Bonn, 16/05/2005 – Especialistas governamentais e técnicos realizarão este mês várias reuniões na cidade alemã de Bonn para revisar a implementação de seus compromissos em matéria de mudanças climáticas. Haverá um "intercâmbio formal" entre especialistas governamentais nesta segunda e terça-feira, informou à IPS Carrie Assheuer, do escritório da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas em Bonn. O seminário tratará primeiramente de "ações vinculadas com a mitigação e adaptação para ajudar os países participantes da Convenção a continuarem desenvolvendo respostas efetivas e apropriadas às mudanças climáticas". Em segundo lugar, considerará "as políticas e medidas adotadas pelos governos em apoio à implementação dos compromissos" incluídos na Convenção e em seu Protocolo de Kyoto. A seguir, haverá a 22ª sessão dos órgãos subsidiários da Convenção. O assessoramento científico e tecnológico se reunirá entre os dias 19 e 27, e o de implementação entre 20 e 27.
A Convenção, vigente desde 1994, é o primeiro compromisso dos países pela redução das emissões de gases causadores do efeito estufa que, segundo a maioria dos cientistas especializados em clima, causaram um grande aquecimento do planeta durante o século XX. O principal desses gases é o dióxido de carbono, que surge da queima de combustíveis fósseis como petróleo, gás e carvão em processos industriais e de transporte. Da lista também figuram o metano e o óxido nitroso, entre outros. Os 10 anos mais quentes desde que os registros começaram a ser feitos ocorreram depois de 1987. O pior foi 1998. A temperatura média entre 1860 e a década de 90 aumentou entre 0,3 e 0,6 graus, segundo diversos estudos. No século passado, o nível do mar subiu entre 10 e 25 centímetros, segundo especialistas.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, que reúne especialistas dos países participantes da Convenção, calculou em 2001 que a temperatura do planeta aumentará entre 1,4 e 5,8 graus entre 1990 e 2100 se não forem tomadas ações contra as emissões de gases que causam o efeito estufa. As conseqüências de uma temperatura ainda maior incluem furacões, inundações, secas, aumento de enfermidades infecciosas e sua aparição em zonas frias onde não existiam, além de prejuízos para a agricultura. O Protocolo de Kyoto, aprovado em 1997 e em vigor desde fevereiro deste ano, estabelece para 38 países industrializados metas que podem ser quantificadas e prazos para a redução de emissões. Esses países devem diminuir em média, 5,2% entre 2008 e 2012 suas emissões de gases causadores do efeito estufa em relação aos volumes emitidos em 1990.
Porém as emissões desses gases aumentaram 11% na primeira década da vigência da Convenção, segundo pesquisa do Instituto de Recursos Mundiais, um centro acadêmico independente com sede em Washington. As reuniões em Bonn se tornaram matéria controvertida na sexta-feira, quando a organização Amigos da Terra Internacional disse que o seminário não terá capacidade para determinar medidas a fim de reduzir os efeitos das mudanças climáticas. "A alteração do clima é a maior ameaça que o planeta enfrenta", disse a encarregada de campanhas sobre clima dessa organização, Catherine Pearce. "Então por que esta conferência da ONU ignorará as ações urgentes necessárias para solucioná-lo?".
O seminário foi convocado na última conferência das partes da Convenção realizada em dezembro, na Argentina, e não tem em sua agenda a abertura de negociações sobre os compromissos futuros para depois de 2012, quando terminará o prazo das metas atuais, afirmou a ativista. Mas essa circunstância implica "uma oportunidade sem precedentes para que os governos discutam ações fora das negociações formais, como medidas nacionais para reduzir emissões estratégias que lidem com o impacto das mudanças climáticas", afirmou a Amigos da Terra. O seminário deveria "ir além de falar sobre os esforços para cumprir as metas do Protocolo de Kyoto e estabelecer bases para um processo formal com vistas a negociações para depois de 2012, que serão lançadas em Montreal", acrescentou a organização.
Os futuros compromissos deveriam garantir que as temperaturas mundiais não aumentem mais de dois graus acima das registradas antes do século XX, segundo a Amigos da Terra. "Este seminário deveria ser a instância para os países industrializados mostrem o quanto são sérios em seus compromissos sobre mudanças climáticas", afirmou Pearce. A organização informou sobre a realização de uma manifestação diante da sede do seminário, e que o ministro de Meio Ambiente alemão, Jurgen Trittin, estaria presente. Mas "isto soa como se a Amigos da Terra já tivesse formado sua opinião, quando o seminário ainda nem foi realizado", afirmou Assheuer. (IPS/Envolverde)

