ajuda, atendendo aos pedidos do Ministério da Saúde de Angola", diz um comunicado divulgado nesta quarta-feira pela chancelaria portuguesa, que garante "a continuidade desta operação de acordo com as necessidades". Em Luanda, autoridades informaram que as ações para controlar a epidemia estão a cargo do Ministério da Saúde, do Ipad, da OMS, do Centro de Controle de Enfermidades (dos Estados Unidos, com sede em Atlanta), e das organizações não-governamentais Médicos Sem Fronteiras da Espanha e da Holanda, entre outras instituições.
As medidas impostas incluem a vigilância epidemiológica ativa para o controle de todas as pessoas que tiveram contato com os doentes, a criação de condições logísticas para o controle dos focos de infecção, a formação de equipes médicas e de laboratório e o desenvolvimento de ações de mobilização social no terreno. O tratamento aos pacientes limita-se a isolá-los, controlar estados febris, tentar manter as funções renais e combater a hemorragia. A nota conjunta acrescenta que foram formadas equipes de vigilância epidemiológica para detectar casos nas províncias de Luanda e Cabinda, e adverte aos que tiveram contatos com doentes ou cadáveres de pessoas potencialmente infectadas que devem ficar sob observação médica pelo período mínimo de 21 dias.
O temor de uma rápida propagação do vírus ganhou tal dimensão que o governo de Angola recomenda a todas as pessoas que estiveram na província de Uíge nas últimas duas semanas e que tenham febre alta súbita ou vômito e diarréia, "procurarem assistência imediata na unidade de saúde mais próxima", acrescentando que evitam viajar para fora do país. Em Luanda, a Direção Provincial de Saúde anunciou nesta quarta-feira a criação de um sistema de alerta rápido para detectar casos suspeitos, colocando á disposição da população seis números de telefone para contatos, com a intenção de obter informação de novas infecções o mais rápido possível. A epidemia mais grave registrada desde a descoberta do vírus por um laboratório alemão provocou 123 mortes na República Democrática do Congo (ex-Zaire), que, entretanto, ocorreram em um período de dois anos, entre os finais de 1988 e de 2000.
A também chamada doença de Marburgo é uma forma severa de febre hemorrágica. Os primeiros sintomas são semelhantes aos da malária: dores de cabeça e muscular, febre alta, náusea, vômito e diarréia. As hemorragias aparecem depois de cinco a sete dias, sobretudo no aparelho gastrointestinal e nos pulmões, de acordo com a OMS. É considerada uma enfermidade rara e de alto grau de contaminação, com um índice de mortalidade superior a 80%. Apesar destas características, em uma reunião nesta quarta-feira com o corpo diplomático acreditado em Luanda, o ministro angolano da Saúde, Sebastião Veloso, afirmou que não se justificava o isolamento de Uíge nem o fechamento da fronteira dessa província, que faz fronteira com a República Democrática do Congo. (IPS/Envolverde)

