Caracas, 14/04/2005 – A Venezuela começou a preparar centenas de milhares de cidadãos para formar uma reserva militar capaz de somar-se à defesa do país caso este se veja obrigado a entrar em guerra, que o presidente Hugo Chávez identificou como assimétrica. "Trata-se da nova doutrina militar venezuelana", disse Chávez a centenas de oficiais por ocasião de um encontro castrense sobre as chamadas guerras de quarta geração. "Coloquemos em funcionamento todos nossos motores, a vontade, o esforço individual e coletivo para irmos progressivamente submergindo nos conceitos do conflito assimétrico", afirmou o mandatário. Chávez designou o general Julio Quintero, ex-chefe do comando unificado da Força Armada, para dirigir a organização progressiva de reservistas e outros civis na formação de uma reserva que "pode chegar a ter até dois milhões de integrantes", acrescentou o presidente da Venezuela, onde a metade de seus 25 milhões de habitantes são adultos.
As forças militares regulares venezuelanas – Exército, Marinha, Aviação e Guarda Nacional – totalizam 82 mil homens, segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), com sede em Londres. Tradicionalmente, as forças armadas empregaram reservistas egressos mais jovens do serviço militar, cujo alistamento é obrigatório aos 18 anos, mas, sua incorporação como recruta é voluntária há duas décadas. Desde então, o contingente dos 20 mil jovens que se estimava que a cada ano vestem pela primeira vez o uniforme militar, pelo período de 18 meses, procedem das camadas sociais mais pobres, que vêem nisso uma oportunidade para estudar uma profissão, aprender um ofício e conseguir uma renda equivalente ao salário mínimo nacional (pouco mais de US$ 160).
Agora, a intenção do governo e do alto comando militar é formar uma reserva mais extensa, com civis voluntários, com idades entre 18 e 50 anos, além de chamar a colaboração ativa de empresas e outras pessoas jurídicas, segundo as previsões do projeto da nova lei da força Armada em estudo no parlamento. Esta iniciativa aparece no contexto da disputa entre Washington e Caracas, que derivou nos últimos tempos em uma escalada de recriminações e acusações mútuas, entre elas a afirmação de Chávez de que os Estados Unidos têm planos para assassiná-lo e, assim, propiciar uma invasão armada da Venezuela.
Por sua vez, o governo do presidente George W. Bush questionou a decisão venezuelana de comprar aviões militares do Brasil e da Espanha, corvetas e barco-patrulha espanhóis, além de helicópteros e cem mil fuzis AK Kalashnikov da Rússia. Esta última compra foi especialmente criticada pelo secretário norte-americano da Defesa, Donald Rumsfeld, e por outros porta-vozes do governo de Washington. Os AK substituirão os FAL (fuzil automático leve) de fabricação belga usados pela Força Armada da Venezuela há meio século. "A pergunta que se pode fazer é o que farão com os 120 mil ou 150 mil FAL que devem existir no país? Irão para a reserva?", comentou à IPS um oficial da reserva da Marinha.
"Nem todo integrante da reserva estará armado", explicou o general Melvin López, secretário do Conselho de Defesa da Nação. "Cada um exercerá seu papel: os médicos, os enfermeiros, os jornalistas. Trata-se de saber a quem contatar na hipótese de perigo, mas nem todos carregarão um fuzil", garantiu. "O que se quer é consolidar uma posição de resposta diante da hipótese de agressão externa. Que um Estado agressor saiba fique sabendo antes que temos uma reserva treinada e pronta para cumprir seu dever. É um efeito dissuasivo", acrescentou o oficial. Chávez disse ter ordenado manobras e outras atividades conjuntas cívico-militares "porque, no contexto da guerra assimétrica, a participação do povo é imprescindível na defesa do país e de nossa soberania".
Simultaneamente, renovou suas advertências sobre o desejo de Washington para controlar as reservas petrolíferas venezuelanas. O embaixador dos Estados Unidos em Caracas, William Brownfield, respondeu a essas declarações ao afirmar em uma entrevista na televisão que "nunca, em dois séculos de história, os Estados Unidos invadiram a Venezuela, não a está invadindo e não a invadirá. Ponto final", afirmou. No entanto, o tenente da reserva do exército Eliécer Otaiza, um seguidor de Chávez que dirige o instituto encarregado da reforma agrária, disse na televisão "a título pessoal" – segundo explicou – que "devemos começar a semear o ódio em relação aos Estados Unidos, porque se formos para a guerra será para trocarmos tiros e não nos abraçar". Brownfield deplorou esta declaração, diante da qual a chancelaria venezuelana teve de explicar que é o único o único ministério autorizado a expor a política internacional do país. Hugo Chávez também disse que "Otaiza se equivocou", pois "não pregamos ódio, mas o amor e a solidariedade".
Por sua vez, o general Raúl Baduel, comandante do Exército da Venezuela e um estudioso de filosofias orientais e do clássico chinês Sun Tzu "A arte da guerra", afirmou que os militares devem "interpretar as novas estratégias e tecnologias do pós-Guerra Fria e as ameaças que pairam sobre nosso país". Entre essas ameaças citou um possível confronto bélico regional, com extensão dos conflitos em países vizinhos "sob o pretexto de contrapor a fatores geradores de violência", o que quer dizer, sem indicar expressamente, que a guerra civil colombiana pode alcançar o território venezuelano.
Além disso, segundo Baduel, pode ocorrer na Venezuela um golpe de Estado, uma invasão ao "estilo das coalizões que intervieram em outras partes do mundo sob o mandato da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da Organização das Nações Unidas (ONU), ou uma guerra de quarta geração com passo prévio a operações destinadas a destruir o Estado-nação". As "gerações bélicas", explicou à IPS o analista Alberto Garrido, correspondem a modelos utilizados desde o século XVII: a primeira geração empregou maciçamente homens em colunas, a segunda privilegiou o fogo maciço, a terceira a iniciativa para romper as linhas inimigas e, na quarta, o Estado perde o monopólio da guerra, como ocorre com o terrorismo moderno.
"Referir-se a uma guerra assimétrica desde o poder do Estado, com fazem Chávez e o alto comando militar, implica reconhecer que a totalidade das forças defensivas não dependerão do Exército, porque as definições aceitas de guerra de quarta geração e guerra assimétrica, isto é, sem limites, implica no combate de oponentes não-estatais ao exército de um Estado", acrescentou Garrido. Por sua vez, o general da reserva Alberto Muller, próximo do chavismo, disse à IPS que "não se inventou nada de novo, pois a reserva está em nossas Constituições desde 1810 e são conceitos próprios dos Estados capitalistas, com um exemplo claro na Suíça". Para os opositores políticos de Chávez, a nova reserva prete4nde formar uma milícia repressiva contra a dissidência interna e suas manifestações.
"Com centenas de milhares de militantes chavistas armados, que democracia e eleições livres pode haver na Venezuela?", se perguntou Leopoldo Puchi, secretário-geral do Movimento ao Socialismo, um pequeno partido de esquerda moderada. "Criar uma força armada paralela é um desrespeito à institucionalidade castrense e uma aberração doutrinária", deplorou a Frente Institucional Militar, uma organização de militares da reserva, de oposição. "Armar milhares e milhares de partidários do governo nos leva a alertar sobre os ricos de uma guerra civil", disse essa organização. Por sua vez, o general Raúl Salazar, que foi ministro da Defesa de Chávez em 199 e agora passou para a oposiçºao, afirmou que "uma reserva tão grande simplesmente é algo irrealizável". (IPS/Envolverde)

