Moscou, Rosoboronexport, 03/02/2009 – A firma estatal russa dedicada à exportação de armas, planeja aumentar nos próximos quatro a cinco anos o volume de vendas de armamentos e equipamento militar para a África. A iniciativa surge em meio a acusações de que Moscou fornece armas a contrabandistas, contribuindo, assim, com os conflitos no continente africano, devastado pelas guerras. “Revivemos nossos contatos com todos os países africanos que costumam ser compradores tradicionais de armas soviéticas”, disse em entrevista coletiva o diretor-geral da Rosoboronexport, Anatoly Isaykin. A Rússia é o segundo maior exportador de armas, depois dos Estados Unidos.
“Nos últimos ficaram evidentes mudanças positivas na cooperação militar e técnica da Rússia com Estados africanos”, disse à IPS em entrevista o subdiretor da companhia, Viktor Komardin. “Apesar da intensa competição no mercado, a exportação de armas pela Rússia desde 2001 atingiu um crescimento estável e em 2008 chegou a um volume elevado. A expansão dos volumes de fornecimento se manifesta no crescimento de produtos russos em diferentes países e regiões do continente”, acrescentou.
Bright Simons, pesquisador de assuntos russos e sino-africanos em Imani, organização de especialistas com sede em Accra que apóia uma economia de mercado, disse à IPS que embora a maior parte das exportações russa vá para ex-aliados da Guerra Fria, na África são vendidos clandestinamente todo tipo de armas pequenas selecionadas mais acessórios. “O mais preocupante é que Moscou parece estar vendendo cada vez mais armas fora dos canais oficiais para círculos de contrabando, sustentando, assim, ferozes conflitos locais em todo o continente”, afirmou Simons.
“O comércio ilegal de armas russas é, por definição, impossível de capturar totalmente, mas deveria estar em torno de, pelo menos, 20% da cifra global, a julgar pela proporção de proliferação de conflitos na África central”, acrescentou o pesquisador. Entre 2000 e 2007, os Estados africanos compraram armas da Rússia no valor de US$ 1,1 bilhão. “Uma tendência importante, entretanto, é que a China parece estar suplantando a Rússia com fornecedora de opções para pequenos vendedores de armas”, afirmou Simons desde Accra.
Komardin reconheceu que a África é uma região de hostilidades. O confronto passou à esfera dos depósitos minerais e entre os principais antagonistas estão Ocidente e China, afirmou. Moscou tem seus próprios recursos naturais e não precisa participar dessa “busca ao tesouro”, ressaltou. Porém, Isaykin disse que a Rússia está pronta para oferecer aos potenciais clientes na África formas de pagamento “alternativas e flexíveis” para compra de equipamento militar.
Isto inclui a criação de empresas de risco compartilhado nas indústrias pesqueira, mineira e petroleira, direitos exclusivos para exploração de recursos naturais em países africanos e entregas de produtos tradicionais como diamantes, algodão e café. “Estes oferecimentos dão aos nossos clientes africanos oportunidades adicionais para adquirir equipamento militar russo”, acrescentou Isaykin. A maior dificuldade em regiões tão sensíveis é que o exportador de armas deveria seguir o critério de “evitar o dano”. “É por isso que damos tanta atenção à política de Estado dentro do contexto da cooperação técnico-militar”, afirmou Komardin. “Nosso armamento é fornecido de modo a evitar alterar o precário equilíbrio militar e político nas regiões”, acrescentou.
A Rosoboronexport também está construindo suas relações com a União Africana, com base no equipamento e treinamento das forças de consolidação de paz. Os helicópteros, veículos de combate mecanizados e armas pequenas procedentes da Rússia são úteis para desafiar as condições africanas. Desde o colapso soviético (1991), a influência de Moscou diminuiu consideravelmente, mas, ao analisar a situação de modo objetivo, “a Rússia continua tendo um papel significativo na resolução de conflitos e na aplicação da paz no continente”, disse à IPS Dmitry Bondarenko, subdiretor do Instituto de Estudos Africanos da Academia Russa de Ciências, em Moscou. Como contraponto à posição de que especialmente o comércio de armas pequenas alimenta as várias guerras civis na África, Bondarenko alegou que, “além da Rússia, a maioria dos países ocidentais e Brasil e China estão envolvidos” nessa prática.
“Creio que se a Rússia, ou qualquer outro país, deixar vender armas à África, nisto não resultará em um fim imediato dos conflitos, como alguns afirmam. As partes envolvidas nestes conflitos intermináveis na África facilmente encontrarão outras fontes para comprar armas”, afirmou Bondarenko. “Estou certo de que o comércio de armas aprofunda mais os conflitos, mas, de modo algum, é a causa principal”, acrescentou. Os conflitos são resultado de uma combinação de problemas internos da sociedade da África – diferenças étnicas e religiosas, luta pelo poder e economia fraca – com os interesses de corporações ocidentais, ressaltou.
Há exemplos vividos de conflitos centrados em torno da extração de diamantes e outros minerais da África ocidental e austral. A ex-União Soviética forneceu armas a muitos países africanos sobre uma base ideológica em seu enfrentamento com o Ocidente, mas agora a Rússia busca a venda de armas como um exercício comercial. Os importadores tradicionais de armas russas da Rosoboronexport incluem Argélia, Angola, Botswana, Burkina Faso, Etiópia, Líbia, Marrocos, Moçambique, Namíbia, África do Sul e Uganda. Os tipos mais populares de armas compradas da Rússia são aviões de combate Sukhoi e MiG, sistemas de defesa aérea, helicópteros, tanques de batalha, veículos blindados e de combate para infantaria.
A Rússia também mantém posições tradicionalmente fortes nas vendas de armas pequenas e leves, e sistemas de mísseis antitanques e terra-ar. Os países africanos são atraídos pela “confiabilidade e pelos preços competitivos” das armas russas. Os helicópteros russos tradicionalmente têm alta demanda na África. Segundo várias fontes, a Rússia forneceu a países africanos cerca de 700 helicópteros, entre eles os de ataque Mi-24/25 Hind. “Estamos oferecendo uma variedade de serviços de pós-venda aos nossos clientes tradicionais, priorizando serviços de reparos em helicópteros, bem como nos aviões de combate MiG 23 MiG 27, MiG 29 e Su 24, e também treinamento de pilotos”, disse Isaykin.
Nos últimos anos, a Rússia se esforçou para recuperar sua vantagem competitiva no comércio mundial de armas. Em 2007 vendeu US$ 7,4 bilhões e se dispôs a impulsionar suas exportações nesta área a US$ 89 bilhões até o final de 2008. Com vistas a expandir suas vendas, a Rússia fechou acordos intergovernamentais sobre cooperação técnico-militar com a maioria dos Estados africanos e estabeleceu comissões bilaterais, intergovernamentais e interdepartamentais, com parte da cooperação. Agora, o objetivo é garantir a efetividade destes mecanismos e enriquecer as declarações de intenção com programas de cooperação de longo e médio prazos. (IPS/Envolverde)

