MUSOMA, Tanzânia, 06/01/2010 – Na esquina mais escura do quarto, entre o alarido das vozes de doze mulheres, está sentada Ghati Chacha*, que mal pode ser ouvida. Dá de mamar ao filho recém-nascido enquanto fala em voz baixa sobre como recusou a circuncisão feminina. “Recusei porque (o anterior) Presidente Mkapa tinha banido a circuncisão na Tanzânia,” disse. No entanto, depois dessa decisão, Chacha foi obrigada a casar com um homen de 80 anos porque, de acordo com o costume local Kurya, no distrito de Mara, no norte da Tanzânia, deixara de ser mulher apropriada para um homem da sua idade. “O meu pai obrigou-me a casar,” contou. “Tentei recusar, mas o meu pai mandou-me sair de casa. Só recebeu 12 vacas pelo meu casamento.” É óbvio que Chacha é a única no quarto que não foi circuncidada e a sua história é interrompida enquando as outras mulheres no quarto gritam para serem ouvidas. “Os homens jovens riem-se uns dos outros se casarem com mulheres que não estejam circuncidadas,” disse Mondesta Mugaya, mulher de 65 anos que costumava fazer circuncisões na vila de Kitarmanka, no distrito rural de Musoma. “E as raparigas não circuncidadas ainda são consideradas crianças,” disse. “Nas cerimónias tradicionais, não é permitido às mulheres que não estão circuncidadas estarem presentes.” “Deixei de acreditar na circuncisão das raparigas mas, sem ela, as raparigas são mais promíscuas.”
Sinto-me menos mulher Bhoke Mwita tinha 18 anos quando foi circuncidada. “Primeiro marcaram a data, altura em que cerca de 100 raparigas são circuncidadas juntas. Não conseguimos dormir no dia anterior quando estamos a ser preparadas. Há muitas celebrações, batuques e comida. No dia do acontecimento, não podemos comer ou beber porque talvez venhamos a urinar ou fazer qualquer outra durante o processo. “Toda a gente canta, a tentar fazer-nos contentes. Chegamos ao local especial e as raparigas estão sentadas em cima das kangas (o material de algodão usado normalmente para fazer saias) e em fila. Toda a gente da comunidade está presente, homens, rapazes, mulheres e as crianças. As mulheres mais velhas efectuam o peditório do dinheiro na comunidade antes de começarem. “Esperámos a nossa vez. “Quando chegou à minha vez foi muito doloroso e senti uma dor intensa, mas não podemos chorar. Se chorarmos, podemos ser espancadas e deixadas no local.” “Sangrei muito e cai no chão, mas não chorei.” “Demora entre três a seis semanas para a ferida sarar, e depois da circuncisão, somos consideradas verdadeiras mulheres, prontas a casar.” “Depois da circuncisão, senti-me menos mulher,” disse Mwita, “porque o sistema fica alterado, e não me sentia mulher”. “Se as raparigas morrerem durante a circuncisão, o que acontece muitas vezes, não são enterradas em casa. São atiradas para o mato e comidas pelas hienas. Isso é considerada uma maldição e um malefício (não sobreviver à circuncisão) e, por isso, todos os seus pertences têm de ser retirados de casa para eliminar a maldição.
No gabinete da Mamã Regina, na Diocese Católica de Musoma, Bhoke Mwita* sorri. Está sentada numa cadeira de Madeira, balouçando as pernas enquanto brinca com o telemóvel. Em 2004, ela e os dois filhos encontraram refúgio aqui.
“O meu marido morreu em 2003,” diz, “e eu devia ter sido herdada pelo irmão do meu marido, mas recusei. Disse que precisava de tempo para pensar no assunto. Depois fugi.”
Foi a Mamã Regina Andrew que, não muito depois de ter iniciado uma campanha contra a MGF (Mutilação Genital Feminina) na diocese, encontrou Mwita na sua aldeia a pedir ajuda. Como assistente do programa Mulheres em Desenvolvimento (WID), a Mamã Regina ajudou 36 raparigas a escaparem à MGF, e outras 90 mulheres a escaparem de problemas como abuso doméstico e casamentos forçados.
“É uma das maiores cerimónias na tradição Kurya,” referiu a Mamã Regina. “Perto de 95 por cento das raparigas ainda continuam a ser circuncidadas no Distrito de Tarime.
“A lei está contra a MGF, mas não sabemos como é que o governo está a lidar com esta questão,” acrescentou.
A tradição foi proibida em 1998, mas está profundamente enraizada e, de acordo com a diocese, só nos últimos dez anos é que as percepções começaram a mudar.
A Mamã Regina e algumas Irmãs visitam as aldeias regularmente para organizarem reuniões e eventos públicos; também iniciam grupos de trabalho para prestar informações sobre os direitos das mulheres e crianças, especialmente sobre os efeitos da MGF.
“Não é uma tarefa facíl porque as mulheres não são vistas da mesma maneira que os homens, não sendo vistas como tão importantes. As mulheres fazem uma grande parte do trabalho de casa, nas explorações agrícolas, tratam dos filhos, mas são os homens que beneficiam,” disse.
“As raparigas são vistas como algo que gera rendimento para a família,” disse a Mamã Regina. “Os pais não veêm motivo algum para mandar as raparigas para a escola, porque não recebem um dote quando a rapariga se casa. Pensam que pode empobrecer mais a família.”
A Mamã Regina acredita que a MGF vai levar muitos anos a desaparecer entre os Kurya. “É uma espécie de religião,” disse.
“Iniciámos o grande campo de refugiadas da MGF logo fora da cidade, neste sítio, como um local onde as raparigas podem receber aconselhamento e para onde podem fugir quando escapam das suas comunidades,” acrescentou.
“Quando as raparigas regressam às suas comunidades dizem “Obrigada por esta tradição, porque fugi, e agora tenho conhecimentos. As famílias veêm que elas falam com confiança, sem receio, e isto ajuda-as a perceber a importância de suspender a MGF.
“Acredito que vai levar algum tempo para que esta situação mude, mas um dia destes será uma vergonha ser circuncidada.”
De acordo com a Mamã Regina, quando Mwita chegou à diocese, estava muito magra, nervosa e falava muito baixo. Agora, afirma a Mamã Regina, adquiriu muita confiança, força e peso, e está a completar a escola secundária.
Através do programa WID, a própria Mwita orienta agora programas de micro-financiamento dirigidos às mulheres nas aldeias, o que lhes permite iniciarem empreendimentos como a lavoura, padarias e lojas de roupas. Ela também fala em fóruns públicos e informa outras pessoas sobre os efeitos da MGF.
“Quando regresso à minha aldeia,” disse Mwita, “as pessoas respeitam-me, e têm cuidado com aquilo que me dizem. Mas isto é como que trazer valores ocidentais para aqui, e estou consciente da diferença.”
“Agora a vida é diferente para mim, é melhor estar aqui (na cidade) e não na aldeia. Agora sinto-me forte, não tenho medo, e posso lutar pelos meus direitos.”
*Não é o seu nome verdadeiro

