DESARMAMENTO: AIEA teria usado documentos falsos contra o Irã

Washington, 16/09/2009 – A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) assegura que seu objetivo no caso do Irã é determinar se são autênticos os documentos de inteligência que supostamente revelam um programa nuclear oculto desse país, mas queixa-se que Teerã não colabora para o esclarecimento. Porém, a IPS conseguiu saber que essa agência da Organização das Nações Unidas negou-se a reconhecer publicamente a significativa evidência apresentada pelas autoridades iranianas de que os documentos foram fraudados, e pouco fez para verificar a autenticidade da informação ou para exigir mais detalhes aos governos que a apresentaram.

A AIEA sugeriu em seus informes que a documentação era confiável porque “parece ter derivado de múltiplas fontes ao longo de diferentes períodos de tempo, é detalhada em conteúdo e parece consistente no geral”. O chefe do Departamento de Salvaguarda da organização, Olli Heinonen, de fato aceitou a autenticidade dos documentos quando, em uma “reunião técnica” de fevereiro de 2008 com os Estados-membros, apresentou um informe sobre o suposto plano secreto de armas atômicas iraniano baseando-se nesses textos. A AIEA promoveu a idéia de que o Irã não respondera de forma adequada à “substância” desses documentos, tendo se concentrado apenas em seu “estilo e formato de apresentação”.

Entretanto, Teerã apresentou séria evidência de que os documentos são fraudulentos. O representante permanente iraniano junto à ONU em Viena, Ali Asghar Soltanieh, assegurou à IPS que explicara a uma equipe da AIEA durante reunião em Teerã no ano passado que nenhum desses documentos tinha marcas de segurança de nenhum tipo, e que as supostas cartas do Ministério da Defesa do Irã não possuíam o timbre oficial que lhes daria credibilidade. Soltanieh acrescentou que desde então ressaltou o mesmo ponto “várias vezes” nas reuniões com a Junta de Governadores da AIEA. “Nunca ninguém me questionou algo”, disse o embaixador.

A agência jamais reconheceu publicamente o problema da falta de marcas de segurança ou selos oficiais nos documentos, e omitiu mencionar a queixa iraniana em seus informes. Seu relatório de 26 de maio de 2008 indicava apenas que o Irã havia assinalado “que os documentos não estavam completos e que sua estrutura era diversa”. Mas um alto funcionário da AIEA familiarizado com a investigação iraniana – que falou à IPS sob a condição de não ser identificado – confirmou que Soltanieh também havia apontado a falta de marcas de segurança que dão validade aos documentos. Entre estes havia correspondência entre o “líder do projeto”, o Ministério da Defesa e os executores.

Apesar de reconhecer que a falta dessas marcas poderia afetar a credibilidade dos textos, defendeu a negativa da agência em omitir o problema. “Não é um argumento determinante”, afirmou. A fonte sugeriu que os Estados que forneceram os documentos poderiam afirmar que retiraram as marcas de segurança antes de entregá-los à AIEA, embora não tenha esclarecido porque séria eliminada essa informação importante para a autenticidade. “Não sabemos se as cartas originais tinham a marca de segurança”, afirmou, reconhecendo que a agência não perguntou aos Estados Unidos nem a outros países que forneceram os documentos sobre a ausência dessa verificação.

A aparente falta de preocupação da AIEA quanto à ausência de marcas de segurança e selos nesses textos contrasta drasticamente com a investigação que fez sobre os documentos citados pelo governo de George W. Bush para invadir o Iraque em 2003. nesse caso, a agência concluiu que os documentos apresentados por bush para denunciar um suposto plano atômico iraquiano eram falsos com compará-los com a “forma, o formato, o conteúdo e as assinaturas” de outra correspondência relevante, segundo afirmou perante o Conselho de Segurança da ONU o diretor-geral da AIEA, Mohamed El Baradei, em 7 de março de 2003.

O Irã também apresentou à AIEA evidência de que notas escritas à mão em uma carta de maio de 2003, que supostamente vinculavam um contratista privado iraniano com o projeto nuclear, foram fraudadas por um agente externo. A carta foi redigida por uma empresa de engenharia e dirigida à companhia privada Kimia Maadan, que outros documentos identificariam com responsável pelo suposto plano secreto para fabricar armas atômicas.

A cópia da carta entregue à AIEA por um governo não identificado não tinha relação direta com o projeto, mas as notas escritas à mão a relacionavam com indivíduos mencionados em outros documentos de inteligência e apontados como participantes do plano de desenvolvimento atômico. Mas a carta original, que Teerã entregou à agência, não continha notas feitas à mão. O embaixador Soltanieh assegurou ter mostrado a carta original a uma equipe da AIEA liderada pelo subdiretor do Departamento de Salvaguarda, Herman Nackaerts, em janeiro de 2008 IPS/Envolverde

Gareth Porter

Gareth Porter is an independent investigative journalist and historian who specialises in U.S. national security policy. He writes regularly for IPS and has also published investigative articles on Salon.com, the Nation, the American Prospect, Truthout and The Raw Story. His blogs have been published on Huffington Post, Firedoglake, Counterpunch and many other websites. Porter was Saigon bureau chief of Dispatch News Service International in 1971 and later reported on trips to Southeast Asia for The Guardian, Asian Wall Street Journal and Pacific News Service. He is the author of four books on the Vietnam War and the political system of Vietnam. Historian Andrew Bacevich called his latest book, ‘Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War’, published by University of California Press in 2005, "without a doubt, the most important contribution to the history of U.S. national security policy to appear in the past decade." He has taught Southeast Asian politics and international studies at American University, City College of New York and the Johns Hopkins School of Advanced International Studies.

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