Havana, 15/01/2010 – O racismo é um caso pendente na sociedade cubana.
Para Morales, essas acusações “desconhecem” a realidade de seu país e “estão baseados nas mesmas campanhas que os governos norte-americanos fazem historicamente contra a Revolução Cubana. Nós falamos de racismos e dizemos que é preciso aperfeiçoar os direitos civis, democráticos, mas não apenas para os negros, mas para toda a sociedade. Nessa luta temos como aliados a mais alta liderança política do país”.
IPS – Em que falhou o projeto social da Revolução Cubana que não conseguiu eliminar as desvantagens da população negra?
Esteban Morales – Apesar da radicalização do processo iniciado em 1959, os projetos sociais, durante anos, não levaram em conta a cor. Com a vitória da Revolução dentro da política social toda pessoa foi tratada igualmente e não se diferenciou o negro, coisa que se deveria ter feito porque a cor da pele em Cuba é uma forte variável de diferenciação social. O branco chegou por vontade própria, como colonizador, com um projeto de vida que não poucas vezes realizou. O negro foi trazido forçado, e convertido em escravo. São pontos de partida diferentes, que não podem ser esquecidos e pesam até hoje.
Mesmo quando todos elevaram seu nível e os negros conseguiram uma posição mais favorável neste meio século, as profundas diferenças não desapareceram totalmente. Quando chegou o período especial (crise dos anos 90), nos demos conta de que aqueles que mais sofriam a crise eram exatamente os negros, mais longe de poderem forjar para si um projeto de vida. Mesmo na Cuba atual não é o mesmo ser pobre e branco do que ser pobre e negro.
IPS – Mas, o governo declarou resolvida a questão do racismo em 1962.
EM – Foi um erro de idealismo e voluntarismo, pressionado pelas circunstâncias políticas desses anos. A partir desse momento abriu-se um longo período de silêncio sobre o caso, justificado em que falar dessas diferenças era fazer o jogo do inimigo. Quem insistia era considerado racista e divisionista. A questão ressurgiu com força no período especial, eu diria, com a virulência própria de algo que, dado como resolvido, de fato não está. IPS – Em mais de uma ocasião se disse que neste país educa-se as pessoas “para serem brancas”. Acha justo considerar este tipo de contradição uma forma “institucionalizada” de racismo?
EM – É uma certa forma institucionalizada, mas não por uma direção ou de modo consciente, mas derivada de falhas e erros no processo educacional, no ensino da historia, na representatividade social em nosso livros. Por não tratar a fundo o problema na escola, as conseqüências da escravidão chegam até hoje. Estes problemas não têm a ver com a instituição, mas com aspectos e problemas da vida social, com imperfeições de nossa sociedade.
Em Cuba ainda falta consciência racial. Para o branco isso não é importante, porque sempre esteve no poder, mas o negro deve ter consciência racial para lutar contra o racismo e por seu lugar na sociedade. A discriminação é um fenômeno que permanece na mente das pessoas, na família, nas relações pessoais, às vezes em alguns grupos institucionalizados e isso não se resolve facilmente.
IPS – Qual é sua proposta para solucionar estas carências no campo da educação?
EM – A única maneira de resolver isto é com uma vigilância rígida das oportunidades iguais para todos no emprego, sobretudo na nova economia, isto é, no turismo, empresas mistas com capital estrangeiro, na educação e um forte trabalho cultural. Na realidade, não deveríamos educar para nenhuma cor, mas o que ocorre na prática é que nossos estudantes se educam, em geral, pensando que é melhor ser branco e que é uma desvantagem ser negro.
Temos de resolver problemas de ocidentalismo em nossa educação, aprofundar no ensino da história, África, Ásia, Oriente Médio, na representatividade racial em nossa bibliografia. Devemos levar o debate da discriminação racial à escola, para que quando o jovem vá para a rua e ouça uma expressão racista esteja em condições de se defender.
IPS – O que propõe em termos sociais?
EM – O “todos somos iguais” também foi um slogan da demagogia republicana. A igualdade é o projeto, o desejo, enquanto a desigualdade e a diferença é aquilo com que topamos todos os dias. É preciso partir das desigualdades, que existem em nossa sociedade, apesar de se lutar para resolvê-las até ao próprio limite do igualitarismo. São uma herança e, ao mesmo tempo, um fenômeno que se pode reproduzir como resultado de disfuncionalidades de nosso modelo social, que deve ser aperfeiçoado. Apenas entendo a fundo as diferenças e trabalhando sobre elas se poderá chegar à igualdade verdadeira.
IPS – Considera necessária uma política específica para a população negra?
EM – Em Cuba há uma certa política de ação afirmativa, embora não a chamemos assim. A partir de pesquisas da situação da família, os problemas das crianças, os incapacitados, os diferentes grupos sociais, chegamos, na prática, a fazer ações afirmativas, porque assim conectamos com as pessoas historicamente menos beneficiadas, mais vulneráveis.
Há fenômenos a depurar e que somente se pode fazer em separado, a habitação, o emprego, a saúde. Em tudo é preciso levar em conta a cor quanto maior é a mostra (dos estudos), mais se vê que os negros estão abaixo, os mestiços geralmente no meio e os brancos acima.
IPS – Por que não há um debate mais profundo, com expressão na imprensa da ilha, sobre este assunto reconhecido por todos?
EM – O debate está ganhando força no âmbito intelectual e comunitário, bem como nas casas de cultura, mas, também tem de ir aos órgãos do Estado, às organizações política, de massas e sociais do país. Isso é o que reclamamos, porque mais de 60% da população cubana de 11,2 milhões não é branca (entre negros e mestiços), segundo nossos estudos.
IPS – Acredita que também deve fazer parte da agenda política?
EM – Naturalmente que sim. O fato de o presidente Castro ter mencionado a questão em seu discurso diante do parlamento no dia 20 de setembro faz pensar que o assunto poderá estar na agenda do próximo VI Congresso do Partido Comunista de Cuba (PCC). E se assim não for, creio que deveria estar.
Alem disso, há duas comissões que estudam o problema desde diferentes óticas. Uma na Biblioteca Nacional e outra na União Nacional de Escritores e Artistas (Uneac). O parlamento também deveria ter uma comissão para esse assunto. Se a Assembleia nacional trata de assunto religioso, da mulher, da juventude, por que também não trata da questão racial, que considera estar no mesmo nível e ser menos atendida?
IPS – Há risco de o debate se interromper pelo medo de que possa criar divisões internas ou ser manipulado contra a Revolução?
EM – Pelo contrário, o que realmente é utilizado nas campanhas do inimigo é nosso atraso em tratar do tema e o que pode nos dividir não é debatê-lo. O que nos afeta politicamente do ponto de vista da imagem externa e interna é ter um discurso que não corresponda à realidade, porque há pouco dizíamos que não havia problemas raciais em Cuba. (IPS/Envolverde)


