Berlim, 05/03/2009 – A crise econômica mundial não afetou as exportações do Sul em desenvolvimento cuja produção conta com certificados de justiça social e trabalhista, cumprimento de critérios ambientais e respeito aos direitos humanos, afirmam ativistas. Na Alemanha, as importações realizadas por meio dos mecanismos denominados de comércio justo chegaram a US$ 96 milhões na primeira metade de 2008, disse à IPS Claudia Brueck, porta-voz da rede Transfair. “Essa quantia representa crescimento de 25% em relação ao mesmo período do ano anterior”, acrescentou Brueck, cuja rede reúne organizações empresariais que defendem o comércio justo.
Os números para todo o ano de 2008 serão conhecidos em abril, “mas já podemos dizer que a tendência no mercado do comércio justo continua sendo positiva, apesar da crise econômica mundial”, disse Brueck. De todo modo, os bens certificados representam uma porcentagem insignificante dos US$ 1,121 trilhão que a Alemanha importou no total em 2007, em sua maior parte produtos industriais.
A Transfair define o comércio justo como “uma associação comercial baseada no diálogo, na transparência e no respeito, que busca maior igualdade no intercâmbio internacional”. Também “contribui para o desenvolvimento sustentável oferecendo melhores condições comerciais e garantindo os direitos para produtores e trabalhadores marginalizados, especialmente no Sul” pobre, acrescentou a porta-voz. A maioria dos produtos certificados no comércio justo é de alimentos e bebidas, como arroz, frutas, mel, vinho, chá chocolate e café. Mas, também incluem roupas, flores e artesanatos de países tão variados como Brasil, Bangladesh, Colômbia, Índia, México, Namíbia e Tanzânia.
Brueck disse que muitos produtores no Sul se queixam de que a crise econômica dificulta produzir bens que respeitem princípios sociais e ambientais. “Mas, os consumidores nos países industrializados, não apenas na Alemanha, parecem comprometidos com a compra de bens de qualidade social e ambiental certificada”, acrescentou. Na Feira Mundial de Comércio Orgânico realizada de 19 a 22 de fevereiro na cidade alemã de Nuremberg, muitos participantes alegaram que a demanda por produtos do Sul com certificado de princípios sociais e ambientais continua crescendo em todas as nações industriais. Rob Cameron, presidente da Fairtrade Labelling Organizations International (FLO), disse que o total de produtos vendidos através do comércio justo continuarão crescendo em 2009, “porém, mais lentamente do que os recentes aumentos históricos”.
As vendas mundiais desses produtos cresceram 40% ao ano, em média, nos últimos cinco anos, segundo a FLO. Em 2007 somaram quase US$ 3 bilhões em todo o mundo. O país com maiores vendas varejistas de produtos certificados de comércio justo em 2007 foram os Estados Unidos, com mais de US$ 900 milhões. Em seguida aparecem Grã-Bretanha (US$ 868,7 milhões), França (US$ 259 milhões), Suíça (US$ 195 milhões) e Alemanha (US$ 174 milhões). Outros países industrializados, como Canadá, Áustria e Holanda, também têm um mercado significativo, de 99, 69 e 58 milhões de dólares, respectivamente.
No começo de fevereiro, durante dois dias foi realizado um debate informal via telefone entre 10 organizações especializadas, da Alemanha, Áustria, Bélgica, Finlândia, França, Grã-Bretanha, Irlanda do Norte, Noruega e Suíça. Nessa ocasião, os especialistas calcularam que o volume de intercâmbio através desse mecanismo aumentará entre 10% e 25% para o próximo ano, e que o total mundial comercializado em 2008 chegaria a US$ 3,950 bilhões. “O apoio dos consumidores continua muito forte. Com a incerteza financeira, fazem escolhas mais pensadas, e o comércio justo lhes é importante. Esta é uma boa notícia para os produtores de países em desenvolvimento, que precisam dele mais do que nunca”, disse Cameron à IPS.
Oitenta por cento dos consumidores do Norte “sentem que mesmo durante uma recessão é importante que as marcas e as empresas reserve dinheiro para propósitos sociais”, concluiu a organização Edelman GP ao analisar uma pesquisa feita no final do ano passado em vários países do Norte. Com essa idéia concordaram 82% das mulheres entrevistadas, em comparação com 78% dos homens. E 75% das mulheres disseram que “se uma empresa precisa reduzir seus custos em uma recessão não deve deixar de lado as boas causas”, conceito compartilhado por 70% dos homens entrevistados.
Outro informe sobre comportamento dos consumidores feito pelo Banco Cooperativo indica que a recessão mundial não freia o aumento do consumo ético e do comércio justo. Segundo Cameron, estes estudos mostram que, apesar de sentir o impacto, 92% dos consumidores do mundo industrializado “ainda afirmaram estar dispostos a pagar mais por um produto eticamente certificado”. (IPS/Envolverde)

