SOCIEDADE-BALCÃS: Quem quer casar?

Sabac, Sérvia, 10/08/2009 – Desde que se casou com o sérvio Dusan, a ucraniana Ljubov Obradinovic, de 29 anos, vive na aldeia de Stitare, a cerca de cem quilômetros de Belgrado. Eles são um dos 300 casais que se uniram através da organização não-governamental Village Sill Plate, que busca companheiras para os homens solitários desta parte da Sérvia. No começo o idioma era um obstáculo para Ljubov, mas já o superou, disse. Agora, desfruta de “cultivar a terra, ver o resultado e viver em uma área cercada por hortas, vinhas, colinas e tanta vegetação exuberante”, contou.

A Sérvia tem uma grande população solteira. A pobreza causada pelas guerras da década de 90 fez com que mais de 300 mil jovens emigrasse. E depois chegou a transição para a economia de mercado, que fez com que cada vez houvesse mais pessoas sozinhas. Desde 2000, quando começou a transição, muitos dos jovens começaram a abandonar as aldeias em busca de uma vida melhor em cidades como Belgrado, Novi Sad ou Nis. Estatísticas oficiais indicam que agora 674 das 4.528 aldeias existentes estão quase completamente desertas. Restam apenas algumas pessoas, principalmente com mais de 65 anos.

E como muitos países europeus, a Sérvia também sofre uma grave redução da natalidade. De seus 7,5 milhões de habitantes, cerca de 1,3 milhão têm mais de 65 anos. “As jovens e as mulheres deixam as aldeias porque pensam que na agricultura na há futuro”, disse à IPS o sociólogo Stjepan Gredelj. “Mas, os homens jovens são pressionados por seus pais idosos para que não abandonem a terra que querem manter na família. Assim, muitos homens ficam as aldeias, mas permanecem solteiros”, explicou.

O Escritório de Estatísticas diz que em toda a Sérvia há quase 260 mil agricultores solteiros de 50 anos que não formaram suas próprias famílias devido a essas circunstâncias. “Decidimos ajudá-los”, contou à IPS o diretor da Village Sill Plate, Slobodan Nikolic. “Formar casais era o mínimo que a organização podia fazer, mas as moças sérvias não pareciam interessadas. Por isso, recorremos à Ucrânia e Rússia, e nos últimos anos o resultado foi de 300 casamentos nesta parte do país”, destacou. Nikolic trabalha principalmente através da Internet para manter uma tradição do século XIX. Esses casamentos funcionam porque “temos raízes semelhantes, compartilhamos a mesma religião (católica ortodoxa) e os idiomas são muito próximos. Além disso, as mulheres destes países não temem o trabalho duro”, afirmou. Mas a religião não parece importar muito quando se busca casar com homens solteiros de determinada idade. Cerca de 200 jovens católicas do norte da Albânia se casaram com homens de famílias ortodoxas em aldeias do centro da Sérvia, nos arredores do pequeno povoado de Ivanjica.

Isto começou há três anos, por meio de contatos entre Ivanjica e organizações de assistência humanitária no povoado albanês de Shkodra. “Tínhamos moças albanesas sem terem com quem casar, e homens sérvios que envelheciam sem formar uma família”, disse à IPS Vojin Vucicevic, da organizações não-governamental sérvia Stara Raska. “Elas procediam de famílias grandes de aldeias pobres do norte. São trabalhadoras e estão felizes por formarem uma família. Aprendem sérvio rapidamente e unem-se à Igreja Ortodoxa”, acrescentou.

As reuniões para formação dos casais ocorrem principalmente nas tradicionais feiras de verão na Sérvia central. Estes eventos marcam o fim da temporada de colheita. Durante décadas, as feiras foram a ocasião para os jovens se conhecerem ou para as famílias aprovarem os casamentos. À feira deste ano em Ivanjica chegaram da Albânia ônibus lotados de mulheres jovens e suas famílias. E agora a sociedade civil decidiu intervir para unir corações e lares.

Mas, a solidão não é apenas para os agricultores. Recentes estudos mostram que os sérvios resistem a abandonar o conforto de suas casas paternas para se casarem e formar seus próprios lares. Ter filhos é uma decisão que vai sendo adiada, se é que chega a ser considerada. Segundo um estudo divulgado no mês passado pela consultoria Gallup, a Sérvia tem 1,9 milhão de habitantes entre 20 e 40 anos. Desse grupo etário, 47% ainda estão solteiros e muitos nem sequer pensam em casamento. Além da comodidade de viver com os pais em boa situação econômica, muitos simplesmente não querem dividir sua vida nem sua renda.

“Esse comportamento não dá lugar aos compromissos familiares, com as responsabilidades que implicam os filhos”, disse a psicóloga Vesna Brzev. “Muitas dessas pessoas simplesmente têm longas jornadas de trabalho e não contam com oportunidade para conhecer gente nova. Por isso podem ser vistas em bares ou cafés, sentadas em grupos, com mulheres jovens de um lado e homens jovens de outro. Estão a apenas um passo das possibilidades, mas, quem quer aproveitá-las?”, disse.

(IPS/Envolverde)

Vesna Peric Zimonjic

Vesna Peric Zimonjic is a freelance journalist working from the Balkan region with more than three decades of experience. She has contributed to IPS since the disintegration of the former Yugoslavia in 1991. Vesna also conducts political analyses of the region and contributes to the London-based daily The Independent, BBC World Service and German Deutsche Welle radio and television.

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