DAKAR, 24/11/2009 – Na região do sul do Senegal, 58 por cento dos partos têm lugar em casa sem qualquer assistência médica, de acordo com funcionários governamentais responsáveis pela saúde reprodutiva em Kolda, uma vila a 425 quilómetros da capital, Dakar. As mulheres na região sofrem de índices muito elevados de fístula. A fístula obstétrica ocorre quando pressão contínua estraga o frágil tecido do pélvis da mulher durante o parto. Eventualmente o tecido morre por falta de irrigação sanguínea e aparece um buraco entre o recto e a vagina ou entre a bexiga e a vagina, levando a mulher a perder o controlo sobre o fluxo da urina e, às vezes, das fezes.
O Dr. Charles Antoine Diatta, presidente da Comissão Médica do Hospital Regional de Kolda, afirma que, por cada 20 partos no hospital, pelo menos nove mulheres desenvolvem fístula. A causa dessa situação é o acompanhamento inadequado durante a gravidez.
“Nas nossas regiões do sul, as raparigas casam-se entre os 13 e 15 anos. Estão a meio da adolescência e, de uma perspectiva morfológica, a sua cintura pélvica ainda não está plenamente formada. Esta é uma das causas da fístula porque, durante o nascimento, o trabalho de parto torna-se prolongado,” explicou à IPS.
De acordo com Diatta, o custo do tratamento médico da fístula varia entre 70.000 e 150.000 francos CFA (quase $320).
“A pobreza extrema nestas comunidades quer dizer que as mulhereres que sofrem de fístula se afastam dos centros de saúde e, muitas vezes, não regressam depois de uma consulta. Ter vergonha da sua condição também as mantém afastadas, assim como estarem conscientes do odor que emitem.”
Fatou Sow tem 55 anos e vem da aldeia de Sarre Kemo, na região de Kolda. Tem fístula. A sua cara enrugada e sofredora conta a história do sofrimento interior de uma mulher oprimida pela doença há mais de 15 anos.
De acordo com Sow, foi durante o sexto parto que apareceu a fístula. “O meu marido, que tem outras duas esposas, deixou-me. Sentia-me mal e passava os dias a esconder-me dos olhos curiosos,” disse.
Contou à IPS que uma das vizinhas lhe explicou que havia um tratamento para a fístula. “Fui ao hospital em Kolda para fazer um exame médico. Encontrei a equipa de sensibilização do UNPFA (Fundo das Nações Unidas para a População). Fui hospitalizada e fiz uma operação bem sucedida – gratuitamente.”
Mas nem todas as mulheres que sofrem de fístula no sul do Senegal têm tanta sorte. Roukhia Ba, mãe de 24 anos com um filho, desenvolveu fístula aos 13 anos.
“Foi durante o meu primeiro parto que me apareceu a fístula. O meu marido deixou-me, a minha família também. Às vezes, vou ao hospital mas, frequentemente, não posso ir por falta de dinheiro. Precisamos que o Estado nos ajude. Tantas mulheres vivem com esta condição,” disse à IPS.
De acordo com o Dr. Jacques Diam Ndour, chefe dos médicos no distrito de Kolda, a região do sul do Senegal é muito isolada e os hospitais precisam de pessoal e equipamento.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) refere que existem sete médicos para cada 100.000 pessoas no Senegal e uma parteira para 400.000 pessoas. Na região de Kolda, com cerca de 850.000 habitantes, há nove médicos e quatro parteiras. Na região de Ziguinchor, no sudoeste do país, existem cinco médicos e duas parteiras para uma população de 550.000.
Estas percentagens ficam muito além dos padrões exigidos pela OMS. O relatório mundial de 2006 sobre saúde calcula que os países com menos de 2.28 médicos, enfermeiras e parteiras por cada 1.000 habitantes geralmente não atingem o alvo de 80 por cento de partos acompanhados por pessoal especializado e 80 por cento de crianças vacinadas.
“Temos falta de pessoal especializado nesta área. Temos de tomar em consideração que todas as parteiras do Senegal estão em Dakar, em Thies, na região central do país, e em São Luís, a antiga capital colonial do longínquo norte. Precisamos de enviar mais parteiras às remotas áreas do sul, para reduzirmos as complicações decorrentes dos partos,” disse Ndour à IPS.
Adama Ndoye, que dirige o gabinete de saúde reprodutiva do UNPFA, acredita que, se existem muitas mulheres que sofrem de fístula no sul do Senegal, essa situação se deve ao facto da região ser vista como muito conservadora e muito enraizada nas suas tradições.
Ousmane Baldé, o imam da Grande Mesquita em Kolda, lamenta a qualidade de vida destas mulheres na região, mas diz que os líderes religiosos não podem ser considerados responsáveis pela situação.
Afirmou à IPS, “Se um pai quiser que a sua filha de 10, 11 ou 12 anos se case com um octogenário, não podemos recusar esse pedido. Simplesmente acompanhamos o processo até ao fim e garantimos que se efectue conforme manda a tradição. Acredito que é o Estado que é culpado neste situação. Os efectivos a nível da enfermagem não são adequados.”
Segundo Assane Diagne, director de saúde pública em Kolda, o governo tem feito campanhas conjuntas com o UNFPA para combater e eliminar a fístula no Senegal.
“Entre Janeiro e Março deste ano, o Estado organizou campanhas de sensibilização e de tratamento da fístula. Os médicos trataram perto de 10 mulheres em Ziguinchor, mais a sul, e em São Luís, no norte. Estas campanhas também representam uma oportunidade para formar cirurgiões e ginecologistas que trabalhem nestas zonas,” disse.
Ousmane Diaw, estudante do último ano do liceu em Kolda, acredita ser necessário promover uma maior sensibilização entre os jovens e os pais.
“Aqui as raparigas não vão à escola. Casam-se muito novas. Tenho colegas que saíram da escola para se casarem. Algumas morreram durante o parto e outras ficaram com fístula. Penso que é importante que os pais mudem a sua maneira de pensar, mas também devemos castigar severamente aquelas mulheres que fazem circuncisão feminina,” disse à IPS.

