AMBIENTE: Pescadores aprendem a compartilhar

San Diego, EUA, 12/02/2009 – Com os oceanos em crise, de onde sairá o pescado que constitui uma fonte-chave de proteínas para grande parte da população mundial? Nos últimos anos surgiram ferramentas de manejo das reservas “com captura compartilhada”, que permitiriam manter o pescado no cardápio das gerações futuras, segundo especialistas reunidos em uma conferência realizada nos dias 1, 2 e 3 deste mês na cidade norte-americana de San Diego. “A adaptação e a inovação são o segredo”, disse Kristjan Davidsson, ex-presidente do Iceland Seafood International, a cerca de 450 participantes da Cúpula sobre Pescados e Mariscos (Seafood Summit). “A sustentabilidade é o caminho a ser seguido, mas isso exige a colaboração com todos os setores”, afirmou Davidsson.

A cúpula reuniu pescadores, criadores, multinacionais dedicadas aos produtos do mar e seus clientes, junto com conservacionistas e cientistas, para debater e encontrar um caminho comum para a criação de uma indústria sustentável e a proteção dos oceanos. O pescado representa 16% da proteína animal consumida no mundo, 28% da correspondente à Ásia e, no outro extremo 6,6% da consumida na América do Norte, segundo de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO).

Na maioria dos bancos pesqueiros há muitos barcos que competem entre si para obter cada vez mais. As cotas de pesca fazem com que centenas de navios saiam para capturar de modo intensivo e indiscriminado tanto quanto for possível antes de ser atingida a cota total. “As normas do governo não funcionaram”, disse Wes Erickson, pescador e proprietário de um restaurante na província canadense de Columbia Britânica. “Tivemos apenas seis dias para capturar tudo o que podíamos”. Essa situação hipercompetitiva implica perigos para os pescadores, perda de apetrechos, pesca não intencional e excesso de pesca extremamente alto, admitiu.

Em lugar de continuar nesse caminho, os pescadores locais criaram um sistema integrado de “captura compartilhada” no solo marinho. Cada pescador individual pode capturar anualmente uma porcentagem estabelecida da quantidade total de cada uma das 60 espécies de exemplares cujo habitat é o solo marinho. Todos os anos o governo ajusta o teto total para cada tipo de peixe com base na situação das espécies. Por exemplo, em uma reserva pesqueira compartilhada de modo equitativo, 50 barcos dividem em partes iguais uma cota de cem toneladas de meros. Isto é, cada um pode capturar duas toneladas. As cotas também podem ser comercializadas.

Esta “propriedade” sobre as existências pesqueiras dá um incentivo financeiro para cultivá-la. A chave para que isto funcione é que cada barco se responsabilize por tudo o que pesca. Registros detalhados são apoiados por um sistema de vídeo que grava automaticamente cada captura. Ambos são auditados por uma terceira parte. Esses dados são tão precisos que agora são usados pelos cientistas, afirmou Erickson. “Eliminamos a competição no mar, resolvendo a questão com as cotas”, acrescentou. Estabelecer as cotas originais foi muito difícil e envolveu longas disputas entre governos, cientistas, conservacionistas e pescadores. Mas o trabalho valeu a pena, afirmou. “Agora pescamos abaixo da cota e obtemos melhor qualidade. E podemos pescar em qualquer época do ano”, explicou Erickson.

“Se no começo da década de 90 tivessem sido implementadas reservas pesqueiras com captura compartilhada, apenas umas poucas teriam entrado em colapso”, afirmou Kate Bonzon, do não-governamental Fundo de Defesa Ambiental, dos Estados Unidos. Bonzon disse que isso se baseia um estudo feito em 2008 por economistas da Universidade da Califórnia que compararam dados de bancos pesqueiros em todo o mundo, demonstrando que onde houve captura compartilhada foi revertida a queda das reservas, que estavam crescendo.

Na costa oeste da América do Norte, os estudos mostraram que passando para a captura compartilhada acabou-se com o excesso de pesca e se reduziu drasticamente as capturas acidentais. Também caiu a quantidade de barcos pesqueiros, mas os que continuaram em atividade ganharam mais dinheiro com um custo menor, disse Bonzon. “O fato é que simplesmente existem muitos barcos pesqueiros”, acrescentou. A maioria das embarcações que abandonaram a captura de peixes do solo marinho na Columbia Britânica foi o que Erickson chama de “maus atores”, que simplesmente passaram a reservas de captura não compartilhada ou venderam a parte que lhes cabia e assim ganharam muito dinheiro. “Cada comunidade pode criar seu sistema para atender suas necessidades locais”, disse Erickson.

E isto pode funcionar para o resto do mundo? Nem todas as reservas pesqueiras necessitam de câmaras de vídeo ativadas automaticamente, disse Bonzon. Alguns países estão usando outras maneiras de estabelecer a cota de captura. Por exemplo, algumas no Chile e outras no Peru – que possuem uma enorme reserva de anchovas – recorrem esse caminho este ano. “As existências de salmão silvestre da província de Columbia Britânica se negam a considerá-lo embora enfrentem um grande problema”, disse, por sua vez, Erickson.

Uma cultura semelhante de oposição existe na atividade pesqueira da costa leste da América do Norte, reconheceu Bonzon. Mas as existências estão tão baixas que alguns pescadores da região norte-americana da Nova Inglaterra estão suficientemente desesperados para tentá-lo, disse. Demora implementar as regras e custa dinheiro reduzir a capacidade excessiva de uma reserva pesqueira, mas os dados mostram que “a captura compartilhada alinha a sustentabilidade dos recursos e a economia dos pescadores”, concluiu Bonzon. (IPS/Envolverde)

Stephen Leahy

Stephen Leahy is the lead international science and environment correspondent at IPS, where he writes about climate change, energy, water, biodiversity, development and native peoples. Based in Uxbridge, Canada, near Toronto, Steve has covered environmental issues for nearly two decades for publications around the world. He is a professional member of the International Federation of Journalists, the Society of Environmental Journalists and the International League of Conservation Writers. He also pioneered Community Supported Environmental Journalism to ensure important environmental issues continue to be covered.

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