Saúde: Angola tem o pior foco de febre de Marburgo

Lisboa, 20/04/2005 – O foco epidêmico de febre hemorrágica de Marburgo em Angola, o mais grave do mundo até agora conhecido, já matou 237 pessoas e afeta particularmente meninas e meninas de pouca idade. As gravidade da doença está dada por seu grau de contágio e quantidade de vítimas, segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS). A mortalidade do foco epidêmico é de 91% dos casos, e 80% das vítimas são crianças menores de 5 anos. Apesar de o vírus infectar os seres humanos independente de sua idade, este perfil da epidemia pode ser explicado pela maior vulnerabilidade por parte das crianças, quase sempre desnutridas e que já são portadoras de outras doenças, como diarréia e malária.

Informações divulgadas nesta terça-feira em Lisboa citando autoridades sanitárias angolanas indicam que até a noite de segunda-feira a febre de Marburgo matou 237 pessoas em 261 contágios registrados, com aumento de quase quatro casos e duas mortes nos últimos dias. Os novos contagiados e as mortes ocorreram na província de Uíge, no norte do país, onde está localizado o foco da epidemia. As províncias de Luanda, Cabinda, Cuanza Norte, Cuanza Sul e Zaire, as outras seis que se encontram em estado de alerta, não registraram casos pelo segundo dia consecutivo.

As equipes de vigilância médica controlam 518 pessoas na região norte, 406 das quais estão em Uíge, 93 na comarca de Amboim, na província de Cuanza Sul; 10 em Mbanza Congo, capital da província de Zaire, e os demais na capital, Luanda. Este controle é feito com pessoas que tiveram contato direto com infectados, e é uma das medidas destinadas a frear a proliferação da epidemia, junto com o confinamento dos doentes. A infecção não pode ser prevenida com vacinas, e tampouco há medicamentos eficazes pra combatê-la.

A OMS anunciou na sexta-feira passada que os casos estavam sendo reclassificados, por isso não fornecei números da totalidade desse vasto país, de 1,4 milhão de quilômetros quadrados e 12 milhões de habitantes. No terreno estão equipes médicas e enfermeiros enviados pelo Ministério da Saúde de Portugal, especialistas da OMS, do Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos, com sede em Atlanta, e da organização não-governamental Médicos Sem Fronteiras, em um esforço conjunto com as autoridades angolanas para tentar evitar a propagação da enfermidade.

Portugal iniciou sua ajuda à maior de suas ex-colônias africanas em meados de março, enviando material médico-sanitário, antipiréticos, desinfetantes para água, luvas, máscaras, roupas de cama descartável e sacos plásticos para cadáveres. A infecção viral se manifesta rapidamente como uma síndrome febril hemorrágica, apresentando como primeiros sintomas dores de cabeça e musculares, febre alta, mal-estar geral, vômitos, diarréia e náuseas. A fase hemorrágica aparece em uma segunda etapa. A infecção é causada pelo vírus de Marburgo, isolado em 1967 em um laboratório da cidade alemã de mesmo nome, pertencente á mesma família do agente patogênico da febre hemorrágica do Ebola. Não está claro qual é a espécie animal hospedeira do vírus, embora esteja documentado que o macaco verde é seu principal portador.

A OMS está preparando um plano de ação para controlar o foco, e alerta que para colocá-lo em prática precisa de um apoio substancial de recursos da comunidade internacional. Uma das prioridades mais urgentes, segundo os peritos da organização, consiste em conseguir que a população entenda melhor a doença e aceite as medidas de controle. Com esse propósito os especialistas no terreno realizam reuniões com os "sobas" (chefes tribais de Uíge. As autoridades da província liberaram os sobas de seus deveres habituais durante sete dias, para que passam acompanhar as equipes médicas e móveis de vigilância na busca de casos e recolhimento de cadáveres, decisão qualificada pela OMS como "um importante passo para conseguir que a população aceite as medidas necessárias para controlar o foco da doença".

A Organização Mundial da Saúde decidiu solicitar a ajuda dos sobas, muito respeitados pela população, em todos os demais municípios afetados pela enfermidade, com o apoio das autoridades angolanas. Em resposta a um chamado internacional da OMS, Alemanha, Holanda, Grã-Bretanha, Suécia e o Escritório de Ajuda Humanitária da Comissão Européia, órgão executivo da União Euripéia, se comprometeram a arrecadar fundos para financiar as atividades de assistência e prevenção.(IPS/Envolverde)

Mario de Queiroz

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