HARARE, 04/02/2009 – "Espírito empreendedor": Uma criança a vender espinafre. Crédito: Stanley Kwenda/IPS Longas filas de bancas, exploradas por mulheres, apareceram ao lado de muitas das estradas nacionais do Zimbabué, vendendo mel, leite, cogumelos, tomates, cebolas e galinhas. À medida que os preços nas cidades sobem em flecha devido a níveis de inflação sem precedentes que atingem os milhões percentuais, as pessoas estão a abandonar as cidades para comprar bens essenciais. Esta forma precária de sobrevivência envolve trabalho infantil e expõe os vendedores ambulantes a perigos que vão do mau tempo ao roubo e ao atropelamento.
As crianças trabalham ao lado dos adultos para subsistirem com dificuldade. Crianças de tenra idade, algumas com três anos, estão envolvidas na venda de bens. Algumas pessoas justificam esta situação afirmando que ela permite às crianças desenvolverem um espírito empreendedor e serem capazes de se defenderem sozinhas.
Normalmente os locais de venda ambulante não têm abrigos ou casas de banho, expondo as pessoas aos estragos causados pelo tempo e à doença.
A venda ambulante ao longo da estrada também pode ser perigosa por outros motivos. Diversos vendedores ambulantes na estrada têm sido atropelados por automóveis quando tentam ultrapassar os outros para chegarem aos potenciais clientes em ambos os lados da estrada. Também correm o risco de serem despojados dos seus proventos pelos mesmos automobilistas que procuram servir.
"Estamos conscientes destes perigos mas não podemos fazer nada a esse respeito. É como um casino: vivemos um dia de cada vez,’’ disse à IPS Mai Chingwe, vendedor ambulante na estrada, em tom resignado.
Outra vendedora ambulante, que se recusou a dar o nome, disse à IPS que conseguira dar uma volta à vida através da venda ambulante na estrada.
"Cuido dos meus quatro filhos e dos três deixados pela minha irmã, que morreu há cinco anos. Ao vender produtos ao longo desta estrada consigo mandá-los para a escola e comprar algumas cabras. Tudo o que peço é apoio do governo com insumos agrícolas e fertilizantes e a criação de lugares apropriados onde possamos trabalhar,’’ disse à IPS.
Muitas mulheres costumavam viajar centenas de quilómetros quase diariamente, empoleiradas em cima de camiões com cargas pesadas, para venderem os seus produtos no principal mercado em Harare, a capital do país.
"Agora o negócio vai melhor porque os automobislistas passam sempre por este lugar para comprar coisas porque se tornaram dispendiosas na cidade. Se eu levar estes tomates para a cidade, o preço será elevado porque tenho de pagar o transporte em dólares americanos,” explicou Alice Borerwa, vendedora ambulante na estrada que vende legumes ao longo da estrada nacional Harare-Mutare.
Mas onde é que estas mulheres obtêm terra para plantar num país onde essa mesma terra é um bem tão contencioso e a posse da terra se baseia na autorização do Estado?
"Formámos uma cooperativa em 2005 e contactámos o deputado da nossa zona, a quem pedimos que obtivesse alguma terra para nós. Deram-nos terra encharcada de água que usamos agora com a ajuda de pessoas amigas para fazer horticultura comercial,’’ disse à IPS Borerwa, mãe de três filhos.
Pedi-lhe que descrevesse um dia típico para ela e para os outros 15 membros da CooperativaI ubatana.
"Acordamos por volta das quatro da manhã e colhemos os tomates maduros, cebolas, cenouras e outros legumes antes de regar os produtos agrícolas. Fazemos isto por turnos, portanto ou se está na horta ou a vender ao longo da estrada.
"Felizmente hoje em dia não é preciso regar os produtos por causa das chuvas. Normalmente estamos na estrada desde as cinco da manhã até às dez da noite,’’ contou Borerwa.
A maioria dos automobilistas opta agora por sair da cidade para comprar legumes visto que os preços nas cidades estão fora do alcance de muitos residentes. Os preços dos produtos variam entre 10 dólares por um saco de 10 kg de tomates ou de cebolas e 20 dólares por 5 kg da cogumelos. Mas a IPS foi informada que estes preços são altamente negociáveis, dependendo da sua disponibilidade.
Os preços também são afectados pela grande concorrência: em determinada zona comercial na estrada pode haver mais de 50 mulheres a venderem os mesmos produtos.
Nas cidades, os preços elevados são fixados de forma uniforme. "Consigo vender dando extras aos clientes que compram mais. Se alguém comprar algo que custe mais de 20 dólares, incluo gratuitamente um punhado de legumes no valor de dois dólares,’’ disse Chingwe.
Nalguns casos, a venda realiza-se através da troca de géneros, quando os vendedores ambulantes trocam mercadorias por bens para o lar como sabonete, óleo para cozinhar ou até roupa.
"Tentamos sempre calcular o que é melhor para as nossas famílias. Se alguém trouxer sapatos para a escola ou roupa que a minha filha possa usar na escola, estou mais do que disposta a trocá-los por mercadorias. Ao fim e ao cabo, o dinheiro não compra muito quando se vai às lojas,’’ explicou Chingwe.
As mulheres usaram os rendimentos provenientes da venda ambulante na estrada para manterem os filhos na escola e cuidarem deles numa altura em que o país está a atravessar uma situação económica e política difícil.
Milhões de pessoas perderam os empregos na última década naquele país da África Austral em consequência dos encerramentos de empresas nos sectores da manufactura, serviços, agricultura e mineração. Esta situação também teve um efeito devastador nas indústrias associadas.
Segundo o Congresso dos Sindicatos do Zimbabué (ZCTU), a principal entidade sindical do país, milhares de zimbabueanos deambulam agora pelas ruas depois de perderem os seus postos de trabalho. O ZCTU calcula que a taxa de desemprego atinja os 90 por cento.
No seu Relatório sobre a Manufactura de 2008, a Confederação das Indústrias do Zimbabué (CZI) afirmou que as companhias ainda operacionais estão a funcionar a menos de 20 por cento de capacidade. Referiu ainda no mesmo relatório que a maior parte da mão-de-obra trabalha agora no sector informal, que inclui a venda ambulante na estrada.
O governo zimbabueano criou o Ministério de Desenvolvimento das Pequenas e Médias Empresas mas este ainda não apresentou trabalho.
Mas nem toda a gente compra nas bancas à beira da estrada. Nalguns dos mercados à beira da estrada, como Macheke ao longo da estrada entre Harare e Mutare, Ngundu ao longo da estrada entre Harare e Beitbridge e Mutoko no nordeste de Harare, ainda se vêem camiões a transportarem produtos para os principais mercados de bens em Harare e Bulawayo.

