João Paulo II: As escravas sexuais coreanas exigem justiça por parte do Japão

Oakland, 13/04/2005 – As avós coreanas ainda vivas que há quase um século foram convertidas em escravas sexuais pelo exército imperial japonês esperam e reclamam um pedido de desculpa por parte do governo de Tóquio e com uma crescente pressão internacional, talvez possam conseguir seu objetivo. Essas mulheres, agora com idades entre 65 e 80 anos, são conhecidas como as "mulheres para o prazer", porque foram forçadas a proporcionar "diversão" sexual aos oficiais japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. Eram mais de 200 mil jovens seqüestradas das regiões mais pobres de toda Coréia e foram mantidas em pequenos quartos onde só cabia uma esteira no chão e onde serviam como escravas sexuais. Em três anos, essas jovens escravas foram violadas, em média, cerca de 7.500 vezes, e algumas até por 30 oficiais japoneses por dia.

Depois de tudo que sofreram, incluindo socos e até facadas – e o que continuam sofrendo em conseqüência de doenças sexualmente transmitidas por seus violadores, traumas psicológicos e afastamento social e familiar – essas mulheres talvez possam conseguir justiça antes ainda em vida. Não pedem muito. Querem um pedido de desculpa formal, reparações e uma revisão nos livros japoneses de história para que estes incluam uma admissão dessa dolorosa verdade, para que as novas gerações aprendam com o passado. Sua demanda por justiça começou em 1991, quando um grupo de avós coreanas lideradas por Kim Hak Sun (1923-1997) finalmente rompeu o silêncio e contou publicamente as trágicas histórias de suas integrantes. Em uma ação conjunta, iniciaram um processo legal contra o governo japonês reclamando reparações pelas violações dos direitos humanos cometidas pelos militares japoneses durante sua ocupação da Coréia.

Com chuva, neve ou sol, e sem faltar um único dia durante anos, essas avós protestavam toda quarta-feira diante da embaixada japonesa em Seul. Até agora, Tóquio continua se recusando a assumir responsabilidades e inclusive nega a existência de lugares para "diversão sexual" durante sua ocupação do território coreano. O governo japonês talvez tenha sido capaz de sufocar as demandas dessas senhoras, mas com a crescente pressão global que está se registrando sobre ele, é provável que as coisas mudem. Múltiplas organizações internacionais, como a Convenção das Nações Unidas para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra as Mulheres (Cedaw) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), depois de extensas investigações conclamaram o governo japonês a apresentar desculpas públicas e assumir suas responsabilidades.

Inclusive o presidente da Coréia do Sul, Roh Moo Hyun, uniu-se a este crescente coro. Em 2003 declarou que "se o Japão está indignado pelo seqüestro de seus cidadãos por parte da Coréia do Norte", o governo de Tóquio deveria pagar indenizações "aos milhares de coreanos obrigados a prestar trabalhos forçados e às milhares de coreanas constrangidas a servirem de escravas sexuais pelo exército japonês durante a época da guerra". Esta foi uma importante abertura por parte do governo sul-coreano, que antes havia ignorado as reclamações das mulheres submetidas à escravidão sexual durante a Segunda Guerra Mundial a fim de preservar as relações diplomáticas com o Japão e de ocultar este vergonhoso capítulo da história coreana.

Agora as "mulheres para o prazer" de Taiwan e Filipinas, junto com as coreanas, também apresentaram nas Nações Unidas uma demanda oficial contra o governo japonês. Inclusive Eve Ensler, a famosa autora de "Os monólogos da vagina", acaba de anunciar que está lançando uma campanha global em apoio às "mulheres para o prazer". O que falta é o governo japonês admitir sua responsabilidade. Alguns especulam que o governo de Tóquio está esperando que as últimas "mulheres do prazer" morram com a esperança de que o movimento desapareça com elas. Mas do que ele não se dá conta é que essas valentes avós fizeram com que o mundo passasse do silêncio à resistência. Agora o movimento é bastante amplo para que o governo japonês simplesmente espere por sua extinção. O consenso global está aí e o Japão deveria fazer o que é certo e devolver a essas idosas avós o que seu governo lhes arrebatou há tantos anos: sua dignidade. (IPS/Envolverde)

(*) Elisa Gahng, professora na Universidade da Califórnia em Berkeley e membro do Women of Color Resource Center.

Elisa Gahng

Elisa Gahng is a senior at the University of California at Berkeley and an intern with the Women of Colour Resource Centre in Oakland, CA.

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