México, 24/06/2009 – A definição de metas de longo prazo para reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa separa as nações em desenvolvimento das industriais nas negociações para um novo acordo climático internacional. Esta brecha ficou novamente evidente em uma reunião de dois dias dos ministros do Meio Ambiente delegados das 17 nações do Fórum das Grandes Economias sobre Energia e Clima (MEF), realizada em Jiutepec, a cem quilômetros da capital mexicana.
Em uma entrevista coletiva antes do encerramento da jornada de terça-feira, o ministro do Meio Ambiente do México, Juan Elvira, anunciou “progressos” nas negociações, mas não deu detalhes. “A reuniu abordou questões que em ocasiões anteriores nem mesmo foram mencionadas, e isso nos dá esperanças de podermos avançar fortemente”, afirmou. A comunidade internacional deve alcançar em dezembro um regime internacional obrigatório para frear os piores efeitos da mudança climática, centrado na redução de gases contaminantes.
No México, as conversações se prolongaram além do programa inicial, um sinal de que se aturaram, especialmente no tocante às metas de redução dos gases estufa produzidos por atividades humanas e considerados responsáveis pelo aumento da temperatura do planeta. O MEF, criado em março pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, também tem Brasil, Alemanha, Austrália, Canadá, China, Coréia do sul, França, Grã-Bretanha, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Rússia, África do Sul e União Européia, somando 80% dos gases contaminantes produzidos no mundo.
Em sessões a portas fechadas e cheias de hermetismo, os funcionários abordaram temas como financiamento, adoção de medidas de mitigação e adaptação à mudança climática e transferência de tecnologia das nações industrializadas ao mundo em desenvolvimento. “Tocou-se em profundidade na questão da redução de emissões pelos países industrializados, na qual este fórum está chegando a acordos importantes”, afirmou Juan Elvira. Os presentes discutiram o rascunho da declaração da reunião de cúpula do MEF, em julho no município de La Maddalena, norte da ilha italiana de Sardenha. Também na Itália, entre 8 e 10 de julho, acontecerá a Cúpula dos Oito países mais poderosos do mundo, todos integrantes do MEF.
Uma das expectativas deste ciclo girava em torno de um possível anúncio dos Estados Unidos ou da China sobre uma meta clara de redução de emissões, que até agora não aconteceu. A conferência de Jiutepec faz parte das intensas negociações deste ano com vistas a um convênio que a partir de 2012 substitua o Protocolo de Kyoto, assinado nessa cidade japonesa em 1997 e em vigor desde 2005. Esse acordo, que foi repudiado pelos Estados Unidos, obriga os 37 países industrializados incluídos em seu Anexo I reduzirem suas emissões de gases de efeito estufa 5,2% em relação aos níveis de 1990, isso até 2012.
Uma proposta que surgiu na mesa de negociações foi a criação de um fundo verde, de US$ 100 bilhões, impulsionada pelo México que sugeriu o Banco Mundial como administrador. “Gostaríamos de ver mais nações assumindo a liderança no combate à mudança climática, se comprometendo a dar um financiamento aos países em desenvolvimento em matéria de mitigação e adaptação”, disse à IPS o ambientalista Gustavo Ampugnani, presente no encontro do MEF e coordenador político para a América Latina do Greenpeace.
Esta organização ecológica cobrou uma redução nas emissões de, pelo menos, 40% em relação a 1990 e propôs a criação de um fundo ecológico internacional de US$ 140 bilhões para ações de mitigação e adaptação à mudança climática. Os países em desenvolvimento querem que as nações industrializadas reduzam suas emissões em ao menos 40% até 2050, enquanto estas querem que as metas obrigatórias incluam também as grandes nações em desenvolvimento. Estados Unidos e China são os principais contaminadores da atmosfera. O México emite anualmente 715 milhões de toneladas de dióxido de carbono, segundo o inventário nacional correspondente a 2006. A atividade mais contaminante é a produção e o consumo de energia.
O Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a mudança climática (IPCC), criado em 1988 pela Organização das Nações Unidas para fornecer a governos e autoridades uma fonte de informação objetiva sobre o fenômeno, estima que a redução global de gás estufa deveria oscilar entre 25% e 40% em relação aos volumes de 1990. “O hermetismo da reunião do MEF não tranquiliza, porque não vemos sinais de liderança dos países mais ricos, dos que mais contaminam e que são os mais obrigados a tomar medidas para que a temperatura não continue aumentando”, disse Ampugnani, para quem a conjuntura atual é “uma armadilha política na qual ninguém se atreve a dar o primeiro passo”.
As negociações climáticas continuarão em Bonn entre 10 e 14 de agosto, em Bancoc entre setembro e outubro, e entre 2 e 16 de novembro em Barcelona. O processo culminará em Copenhague, na Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, entre 7 e 18 de dezembro. IPS/Envolverde

