EUA: Nove dólares para a defesa, um dólar para a mudança climática

Washington, 29/07/2009 – O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, propôs dedicar um dólar para a luta contra a mudança climática para cada nove destinados à defesa em 2010, segundo o estudo divulgado ontem pelo Instituto de Estudos Políticos, com sede em Washington. O atual governo dá mais importância à mudança climática do que o de George W. Bush, quando a proporção foi de um dólar para a mudança climática para cada 88 destinado à defesa, segundo o informe “Military vs. Climate Security: mapping the shift from the Bush years to the Obama era” (Defesa vs. Segurança climática: dos anos Bush à era Obama).

O presidente norte-americano considera que a mudança climática representa uma grave ameaça para a segurança nacional e internacional. Mas, será difícil sustentar a designação de recursos para lutar contra esse problema ambiental porque a maior parte do orçamento está incluída na Lei de Recuperação e Reinvestimento Norte-americano, aprovada em fevereiro deste ano. De fato, US$ 68 bilhões dos quase US$ 79 bilhões destinados a combater a mudança climática já estão no pacote de estímulo, uma destinação única para impulsionar a economia após a crise financeira desatada em setembro passado, diz o estudo.

O orçamento básico para lidar com o fenômeno ambiental em 2010 chegará a US 10,6 bilhões, quantia ínfima em relação à destinada ao pentágono, US$ 434 bilhões. Além disso, o orçamento militar não contempla as atuais guerras no Afeganistão e Iraque, cujo gasto estima-se que será superior a US$ 150 bilhões. “Obama considerou a mudança climática ‘o desafio de nosso tempo’ e começou a destinar fundos para sustentar sua retórica”, disse Miriam Pemberton, autora do informe do Instituto de Estudos Políticos.

“Mas, será difícil manter os fundos para enfrentar o desafio ambiental devido ao déficit orçamentário no qual estamos imersos”, ressaltou Pemberton. “Uma forma importante de conseguir o dinheiro é reduzir o gasto em insumos bélicos que não necessitamos para que o investimento em segurança possa ajustar-se à magnitude relativa das ameaças que temos pela frente”, acrescentou.

O governo de Obama deve fazer o impossível para incorporar aos próximos orçamentos básicos os recursos necessários para a luta contra a mudança climática, como os previstos no pacote de estímulo, a fim de poder enfrentar os desafios que supõe esse fenômeno, diz o documento de 65 páginas, o último de vários estudos feitos pelo Instituto nos últimos sete anos.

As consequências da mudança climática preocupam diversos setores dos Estados Unidos. Há dois anos, vários generais e almirantes da reserva produziram o informe “National Security and the threat of climate chance” (Segurança nacional e a ameaça da mudança climática). O estudo concluiu que as consequências do aquecimento global originarão conflitos internacionais por recursos vitais como água doce, haverá distúrbios e surgirão comportamentos extremistas nos países, além da escassez de alimentos e migrações maciças. “A mudança climática multiplica os riscos de instabilidade na maioria das regiões conflitivas”, diz o informe dos militares.

Dois grupos de estudo, o Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos (CSIS) e o Centro para uma Nova Segurança Norte-americana (CNAS), divulgaram meses depois “The age of Consequences (A era das consequências), de 119 páginas. O aumento da temperatura e a elevação do nível do mar causado pelo aquecimento global darão origem a migrações maciças de, “talvez, milhares de milhões de pessoas” no próximo século caso se concretizem alguns dos piores prognósticos científicos. “O aquecimento do planeta pode desestabilizar o mundo”, disse na época o presidente do CNAS, Kurt Campbel.

“Creio que esse será o assunto-chave de nossa época”, destacou o atual secretário-adjunto de Estado para assuntos da Ásia-Pacífico. Também o Conselho Nacional de Inteligência divulgou pouco depois um informe especial no qual coincide com a funesta análise e conclui que a mudança climática pode ter “graves consequências para a segurança nacional” e “por em risco a estabilidade interna de alguns países, bem com causar conflitos internos e, menos provável, entre Estados, especialmente pela maior escassez de água”.

A Comissão de Relações Exteriores do Senado organizou sua primeira sessão sobre mudança climática e segurança global na semana passada. O senador do opositor Partido Republicano, Richard Lugar, alertou para os efeitos nefastos de não cuidar do problema. “As consequências da mudança climática incluem maior risco de secas, fome, enfermidades e migrações maciças, todos possíveis estopins de conflito”, afirmou. “Para preparar nossas forças militares para as futuras ameaças, devemos compreender a forma com a mudança climática se converte em uma fonte de instabilidade e origina uma guerra”, acrescentou Lugar.

O informe divulgado ontem pelo Instituto de Estudos Políticos elogia Obama por compreender a importância da mudança climática e reduzir a brecha entre o orçamento militar e o ambiental. A diferença de 88 dólares para a defesa para cada dólar destinado à luta contra a mudança climática, característica do governo Bush, pode cair para nove dólares por um graças ao fundo adicional do pacote de estímulo. Se não houvesse esse dinheiro, a proporção seria de 65 por um. “Se essa partida única não se integrar ao orçamento de base” a brecha voltará a aumentar, recorda o informe.

Atualmente, não há um orçamento básico para lutar contra a mudança climática, em especial porque o dinheiro está dividido em diversos ministérios, desde o Departamento de Estado até o de Transporte. Em 2010, Obama destinará US$ 10,6 bilhões à luta contra a mudança climática, conclui o informe. A brecha entre os dois orçamentos se reduz de forma significativa quando se leva em conta a destinação incluída no pacote de estímulo. Mas o governo investe 20 vezes mais em pesquisa e desenvolvimento militar do que em fontes de energia limpa.

O orçamento de 2010 reduz muito pouco a brecha entre o gasto militar e o ambiental, mas se forem considerados os US$ 17,3 bilhões adicionais do pacote de estímulo para pesquisa e desenvolvimento em energia limpa, a diferença entre o gasto de defesa e o climático passa a ser de quatro dólares por um. Em 2008, Washington destinou 50 vezes mais recursos para dar armas a vários países do que em ajudar os pobres em questões de energias limpas e em seus programas de ajuda estrangeira. Obama propôs multiplicar por mais de três o fundo de ajuda estrangeira no próximo ano a fim de elevá-lo a US$ 717 milhões, em relação aos US$ 121 milhões atuais.

A brecha entre gasto militar e climático diminui de forma significativa, mas, como o governo destinou quase US$ 2 bilhões adicionais a programas de assistência militar no pacote de estimulo, prejudicou os esforços que havia feito para corrigir o desequilíbrio. Investir na luta contra a mudança climática gera mais postos de trabalho do que a indústria bélica. Além disso, os exércitos dependem de fundos públicos, enquanto as iniciativas ambientais incentivam a participação do setor privado. Por fim, investir mais em programas verdes do que na defesa não necessariamente implica a perda de fontes de trabalho no setor de armamento porque a alta tecnologia desenvolvida na indústria militar pode transferir-se facilmente para iniciativas ambientais, segundo o informe. IPS/Envolverde

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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