Istambul, 13/10/2009 – As reuniões anuais do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional terminaram em um clima de cautelosa esperança para a economia, e com uma cesta de oportunidades e desafios para as duas instituições. Durante o encontro, que terminou na quarta-feira, ressoou o mantra do presidente do Banco Mundial, Roberto Zoellick, de que “é muito cedo” para declarar uma vitória sobre a crise financeira mundial.
Antes das reuniões nesta cidade turca, o FMI havia revisto suas previsões para a economia mundial e previsto queda de 1,1% este ano e crescimento de 3,1% em 2010. entretanto, o crescimento não será compartilhado de maneira igual por todos os países. A China e as economias asiáticas emergentes, provavelmente, crescerão 9,1% e 7,8%, respectivamente, no último trimestre do próximo ano, enquanto as nações com alta renda alcançarão expansão de apenas 1,7%.
Embora 1,6 bilhão de pessoas estejam diretamente expostas à crise, quase exclusivamente nos países pobres, as economias emergentes parecem ser menos vulneráveis do que as naçõesindustrializadas, em termos relativos. Espera-se que o número de pessoas pobres aumente 90 milhões no próximo ano, enquanto pelo menos 59 milhões se unirão às fileiras dos desempregados, conforme afirmou Zoellick em seu discurso de abertura.
“A era pós-crise está no horizonte, mas é uma recuperação sem empregos”, lamentou o vice-presidente do Banco Mundial para Europa e Ásia central, Philippe Le Houerou. A região da Ásia central parece particularmente débil nesse sentido: a população empobrecida (que ganha menos de US$ 2,5 por dia) crescerá para 35 milhões, e a vulnerável (com renda inferior a US$ 5 diários) saltará para 150 milhões até o final deste ano.
A perda de empregos afeta mais as famílias de renda média do que as mais pobres. O desemprego na Turquia duplicou em 2009, em comparação com o ano anterior, de acordo com informação do Banco Mundial. As estatísticas do governo turco nessa área são menos pessimistas, situando o índice de desemprego em 14,8%, contra 11% de nove meses atrás. Entretanto, os partidos de oposição indicam que esse nível situa-se entre 18% e 20%.
Esta incerteza sobre o futuro da economia e a natureza dos perigos despertou sérias dúvidas sobre o papel das instituições de Bretton Woods. Mas a tendência agora parece estar mudando. Desde as críticas iniciais, quando eclodiu a crise, em setembro de 2008, o FMI e o Banco Mundial começam a surgir como potências salvadoras de um desastre mundial. O diretor-gerente do FMI, Dominique Straus-Kahn, mais conhecido nos círculos financeiros por “DSK”, foi rápido em aproveitar a oportunidade a favor do Fundo e atribuir-lhe um papel maior na coordenação da economia internacional.
Nos preparativos para o encontro de Istambul, o Comitê Financeiro e Monetário Internacional, que dirige as políticas do FMI, pediu aos delegados que tratassemquatro áreas de reformas-chave para a instituição: o mandato do FMI, seu papel financeiro, a supervisão multilateral e o gerenciamento. “Essas decisões de Istambul serão um ponto central de nossas atividades para o próximo ano”, disse Strauss-Khan no encerramento da reunião. As decisões incluem um plano para revisar o mandato do Fundo, permitindo que seja mais ativo em formular e seguir de perto as políticas no setor macroeconômico e financeiro que afetem a estabilidade global. Também buscam impulsionar o êxito do programa de Linha de Créditos Flexíveis.
Um dos principais desafios para o dirigente do FMI é dar-lhe nova influência para convencer os países, que buscam segurança criando grandes reservas, a dependerem mais desse organismo para sua proteção, recuperação e crescimento. O acúmulo de reservas cria desequilíbrios entre as economias. Mas o Fundo terá de trabalhar duro para conseguir a aceitação nesse papel. Os líderes do Grupo dos 20 países industrializados e emergentes, reunidos recentemente na cidade norte-americana de Pittsburgh, expressaram sua intenção de exercer maior controle sobre o papel do FMI.
Também pediram uma ampla gama de reformas na direção do Fundo, para conseguir uma representação mais eqüitativa entre os países do Norte industrializado e do Sul em desenvolvimento na tomada de decisões. Straus-Kahn em várias ocasiões aplaudiu em Istambul o surgimento do G-20, e aproveitou a oportunidade para destacar que o FMI está formado por 186 países, representando todos os níveis da economia mundial. Desta forma, referiu-se a um ponto-chave de crescente disputa dentro desse organismo.
Como o G-20 prevê entregar um bilhão de dólares ao FMI em 2010 para criar um fundo central destinado a equilibrar a economia internacional, os países menos desenvolvidos lutam para ter maio acesso na tomada de decisões e na supervisão desse dinheiro. Isto derivou em um movimento entre as economias emergentes para pedir maior poder de voto nos órgãos multilaterais de crédito, atualmente dominados pelos países do Norte. Como exemplo, a Alemanha tem 5,9% dos votos no FMI e a China 2,7%, embora o produto interno bruto chinês seja, aproximadamente, 20% maior do que o alemão. IPS/Envolverde

