MUDANÇA CLIMÁTICA: A China é alvo de críticas

Pequim, 17/12/2009 – A China não está contente. Assim resumiu o jornal China Times o sentimento do governo diante do andamento das negociações sobre mudança climática em Copenhague e que terminarão na sexta-feira. Após um enfrentamento público com os Estados Unidos no início da 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP-15), China foi atacada por pequenas nações em desenvolvimento por ser a que mais se beneficiou dos fundos de créditos de carbono.

Próximo do final da cúpula, Pequim tenta desviar os argumentos críticos de que é responsável por não se alcançar um acordo. Os representantes e delegados dos países presentes na capital dinamarquesa procurarão fixar objetivos mais rígidos em matéria de redução de emissões de gases-estufa, responsáveis pelo aquecimento global, para as nações em desenvolvimento e outros para os que não assinaram o Protocolo de Kyoto, cujas metas expiram em 2012.

O Protocolo de Kyoto obriga os 37 países industriais que o ratificaram a reduzir suas emissões até 2012 em 5,2% com relação aos níveis de 1990. O pessimismo de Pequim sobre as negociações da COP-15 aumenta e não há sinais de um “cessar-fogo”, afirmou o China Time, ao descobrir os campos enfrentados em Copenhague com termos retirados do famoso livro “Arte da Guerra”, atribuído a Sun Tzu.

As delegações oficiais e as organizações ambientais têm consciência da importância da China para se chegar a um acordo na COP-15. “É a primeira oportunidade para Pequim participar de uma cooperação verde em âmbito internacional”, disse Hu Angan, destacado economista e ativista por um futuro de baixo carbono. “Pequim sabe que se vencermos o mundo vencerá. Se a China fracassar o mundo fracassará”, disse. As negociações paralisaram pelo prolongado distanciamento entre países pobres e ricos e pela nova fratura surgida entre nações em desenvolvimento.

A China ocupou um lugar de destaque nos dois conflitos e parece se preocupar com isso, o que a converte em alvo das críticas que a responsabilizam pela situação. “As pessoas dirão que se não houver acordo a culpa é da China”, disse o vice-chanceler chinês, He Yafei, ao Financial Times. “É uma armadilha dos países industriais. Têm de observar sua própria posição e não podem usar a China com desculpa. Este país não é um obstáculo” para o acordo, destacou.

A China acusou na terça-feira os países industrializados de voltarem atrás em suas obrigações na luta contra a mudança climática e alertou que as negociações estavam em uma fase crítica. Houve “algumas regressões” de parte dos países industriais sobre seu apoio ao financiamento, disse em Pequim a porta-voz da chancelaria, Jiang Yu. A mudança “coloca obstáculos à conferência de Copenhague”, acrescentou.

China e Estados Unidos, os maiores emissores de dióxido de carbono, travaram uma guerra verbal na capital dinamarquesa. Chocaram-se em assuntos-chave como de que forma compartilhar a carga de reduzir drasticamente os gases-estufa e se o país norte-americano tem uma “dívida climática” com nações em desenvolvimento. Pequim afirma que as nações ocidentais construíram sua prosperidade graças aos combustíveis fósseis e devem assumir o crescimento das emissões contaminantes.

Mas a Agência Internacional de Energia Atômica previu que quase todo aumento dos gases-estufa liberados na atmosfera nas próximas duas décadas procederão das economias emergentes, metade emitidos pela China. Os Estados Unidos rejeitaram a ideia de “reparações climáticas” e questionaram a necessidade de a China, agora a economia de maior crescimento, receber uma proporção dos fundos dos países ricos para ajudar as nações em desenvolvimento a mitigar os efeitos da mudança climática. “Não prevejo fundos públicos, por certo não dos Estados Unidos, para a China”, disse na semana passada Todd Stern, chefe da delegação norte-americana em Copenhague.

As nações em desenvolvimento mais pobres ainda precisam da ajuda do Ocidente para nutrir tecnologias de energia limpa, mas já não é o caso da China, acrescentou. Pequim prometeu reduzir o volume de gases emitidos para cada ponto percentual do produto interno bruto, entre 40% e 45% até 2020. Mas devido às projeções de crescimento, de fato, poderia duplicar em relação à quantidade registrada em 2005.

O gigante asiático apresentou-se em Copenhague defendendo interesses das nações em desenvolvimento, mas teve diferenças com seu próprio lobby. Dezenas de países pobres, liderados pelo pequeno Estado insular Tuvalu, pediram tetos obrigatórios para a emissão de gases contaminantes das grandes economias emergentes como a China, a partir de 2013. Pequim se nega de forma consistente a estabelecer tetos obrigatórios por temer prejudicar seu espetacular crescimento econômico e reiterou sua posição em Copenhague.

Em um gesto visando a restabelecer as relações com seus aliados mais pobres, Pequim deu a entender que se dispõe a renunciar aos fundos das nações ricas que lhe cabem para ajudar as mais pobres a lidar com a mudança climática. “É uma obrigação legal dar recursos econômicos às nações em desenvolvimento para que possam lidar com a mudança climática. Isso não significa que a China fique com uma parte, seguramente não. Não pretendemos que Estados Unidos, Grã-Bretanha ou outros deem dinheiro à China”, disse He Yafei ao Financial Times.

A declaração foi um sinal de mal-estar de Pequim pela fragilidade da unidade entre os países em desenvolvimento e as implicações que as disputas possam ter no avanço das negociações, segundo vários analistas. “As negociações climáticas mostrarão a nova visão de mundo da China” insistiu Qing Hong, pesquisador do Centro para a China e a Globalização, com sede em Pequim. “Ao contrário do que se acredita, a China nem sempre adere aos seus próprios interesses nacionais. Muito pelo contrário, e mostrará à comunidade internacional que em matéria de mudança climática suas próprias considerações transcendem suas fronteiras nacionais”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

Antoaneta Bezlova

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