Moscou, 13/04/2005 – O governo da Rússia buscará apoio do setor privado para levar adiante uma intensa campanha de luta contra a síndrome da imunodeficiência adquirida (aids). A decisão foi tomada depois que especialistas confirmaram que há mais de 312 mil pessoas portadoras do vírus HIV, causador da doença, registradas em todo este país de 104 milhões de habitantes, embora se estime que o número real de infectados chegue ao milhão. "Os números superaram todos os prognósticos. A propagação da aids já deixou de ser apenas um problema médico, e agora também é um problema estratégico, social e de segurança econômica diante da atual situação demográfica", afirmou o vice-primeiro-ministro, Alexander Zhukov, se referindo à diminuição da população russa registradas nos últimos anos.
O Banco Mundial previu que o produto interno bruto da Rússia cairá 4% até 2010 devido à queda da população economicamente ativa, entre outras coisas, por causa da grande propagação do HIV/aids. Zukhov disse que o governo do presidente Vladimir Putin "agora entende a escala e importância deste problema e se dá conta da necessidade de prevenir o desenvolvimento descontrolado da epidemia". As companhias farmacêuticas podem ter um papel-chave nesta nova sociedade entre o governo e o setor privado para lutar contra a aids. O vice-primeiro-ministro sugeriu que os laboratórios poderiam assumir a liderança das pesquisas para o desenvolvimento de medicamentos anti-retrovirais e de uma vacina contra a doença. Zukhov disse, também, que as companhias poderiam patrocinar programas de prevenção e educação, bem como campanhas para combater a discriminação que sofrem muitos doentes na hora de receber cuidados médicos.
Por sua vez, o ministro da Saúde, Mikhail Zurabov, anunciou este mês acordos com importantes indústrias farmacêuticas internacionais que permitirão aos russos infectados com HIV pagar menos pelos remédios. Zubarov destacou que, antes, um paciente precisava gastar, pelo menos, US$ 10 mil por ano com medicamentos, e agora investirá apenas US$ 3 mil. "A dispersão do vírus atingiu um nível crítico. Cem pessoas são infectadas todos os dias. O Programa das Nações Unidas para o HIV/aids (Onusida) estima que atualmente vivem na Rússia cerca de 860 mil pessoas com HIV, e que a propagação da doença nesse país é a mais rápida do mundo", disse o diretor do Centro Federal contra a Aids, Vadim Pokrovsky.
O consultor médico internacional César Chelala afirmou que Moscou deve o quanto antes incrementar seus atuais níveis de financiamento para campanhas de prevenção e tratamento. O governo de Putin destinou cerca de US$ 4 milhões para a luta contra o HIV/aids em 2003, quantia quase insignificante comparada com os US$ 1,3 bilhão que destinou às comemorações dos 300 anos da cidade de São Petesburgo, disse Chelala à IPS. "O HIV/aids alcançou proporções sinistras na Rússia, o que terá graves conseqüências na expectativa de vida e no crescimento demográfico. A menos que sejam colocadas em prática medidas efetivas de tratamento e prevenção, o efeito na população da Rússia e em seu desenvolvimento econômico será catastrófico", alertou. O especialista disse que a propagação da aids vem acompanhada do aumento de outras doenças sexualmente transmissíveis. A prevalência da sífilis na Rússia é centenas de vezes maior do que na Europa ocidental.
O governo já encomendou estudos sobre o papel que as companhias farmacêuticas poderiam assumir na luta contra a aids, como financiamento de programas de prevenção e apoio a organizações civis. Uma pesquisa feita pela organização não-governamental internacional Sócios Transatlânticos Contra a Aids, também concluiu que a campanha contra a doença na Rússia necessita do apoio do setor privado. O estudo demonstrou que gerentes de 127 companhias não tinham informação básica sobre o HIV/aids, e muito menos políticas para prevenir seus empregados. "É chave que o governo russo, a comunidade empresarial e o público em geral trabalhem juntos para identificar e por em prática soluções efetivas para o problema da aids", disse à IPS o presidente da ONG, John Tedstrom. (IPS/Envolverde)

