COMÉRCIO: A contraditória e débil corrente Sul-Sul

Genebra, 20/03/2009 – A renovada ênfase da comunidade internacional no comércio e na cooperação Sul-Sul como meio para enfrentar os efeitos da crise econômica mundial despertam cepticismo. Avançar na cooperação econômica e no comércio entre os países em desenvolvimento, “muito ampliados recentemente”, foi um dos pontos altos na agenda da última sessão da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) realizada em fevereiro em Genebra. “Uma crise financeira mundial abalou as bases econômicas do Norte e ameaça bloquear o crescimento e as aspirações do Sul”, disse o secretário-geral da Unctad, Supachai Panitchpakdi. “Estes são tempos adequados para explorar como uma maior cooperação Sul-Sul poderia ajudar as nações em desenvolvimento a conter a crise”, acrescentou.

Mas, Esperanza Duran, diretora da intergovernamental Agência de cooperação e Informação para o Comércio Internacional (Acici), acrescentou que “isso não vai nos tirar da crise econômica e financeira. Cada vez que há problemas ocorrem chamados para aumentar a cooperação e o comércio no Sul. O principal obstáculo é a falta de crédito, essencial para exportar, o que afeta o comércio tanto no Norte quanto no Sul”, explicou. “O crédito é o combustível necessário para manter o motor em funcionamento. Na teoria, aumentar o comércio Sul-Sul poderia minimizar os efeitos da crise atual. Mas, na prática, não vejo como”, acrescentou.

Mariarosaria Dorio, da Rede Internacional de Gênero e Comércio (IGTN), também questiona a ênfase da Unctad. “Na África, o comércio significou, em grande parte, a exportação de matéria-prima, como minerais, que alimentou o auge econômico da China”, acrescentou. “Mas para que o comércio tenha benefícios reais, deveria incluir bens manufaturados, com valor agregado”, ressaltou. Por essa ótica, um crescimento do comércio Sul-Sul com benefícios para a população das nações envolvidas teria de prever uma reorientação da capacidade de produção do setor primário à indústria manufatureira. Mas, também um novo equilíbrio das regras do comércio internacional e uma participação mais ativa dos representantes de países do Sul no processo mundial de tomada de decisões econômicas, segundo Dorio.

Por sua vez, Mark Halle, do centro de estudos e pesquisas do Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável(IISD), disse que a cooperação Sul-Sul “é uma boa idéia, mas o comércio Sul-Sul ainda é limitado. Isto ocorre porque o principal motivo para promovê-lo tende a estar motivado politicamente: a intenção de substituir as relações não eqüitativas de mercado entre Norte e Sul com outras mais justas entre países do Sul”, afirmou. O problema, segundo Halle, é que o comércio Sul-Sul não necessariamente é mais justo: os empresários dos países em desenvolvimento também perseguem o lucro e o comércio opera em todas as partes baseado no mercado, e não de acordo com critérios políticos. “Ali onde houve fluxo, como entre países como Brasil, China, Índia e África do Sul, foi pelas usuais razões comuns, não por razões políticas”, acrescentou.

Dorio, no entanto, apontou problemas estruturais. “Os países em desenvolvimento enfrentam desafios como as monoculturas, seus pequenos mercados internos, a débil capacidade industrial, as altas taxas de juros e o baixo poder de compra” dos consumidores, afirmou. “Aumentar o comércio Sul-Sul requer fortalecer a capacidade local e o investimento, a infra-estrutura dedicada à atividade comercial e à assistência”, assegurou. E a assistência é uma condição difícil de conseguir mais que nunca no contexto de uma crise financeira. Duran recordou que na conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio realizada em Hong Kong em 2005 a União Européia prometeu aumentá-la para US$ 2 bilhões anuais. “Onde está esse dinheiro?”, perguntou.

Aileen Kwa, do intergovernamental instituto de pesquisas Centro do Sul, concorda que a cooperação Sul-Sul, mais do que o comércio, constitui um caminho de saída da crise. “O comércio deve beneficiar os pequenos agricultores e as pequenas indústrias”, disse. “Sempre apoiamos os países africanos na busca da integração regional, mas esta deve ser real”, acrescentou. “Não se trata apenas de abrir-se ao mundo exterior, mas de usar um mercado mais amplo para criar sinergias entre mercados pequenos”, explicou.

Kwa também propôs um tipo diferente de comércio, “não baseado no mesmo critério antigo de usar as oportunidades de acesso aos mercados”, porque resulta inconveniente “um país grande dominar o mercado de um país vizinho menor. Deveria, na verdade, dar-lhe assistência e ajudá-lo a produzir bens complementares. O mercado deveria ser usado para facilitar a igualdade de renda dentro de uma região”, acrescentou. IPS/Envolverde

Correspondentes da IPS

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