China: Embargo de armas, nova pedra nas relações Europa-EUA

Paris, 22/04/2005 – O plano da França, Alemanha e de outros governos europeus de reiniciar a exportação de armas para a China separa este bloco dos Estados Unidos, como ocorreu com a invasão do Iraque há dois anos. Segundo analistas independentes, a questão é uma prova de fogo para a capacidade da UE de conceber e levar adiante uma política externa soberana, independente das restrições de Washington. "Os que se opõem ao levantamento do embargo militar contra a China tentam restringir a capacidade da Europa de atuar de acordo com seus interesses", disse á IPS Pascal Boniface, diretor do Instituto de Relações Internacionais e Estratégia (IRIS), com sede em Paris.

A UE previa levantar antes de julho deste ano o embargo militar aplicado à China desde o massacre de manifestantes pela democracia na praça da Paz Celestial, em 1989, para vender equipamentos militares ao gigante asiático, contra a oposição de Washington. Mas, alguns legisladores europeus, sobretudo britânicos, pensam que não é o momento oportuno para cancelar o embargo. O argumento foi dado por Pequim no mês passado, quando a Assembléia Nacional do Povo da China aprovou uma lei anti-secesão que permite o uso da força para sufocar toda tentativa independentista de Taiwan. Isto agravou a tensão na Ásia oriental e levou os Estados Unidos a insistirem na necessidade de a UE manter a sanção.

A intenção do governo de George W. Bush é conter o crescimento militar chinês, que vem acompanhado de uma expansão econômica sem precedentes e de uma influência maior na política internacional. Mas, nas últimas semanas, tanto o presidente francês, Jacques Chirac, quanto o chanceler alemão, Gerhard Schoreder, insistiram em dizer que a UE deve suspender o embargo militar à China. "O embargo é supérfluo", disse Schoreder na última quinta-feira em uma sessão plenária do parlamento. O atual regime chinês não se parece com o que reprimiu brutalmente as manifestações estudantis de 1989, argumentou.

Schoreder elogiou o "impressionante crescimento econômico chinês" e lembrou que a economia da Alemanha depende em grande parte das exportações, por isso uma boa relação com a China beneficiaria seu país. Chirac fez considerações semelhantes, tanto em Paris quanto no exterior. Em uma reunião no final de março com o primeiro-ministro japonês, Junichiro Koizumi, o presidente francês qualificou de "legítima" a reclamação chinesa pedindo o fim do embargo. Indústrias civis da França e da Alemanha obtiveram nos últimos meses contratos multimilionários com a China. Os esforços dos dois países para levantar o embargo têm o apoio da Espanha e, em menor grau, de Grã-Bretanha e Bélgica. Porém, a iniciativa provocou iradas reações de vários políticos europeus de todos os setores ideológicos.

A oposição se fortaleceu depois que o subsecretário de Estado dos Estados Unidos, Robert Zoellick, chamou o eventual levantamento do embargo de "um erro" que "inibiria as oportunidades de integração" entre Estados Unidos e Europa. Depois dessas declarações, o Parlamento Europeu votou no último dia 14, por esmagadora maioria, uma resolução obrigatória exortando a UE a manter o embargo de armas. Na opinião de Boniface, do IRIS, a oposição ao fim do embargo parece ignorar que este não ajudou a melhorar os direitos humanos na China, nem impediu aliados dos Estados Unidos, como Israel, de entregarem material militar a Pequim.

"Segundo a Controladoria Geral dos Estados Unidos, entre 1990 e 1996, anos seguintes à imposição do embargo, a União Soviética e depois a Rússia e Israel entregaram armas à China no valor de US$ 5,3 bilhões", disse Boniface. O embargo tampouco impediu a transferência de tecnologia militar de governos europeus para a China. As exportações de armas européias para esse país duplicaram entre 2002 e 2003, chegando a US$ 520 milhões, segundo dados oficiais. O fim do embargo não mudaria o equilíbrio de poder na Ásia, disse Boniface. "O orçamento militar chinês representa apenas um décimo do Japão e dos Estados Unidos", recordou. (IPS/Envolverde)

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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